Há 40 anos, milhares se mobilizaram para realizar 3º Encontro Nacional dos Estudantes

Era maio de 1977, plena ditadura militar. Evento, que seria sediado em BH, não ocorreu, mas serviu para unir a sociedade contra os militares

09/06/2017 17:25
Arquivo/EM
Depois de muita negociação, os estudantes, que estavam no Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG, saíram do prédio cercados e foram levados para o Parque da Gameleira (foto: Arquivo/EM)


Quando deixou a casa de sua família sem avisar sua tia e seus pais, na tarde de 3 de junho de 1977, a estudante de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ana Rita Trajano estava pronta para defender a todo custo a volta do movimento estudantil. Uma década depois de a ditadura militar colocar a União Nacional dos Estudantes (UNE) na clandestinidade, já era tempo de os estudantes voltarem a se organizar. Dois dias antes, o Ministério da Educação e Cultura proibiu a realização de qualquer encontro estudantil e, horas antes, o governador Aureliano Chaves determinou o bloqueio de todas as universidades da capital mineira.

Ainda assim, a vontade de tirar o movimento estudantil do escuro era grande. Cerca de 400 estudantes mineiros decidiram se antecipar e montaram um alojamento para o evento no Diretório Acadêmico (DA) Alfredo Balena, na Faculdade de Medicina da UFMG, na região central de Belo Horizonte. A partir da metade dos anos 1970, o governo federal prometia o retorno à democracia por meio de um processo gradual e seguro, período que ficou conhecido como “distensão”. No entanto, a repressão ainda dava suas caras e qualquer atuação política nas universidades eram vistas com maus olhos pelos generais.

“Saí meio que fugida de casa. Na minha casa, com uma família vinda do interior, ainda vigorava um sistema muito patriarcal e meu pai era muito autoritário, não aceitava minha participação no movimento estudantil. Ainda era tudo muito escondido, muitos livros eram proibidos e as pessoas tinham medo de se expressar. Mas os estudantes estavam em um caminho sem volta, decididos a reorganizar a UNE e defender as chamadas liberdades democráticas”, conta Ana Rita Trajano.

Apesar da proibição do governo federal e do governo estadual, os estudantes mantiveram o 3º Encontro Nacional de Estudantes (ENE), programado para 4 de junho de 1977, no DA de medicina. Estavam confirmadas as presenças de estudantes paulistas, cariocas, baianos e gaúchos, que começaram a chegar na capital na manhã daquele dia. No entanto, o cerco formado pela Polícia Militar em todas as estradas no entorno de BH, a pedido do governador Aureliano, impediu que os estudantes chegassem ao local do encontro. Ônibus com materiais considerados subversivos foram detidos em blitzes militares e vários estudantes presos.

Cerca de 400 estudantes, a maioria moradores da capital, conseguiram furar o bloqueio da ditadura ao decidir chegar mais cedo ao local do encontro. Eles ocuparam a Faculdade de Medicina na véspera da data marcada para o início do evento, mas acabaram cercados por um aparato gigantesco de militares que deixaram os batalhões ainda na madrugada do dia 4. Um compacto cordão militar fechou o certo na Avenida Alfredo Balena, impedindo que pessoas entrassem ou saíssem da Faculdade de Medicina.

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Estudantes fazem assembleia na tentativa de refundar a União Nacional dos Estudantes (UNE), extinta pelo governo dos generais (foto: Arquivo/EM)


BLOQUEIO NA ALFREDO BALENA

“Muitos estudantes estavam dentro do diretório e foram impedidos de sair. Foi um momento de muita tensão, já que ninguém sabia ao certo o que aconteceria”, lembra Jânio Bragança, presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG em 1977. Depois de muitas horas de apreensão, com os estudantes se recusando a deixar o local com as mãos na cabeça, a tropa invadiu o pátio do campus da saúde.

Enquanto a tensão aumentava dentro da faculdade, fora dela, um grupo mobilizado de estudantes atuava incansavelmente para mobilizar a sociedade para os eventos que se passavam com os colegas presos. Estudantes que ficaram do lado de fora se organizaram em grupos e conseguiram convocar milhares de parentes e amigos para as ruas da capital para evitar um massacre.

“Todos sabiam muito bem que o resultado daquela repressão dependia de uma forte presença da sociedade próxima da faculdade. Sabíamos que era preciso mobilizar ao máximo as pessoas para garantir a segurança dos nossos colegas”, conta Sandhy Barreto, diretora do DA de medicina da UFMG. A rápida movimentação dos colegas que ficaram de fora do evento deu certo e centenas de pais, preocupados com o que aconteceria com seus filhos, acompanharam os desdobramentos ao longo do dia.

Após muita negociação, com a presença de professores, do reitor da UFMG e de secretários de estado, houve o acordo para que os estudantes saíssem da faculdade sem atos de violência. Abraçados, em grupos de quatro ou cinco, eles passaram de cabeça erguida por um corredor fardado de militares e foram levados em ônibus para o Parque de Exposição da Gameleira, onde seriam fichados e interrogados.

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Estudantes fazem assembleia na tentativa de refundar a União Nacional dos Estudantes (UNE), extinta pelo governo dos generais (foto: Arquivo/EM)


MOBILIZAÇÃO NAS RUAS


“Tínhamos também um grupo mobilizado para acompanhar tudo na Gameleira, com muitos pais atrás de seus filhos, preocupados com a integridade física deles”, conta Samira Zaidan, estudante da UFMG em 1977. Cerca de 50 estudantes foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional e algumas lideranças do movimento estudantil foram presas por vários dias, como lembra o então presidente do DCE Jânio Bragança: “Deixei a faculdade em um camburão da polícia e fui levado para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social), onde fiquei uma semana preso”.

Apesar da forte repressão que impediu o 3º ENE de se realizar, os estudantes davam, naqueles dias de 1977, um passo fundamental para a retomada do movimento estudantil no país. O apoio da população contra o regime militar não parou de crescer nos anos seguintes e, aos poucos, a democracia voltou a ganhar espaço. “Na Gameleira, minha mãe e minha tia estavam muito aflitas e nervosas, querendo saber como eu estava. Vários pais que tinham parentes no Exército começaram a cobrar a liberação dos estudantes e consegui sair depois de ser fichada. Ainda me lembro bem do barulho das botas dos militares que chegaram correndo e cercaram a faculdade, mas o que fica para mim é a coragem dos estudantes de brigar para que o encontro acontecesse naqueles anos difíceis”, diz Ana Rita Trajano.

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A repressão policial ocorreu também do lado de fora da escola, na Avenida Alfredo Balena e adjacências (foto: Arquivo/EM)


CELEBRAÇÃO

40 anos do 3º Encontro Nacional de Estudantes. Amanhã, a partir das 18h, no Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG (Av. Professor Alfredo Balena, 190, Hospitais). Entrada franca.

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