Jornalista e escritor Carlos Marcelo lança romance policial ambientado em Fernando de Noronha

Em 'Presos no paraíso', arquipélago serve como metáfora da sociedade brasileira

por Pablo Pires Fernandes Nahima Maciel 09/06/2017 17:05
Ricardo Labastier/divulgação
(foto: Ricardo Labastier/divulgação)


Por décadas, o romance policial foi marginalizado e rotulado como “literatura menor”. Já há algum tempo, porém, que vários autores provaram que o gênero é capaz de alcançar a universalidade e tocar em temas importantes como qualquer outro. Presos no paraíso, romance de estreia do jornalista Carlos Marcelo, prova que, por trás da trama, que envolve assassinato, mistério e solução, é possível abordar – e discutir – questões que transcendem o mero relato detetivesco.

Diretor de redação do Estado de Minas, o jornalista e escritor de 46 anos também é o autor de dois livros de não-ficção: a biografia Renato Russo – O filho da revolução (2009, reeditada pela Planeta em 2016) e  O fole roncou! Uma história do forró, lançado pela Zahar em 2012.

A história de Presos no paraiso envolve Tobias, um historiador sem rumo na vida, e Nelsão, um delegado sagaz e de rara franqueza. O cenário é o arquipélago de Fernando de Noronha. O gatilho, um crime com duas mortes. Mas há, naturalmente, outros personagens que compõem o enredo do livro, com lançamento amanhã em BH.

À medida que a leitura avança, fluida e límpida, fica claro o cuidado da construção narrativa. As revelações sobre os personagens e suas relações são oferecidas a conta-gotas, criando complexidade na rede de subtramas. Cortes dramáticos e pausas mantêm, inevitavelmente, a atenção do leitor. O uso de diferentes tempos ou pontos de vista narrativos – o uso da primeira e terceira pessoa – garante variação dramática.

Em Presos no paraíso, os personagens, as relações e as situações por eles vividas são uma metáfora da sociedade brasileira. Ali, naquele pedaço de terra cercado de mar, estão representadas as principais riquezas e mazelas do país. O paraíso e o inferno são aqui, quiçá, dentro de nós mesmos. A seguir, uma entrevista com o autor.

arquivo pessoal
As ruínas de presídios e antigas construções estão entre os cenários de Presos no paraíso (foto: arquivo pessoal)


Nahima Maciel

Presos no paraíso tem uma trama policial, mas também um certo drama que faz dos personagens criaturas mais sólidas. Foi uma intenção?

O que me interessa nessa história está numa frase que Cristóvão Tezza falou recentemente, que pode ser resumida assim: a literatura é trama e drama. E ele se diz mais interessado em drama que na trama. No meu caso, estou interessado nos dois: em ter uma trama sólida, mas que seja protagonizada por pessoas que carregam dramas fortes.

Você diz que está interessado na trama e no drama. Enquanto estava escrevendo, isso foi um dilema?

Só percebi isso a posteriori, com essa frase do Tezza. Fui escrevendo porque queria muito contar essa história. Fui tomado por ela. E dentro desse processo surgiu um recurso que é alternar o narrador da primeira para a terceira pessoa. Isso não é muito comum. O livro trabalha em dois tempos e com dois narradores. Ele começa no presente, com o incidente do avião e o crime, a investigação do Nelsão avança enquanto a gente vai vendo o passado do Tobias. E o que me deu a chave disso foi uma característica de Noronha: existe lá uma expressão muito forte que é “mar de dentro e mar de fora”.

Como os livros de Amorim Netto e Gastão Penalva sobre Noronha, escritos na primeira metade do seculo 20, entraram na história?

Foram companheiros de jornada. Fui atrás deles em 2014 antes de ir para Noronha, encontrei esses livros raros em sebos, um deles em BH. São duas grandes reportagens. Um é de 1916, o outro de 1934/35. Eles retratam dois períodos diferentes em que Noronha tinha sido presídio. Essas marcas do passado estão muito presentes, mas vão se apagando também.

Na ficção contemporânea, é muito clara a intersecção entre a experiência vivida e a literária. Mas no romance policial isso não é tão comum. O vivido é importante para você?

Acho que sim, mas não necessariamente experiências que eu vivenciei. No romance policial isso não é um recurso muito comum.  O livro é uma somatória de experiência, vivência e observação. E a pesquisa entra em segundo plano, ao contrário do jornalismo, entra muito mais a serviço da narrativa. Mas essa tríade é fundamental para mim: invenção, experiência e observação. São os três fatores fundamentais para a construir essa história ficcional.

Literatura policial ainda é considerada entretenimento?

O argentino Ricardo Piglia é uma grande referência na valorização do gênero policial, que durante muito tempo foi tratado como subgênero. Era apenas literatura de entretenimento. O Piglia foi um dos primeiros intelectuais a reconhecer o valor literário do gênero policial como um outro gênero da literatura, onde há grandes escritores, escritores medianos e medíocres, como em todos os gêneros. Mas sem fazer um julgamento a priori, porque se trata de um gênero policial. Depois de muito tempo sendo tratado de uma forma rasteira, passou a ter esse reconhecimento.

Então não é mais considerado um subgênero?


Acho que tem mudado, mas o desafio maior no Brasil não é nem a questão do reconhecimento da literatura policial e sim o reconhecimento da literatura. A gente está num dilema anterior a esse. Esse é um dilema do Primeiro Mundo, não é um dilema brasileiro. É um dilema de nações que têm uma formação mais sólida de leitores entre os seus habitantes. Seria ótimo que houvesse debate no Brasil sobre os rumos da literatura policial, mas nem a discussão sobre a literatura brasileira contemporânea existe.

E a literatura policial no Brasil, ela tem uma cara, uma identidade?

Acho que não há uma identidade e isso é ótimo, há uma diversidade da literatura policial brasileira. Não há uma característica que una, a não ser o próprio país. O mais interessante na literatura brasileira, e vou citar o Padura como exemplo, é quando surgem elementos de um país e de uma cultura dentro dessa narrativa clássica. A gente não consegue pensar no Espinosa (de Garcia Roza) sem Copacabana, ele faz uma descrição muito minuciosa. Em Faca de dois gumes, Fernando Sabino insere elementos brasileiríssimos para fechar a história policial. Isso sempre dá um ganho quando acontece.

Em que sentido Presos no paraíso é um livro de seu tempo?


As questões políticas e sociais do Brasil estão impregnadas nos personagens. Por exemplo, a falta de perspectiva do Tobias, as dificuldades burocráticas que o Nelsão tem para comandar a delegacia, essa dualidade entre as aparências e o que é de verdade, esse abandono do patrimônio histórico. Mas acho que a literatura policial, se é que tem uma missão contemporânea, é a de devolver a relevância do ato extremo que é um crime. O crime está banalizado no nosso dia a dia e não há como competir com essa banalização. Não há nada mais extremo que morte de crianças, uma das armas do terrorismo atual, e a literatura policial tem esse poder de mostrar a dimensão do impacto que é uma morte, tanto para a vítima e seus familiares quanto para o algoz.




Presos no paraíso

De Carlos Marcelo
TusQuets Editores/Planeta
284 páginas 
R$ 39,90
Lançamento neste sábado (10), a partir de 11h, na Livraria Ouvidor (Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi).

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