Obra reúne biografias de mulheres negras que marcaram a história do Brasil

Escrito em formato de literatura de cordel, livro 'Heroínas negras brasileiras', da cearense Jarid Arraes resgata histórias 'esquecidas'

por Diário de Pernambuco 29/05/2017 08:30

Gabriela Pires/Reprodução
Laudelina de Campos criou o primeiro sindicato de empregadas domésticas do Brasil. (foto: Gabriela Pires/Reprodução)

A despeito das lutas em prol do empoderamento feminino e por igualdade racial, ser mulher e negra no Brasil ainda representa sofrer opressão em dobro. Um sintoma da exclusão social baseada no gênero e na cor da pele é o ''esquecimento'' de figuras históricas como a escritora Carolina de Jesus, a política e jornalista Antonieta de Barros, a ativista Laudelina de Campos Melo, a rainha quilombola Tereza de Benguela. Incomodada com o desconhecimento dessas personagens, a cordelista cearense Jarid Arraes deu início, há quatro anos, a uma série de folhetos biográficos sobre mulheres de origem afro cujas trajetórias marcaram a história do país. Após 20 mil exemplares confeccionados e distribuídos artesanalmente, o projeto teve os textos reunidos na coletânea Heroínas negras brasileiras (Editora Pólen).

 

Para Jarid Arraes, a limitação da historiografia às conquistas de homens brancos estimula um modo de pensar racista – inconscientemente, esses ''privilegiados'' são encarados como mais inteligentes e capazes. ''Essa é uma das armadilhas do racismo. Não ouvimos falar de cientistas negros, escritores, pessoas que marcaram a história de maneira positiva e que ajudaram na conquista de direitos de que todos usufruimos hoje'', afirma a autora. Na opinião dela, o reconhecimento de mulheres negras de destaque é um caminho para combater o racismo.


''Se aprendêssemos sobre Laudelina de Campos, que criou o primeiro sindicato de empregadas domésticas do país, ou sobre Maria Firmina dos Reis, que publicou o primeiro romance abolicionista do Brasil, isso faria diferença. Veríamos que mulheres negras foram inteligentes, estrategistas, corajosas, criativas e que foram importantes para toda a sociedade'', afirma

 

 

HEROÍNAS NEGRAS BRASILEIRAS

• De Jarid Arraes (texto) e Gabriela Pires (ilustrações)
• Pólen Livros
• 76 páginas
• R$ 35

 

 

Laudelina e Campos
Nascida em 1904, teve que largar os estudos e trabalhar como empregada doméstica com apenas 7 anos de idade. Em 1936, fundou a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos no Brasil. Militou na Frente Negra Brasileira.

 

 

Carolina aria de Jesus

Filha de analfabetos, começou a estudar aos 7 anos e logo precisou largar a escola. Catadora de papel, escrevia sobre a vida na favela. O relato deu origem ao livro Quarto de despejo (1960), traduzido para 13 idiomas e vendido em 40 países.

 

 

Tereza de Benguela
Rainha do Quilombo do Quariterê no século 18. Mantinha sistema de troca de armas com brancos e comandava a administração, economia e política do espaço. Negros e indígenas sob sua liderança resistiram à escravidão por 20 anos.

Duas perguntas para...
Jarid Arraes
Cordelista

A que atribui esse ''esquecimento'' de figuras históricas negras, em especial quando se trata de mulheres?
O machismo e o racismo são influências fortes. Na escola, não ouvi falar sequer de uma mulher negra que tenha feito algo de positivo na história. Não ouvi falar de escritoras, nem de líderes quilombolas, políticas ou artistas. Isso faz com que nosso imaginário associe apenas homens, sobretudo brancos, com os avanços da humanidade, com a intelectualidade e com lutas por direitos. Um exemplo é a forma como estudamos a escravidão e como enxergamos esse período até hoje: aprendi que os índios não aceitavam a escravidão e, por isso, foram dizimados. Por outro lado, meus professores repetiam que os negros se conformavam, ficavam passivos e, por isso, a escravidão era algo que aceitavam. Só adulta descobri que isso é uma mentira terrível. A luta contra a escravidão foi muito além de Zumbi e do Quilombo dos Palmares. Existiram muitas líderes, mulheres negras, que encabeçaram batalhas contra os escravocratas e levaram centenas de milhares de pessoas à liberdade nos quilombos. Por que não aprendemos sobre elas?

Em que momento você decidiu começar a pesquisa que deu origem aos textos? Por que a decisão de escrevê-los em formato de literatura de cordel?
O primeiro cordel biográfico que escrevi foi o de Dandara dos Palmares, há quatro anos. Comecei pelos nomes que eu conhecia, porque queria que mais pessoas tivessem acesso a essas histórias. Escolhi o formato do cordel porque é acessível, barato, divertido, porque é gostoso de compartilhar, de ler em grupo, e perfeito para ser utilizado nas escolas. Minha intenção sempre foi escrever obras que pudessem desfazer o prejuízo que sofremos na nossa vida escolar. Felizmente meu desejo foi realizado, porque professores do Brasil inteiro passaram a comprar meus cordéis e utilizá-los em suas aulas ou projetos escolares.

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