Pensador, ativista e editor Peter Pál Pelbart vem a BH lançar novo livro

'O avesso do niilismo - Cartografias do esgotamento' busca novas dimensões para se refletir sobre a realidade contemporânea

por Luciana Tonelli 26/05/2017 13:35
Daniel Böhm
Registro das gravações do filme de Alejandra Riera com a Cia. Teatral Ueinzz. (foto: Daniel Böhm)
Formado em filosofia pela Universidade Paris 4 (Sorbonne), com doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) sobre o tempo na obra do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995), professor titular no Departamento de Filosofia da PUC–SP e autor de vários livros sobre temas contemporâneos, ainda assim Peter Pál Pelbart, húngaro radicado em São Paulo, impõe certa resistência quando alguém o define como filósofo. Talvez seja pela vasta rede de conexões em que se encontra ligado: para além da temática do tempo, tradicional na filosofia, ele também se dedica às questões da loucura e da subjetividade, sempre imersas na política. Tudo isso acaba por desaguar no outro espaço em que leciona, o Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, e ainda nutrir sua faceta de ativista, num movimento que parece seguir de Gilles Deleuze a Félix Guattari, o psicanalista e militante político que se tornou parceiro de Deleuze em obra inaugurada com O anti-édipo (1972).
 
Assim, ainda que centrada no lançamento de seu livro O avesso do niilismo – Cartografias do esgotamento, em que Pelbart revisita duas linhas de pesquisa que muito o ocuparam nos últimos anos – o niilismo e a biopolítica (definição de Michel Foucault para uma forma mais sofisticada de exercício do poder na contemporaneidade), não há como não expandir a pauta.
 
Na próxima terça-feira, Pelbart vem a Belo Horizonte para lançar o livro, no Teatro Espanca, para falar de arte, política e luta antimanicomial, de forma a se conectar à experiência como integrante da Cia. Teatral Ueinzz, definida como ''território cênico para quem sente vacilar o mundo''. O evento contará com a presença das atrizes Cida Falabella, vereadora pelo PSOL, e Juliana Barreto, do Núcleo de Criação e Pesquisa Teatral Sapos e Afogados, que, como a Ueinzz, também inclui usuários da rede pública de saúde mental.
 
Nesta  entrevista, Peter Pelbart fala um pouco de cada um desses assuntos, e ainda da experiência de estar à frente da n-1 edições, por ele considerada um dispositivo maravilhoso para operar conexões no campo da micropolítica. Naturalmente, o contexto político brasileiro também faz parte da pauta.


O avesso do niilismo – Cartografias do esgotamento foi lançado em outubro de 2013 – e agora, maio de 2017, temos uma nova edição. Neste período, o país virou de ponta-cabeça, e a questão que você aborda parece ter se tornado criticamente evidente. Mesmo sendo um livro de filosofia, parece que o problema do esgotamento é algo muito nosso e atual. Esta segunda edição tem relação com o Brasil atual?
 
Isso não me fez mudar o livro – mesmo porque, qualquer livro é sempre datado, num certo sentido–, mas me obrigou a uma reavaliação do seu sentido neste momento. De fato, a primeira edição foi no ano em que estouraram as manifestações de 2013, quando alguma coisa tinha, por assim dizer, se esgotado na matriz política de então – o sistema de representação, um certo mecanismo político vigente, tudo parecia fazer água por todos os lados. A presença de milhares de pessoas na rua fazia crer que esse esgotamento tinha se explicitado. Como se o horizonte tivesse se desanuviado e ali,  na imaginação política da juventude e de movimentos afins, o campo do possível tivesse sido reaberto. Chegamos a 2016 com o panorama absolutamente distinto. Na minha, digamos, ousadia interpretativa, eu até diria que tudo o que ocorreu nesses anos – quando entramos num momento de absoluta regressão, como se a direita tivesse saído do armário, nessa espécie de cruzada contra tudo que tinha sido conquistado –, cheguei a entendê-lo como uma reação a 2013. Tudo o que tinha se escancarado em 2013 tinha que ser colocado de volta, à força. No livro há uma tentativa de pensar essa conexão entre abertura e fechamento, fechamento e abertura. Não propriamente a conexão, mas as reviravoltas. Quer dizer, qual é a lógica da reviravolta: como num sistema, num momento de absoluto fechamento, quando já nada mais parece possível, de repente há algo de intolerável que desperta uma reação indomável.

Esse acompanhar as reviravoltas é sua pesquisa sobre a biopolítica, certo? A gente vê que ela ganha mais espaço em sua obra a partir de A vertigem por um fio – Políticas da subjetividade contemporânea (2000), e Vida capital – Ensaios de biopolítica (2003). Poderíamos considerar até uma trilogia, com a chegada de O avesso do niilismo – Cartografias do esgotamento, com você sempre desenvolvendo a questão nos termos de Michel Foucault e Gilles Deleuze, de ''biopolítica'', poder sobre a vida, e ''biopotência'', potências de vida.
 
Nada disso é muito consciente, a gente só vê a posteriori. Também entendo que tive, cada vez mais, que usar instrumentos esquisitos, conceitos estranhos, noções misteriosas até para mim. Por exemplo, esse termo “esgotamento”: ele me vem através do Deleuze, que escreveu um texto chamado O esgotado, sobre Beckett. Ao escrever sobre um dramaturgo, o filósofo extraiu essa noção de esgotamento, de esgotado, que me chama muita atenção. Tem uma dimensão que está na literatura, mas também se abre para um campo que é existencial, micropolítico, biopolítico. Que é da ordem de um diagnóstico sobre a contemporaneidade. E isso me serve para muita coisa, o esgotamento na verdade é uma noção transversal: qualquer pessoa no seu cotidiano pode dizer “estou esgotado”, mas você também pode pensar um mecanismo de representação que se esgotou; ou uma modalidade de servidão subjetiva, como é o caso do contexto contemporâneo na relação com o trabalho imaterial. Você pode, ainda, usar essa noção se perguntando: o que é esgotar uma vida? “Esgotar” no sentido de extrair dela tudo. Extrair, ou se apossar. Então, é curioso como uma noção que vem da literatura nos leva a percorrer vários planos do contemporâneo, ajudando a iluminar coisas que conceitos tradicionais, como classe, etc. são insuficientes.
Daniel Böhm
(foto: Daniel Böhm)

Como Deleuze, você tem uma conexão muito forte com a literatura, fazendo dela interlocutora importante para a produção de pensamento. Você poderia contar mais um pouco sobre essa amizade?
 
Para mim é indissociável, pois tenho minhas frequentações literárias, que foram muito formadoras. Autores como Dostoiévski, que são também pensadores, que despertam muitos afetos, mas também muita provocação sobre Deus, o bem e o mal, a miséria humana, foram, talvez, a minha primeira maneira de pensar. Depois, na passagem para a matéria filosófica, me interessaram muitas vezes autores que preservavam com a literatura uma relação muito íntima e também uma certa porosidade, pois viam na literatura um certo espaço de pensamento, como foi o caso, por exemplo, de Foucault. A literatura aparecia, como dizia Blanchot, como ''a parte do fogo'', onde a sociedade joga o que ela quer queimar, mas que justamente essa fogueira ilumina. Então, tem algo que sempre me chamou a atenção: como a literatura, por vezes, de maneira mais expressiva, nomeia ou dramatiza, o “invivível”. Os pensadores que mais me atraíram foram esses que também, através do seu instrumental filosófico, tentaram se aproximar dessa dimensão ''invivível'', isto é, o que na vida excede a vida – ou o que na vida parece intolerável.

Essa relação com a literatura me fez pensar sobre o seu jeito de ser filósofo, de abordar os conceitos em sala de aula, e também na escrita. Você muitas vezes nos propõe um desvio, e esse desvio, muitas vezes, passa por algum texto literário. Seria uma forma de evitar as codificações fechadas do conhecimento?
 
Olha, eu não sou filósofo. Quer dizer, eu fiz filosofia, tenho diploma, eu ensino uma certa disciplina chamada ''filosofia contemporânea'', etc e tal. Tenho, claro, uma certa paixão, um trânsito e um desejo de usar essa potência do pensamento filosófico: de que modo ele irradia, ele percute, ele produz, ele reinventa a própria existência. Por outro lado, tenho uma certa reticência em relação a um exercício da filosofia de uma maneira excessivamente técnica, ou exclusivamente confinada ao plano dos conceitos. Por isso, preciso puxar um conceito e ver como ele funciona fora do campo da própria filosofia. Isso também eu aprendi com Deleuze, que foi a relação entre a filosofia e a não filosofia, o que é essencial para a filosofia. Em qualquer disciplina tem os impuros, os misturados, os híbridos. Ninguém tem direito de dizer o que é a filosofia excluindo todas as outras correntes, porque a filosofia, na verdade, é justamente essa pluralidade. De fato, você tem razão: a força do desvio é tremenda. Porque é ali que as coisas acontecem. Uma doutrina pode ser apresentada fechada em si mesma, de forma coerente, contínua, encadeada. Mas o grande teste é sempre ali, onde ela range, onde escapa. Escapa da filosofia um monte de coisas.

Falando nesse hibridismo, vamos conversar sobre uma faceta sua que parece estar em evidência: o ativista. Você tem viajado muito, feito muitas palestras, muitas conversas em espaços alternativos, coletivos de artistas e de movimentos sociais diversos.
 
Eu me reconheço plenamente nessa descrição. De fato, nos últimos anos, a minha conexão com certas situações, iniciativas, movimentos, coletivos, experimentações foi se intensificando e eu fui enxergando nessa rede toda não só algo com certo interesse antropológico ou político, mas modos de reinvenção da existência individual, coletiva, relacional, grupal, política etc. A isso se acresce algo mais concreto que foi o surgimento da editora n-1, que tem agora seis anos. Nesse tempo, trouxemos autores que pouca gente conhecia, autores que podem irrigar o campo do pensamento, da mobilização e das artes com novas ferramentas. Então, no fundo a n-1 virou um dispositivo maravilhoso para operar essas conexões. O lançamento num espaço, como o do grupo de Teatro Espanca, em Belo Horizonte, é um exemplo de como isso ocorre. Perante o que acontece no mercado, vejo a editora como um caminho de tentar reinventar a singularidade de um livro. Cada livro é uma força: um projeto, um gesto, um dinamite. A coleção Pandemia (textos políticos em forma de cordeis) é um exemplo disso: são manifestos, são torpedos, e muito baratinhos, acessíveis, curtos de ler.
Daniel Böhm
(foto: Daniel Böhm)

Nessa construção de Pandemia, é interessante que são autores que não necessariamente concordam uns com os outros, não é?
 
Não, de modo algum! A editora não pretende representar uma seita. Então, tem muitos autores que pensam de uma maneira muito diferente, tanto a política como a economia, a arte. E isso não tem nenhum problema para nós, porque essa pluralidade faz parte. O que nos importa é poder oferecer ferramentas para se pensar certas urgências que se colocam e que, às vezes, as respostas tradicionais se revelaram caducas. Por exemplo, a questão da negritude, que em geral tem abordagens extremamente identitárias: vamos publicar um livro do Achille Mbembe, o maior pensador africano. Ele é estupendo, é de uma estatura inimaginável, pensa a negritude, a África, o movimento negro. A questão chama-se Crítica da razão preta. É um livro esplêndido. Não tenho palavras para exprimir o quão forte é o pensamento desse autor que, no Brasil, nunca circulou, nunca chegou, não entendo o porquê.

Vocês publicaram, também, o livro de Paul B. Preciado Manifesto contrassexual. Como tem sido a recepção de algo tão explosivo?
 
Tive a oportunidade de lançá-lo em vários lugares, de falar sobre ele, e vi a quantidade de pessoas – um público em geral muito jovem, e com uma sede imensa de ouvir falar disso. Disso, quer dizer, de uma certa deriva de gênero que eles mesmos estão vivendo no seu presente, e que não tem quase literatura a respeito que possa, não digo validar, mas se agenciar com a experiência cotidiana deles. Então, é uma outra linha que foi aberta. Publicaremos outro livro de Preciado, um livro maior, mais consistente, teoricamente muito sólido, mas que também dá voz a esse vetor contemporâneo, que no Brasil é tão presente nas práticas e tão ausente na teorização.

E sobre a ponte com o pensamento dos indígenas?
 
Sim, buscamos essa conexão entre o pensamento indígena e a filosofia, tal como Eduardo Viveiros de Castro desdobra, que é uma das grandes revoluções do pensamento contemporâneo. Ou ainda com outros campos, como no caso de Fernand Deligny, que traz a questão do autismo, mas não pensado de um jeito paternalista, ou da inclusão social, ou da clínica do autismo, mas nos levando a repensar nossa sociabilidade a partir do próprio autismo. Deligny o descreve a partir da convivência, de uma experiência concreta. São formas de sair da teorização autocentrada, ou de um certo eurocentrismo da teoria, ou de um certo antroponcentrismo filosófico, e poder ir abrindo o pensamento para esses devires todos que estão presentes no contemporâneo.
 
A Cia. Teatral Ueinzz, formada por pessoal conectado à questão ''psi'', entre profissionais, artistas e os ''louquinhos'', como você diz carinhosamente. A Ueinzz está completando 20 anos. Como foi isso?
 
É uma experiência de 20 anos com pessoas que estavam inseridas num circuito hospitalar e psiquiátrico. Com elas, criamos um dispositivo grupal muito refinado e com muito investimento, mas sem dinheiro, sem pertinência institucional. Esse dispositivo artístico-estético-existencial é um território e, ao mesmo tempo, é uma espécie de laboratório, de pesquisa sobre como é possível, com essa matéria que é a vida por um triz, produzir obra, produzir existência, engendrar sintonia, alegria, parcerias… Nesse período, ocorreram coisas extraordinárias: sete peças montadas, umas 500 apresentações, viagem para Finlândia, França, Alemanha; exposição na Documenta de Kassel… Um monte de coisa concreta. Mas para além das coisas concretas que podem ser enumeradas, e que seriam, por assim dizer, o nosso book glorioso, tem algo muito mais interessante que é pensar como é que se cria um território existencial numa espécie de agenciamento coletivo em que não precisa, para ele existir, nem de uma inserção institucional, nem de uma dependência financeira – é benvindo, mas não precisa, porque sobreviveu até agora com mixaria. Ali foi se criando uma linguagem, que tem a ver com um certo jeito de habitar a linguagem, mas, ao mesmo tempo, estar fora da linguagem. E pensar como isso cria uma densidade afetiva e expressiva que faz sentido ou faz ruptura de sentido para um montão de gente que vem assistir… Há uma espécie de reversão, porque aqueles que são vítimas de tudo – de uma tragédia familiar, do massacre psiquiátrico, tudo isso – de algum modo revelam ali uma potência outra de conexão, de associação, de expressão. Então, há uma reviravolta ali também. Muito frágil, muito precária, mas, justamente por isso, a relação entre força e fraqueza é revirada.

Voltando ao tema do livro: o niilismo. Do capítulo sobre os ''estados de esgotamento'' aos ''modos de existência'', você articula mais de 20 autores. Você poderia nos contar um pouco o que Nietzsche falou sobre o niilismo?
 
Tem muita confusão na relação de Nietzsche com o niilismo. Porquê? Ele é acusado de ser um niilista – e ele se disse niilista. Ele foi o que melhor diagnosticou o niilismo – e ele, a meu ver, é o que mais agudamente propõe transpor o niilismo. Diria que em Nietzsche tem uma clareza em relação ao que se poderia chamar como superação do niilismo. Mas, antes disso, vamos definir o que é o niilismo para Nietzsche: é quando os valores antes considerados supremos, aqueles que ancoravam nossa vida, caem em descrédito. Frente a isso, a posição de Nietzsche não é nem nostálgica, nem apocalíptica. Ao contrário, há um momento em que se trata justamente de tirar proveito desse esvaziamento. E a partir dali, criar novos valores.
Daniel Böhm
(foto: Daniel Böhm)
 
O niilismo contemporâneo expressa algo central na sua pesquisa, a força do capitalismo investindo sobre a vida, sobre o terreno das subjetividades. Como é isso?
 
O niilismo não é apenas uma força destrutiva, que vem numa espécie de tsunami avassalador, mas pode ser, por exemplo, uma reunião de técnicos ou engenheiros de uma empresa qualquer. Ele pode estar no cotidiano mais banal. Em certa medida, uma cotidianidade banal, aparentemente inofensiva, já é o signo de uma depauperação, quando submetida a uma espécie de gestão da vida a mais sinistra. Por exemplo, uma decisão de gabinete que resolve ''limpar a cidade''dos craqueiros, como ocorreu em São Paulo. É uma espécie de higienização policialesca.

Há uma frase em seu livro que poderia sintetizar muito do que foi falado aqui: ''Tudo indica que há mesmo um problema de luz no pensamento. Como não ofuscar a luz menor com o holofote da razão?'' Tem a ver com o que você chama de ''niilismo branco''?
 
Em geral, a metáfora da luz está associada à razão, é a razão que dá luz ao mundo. O mundo é uma coisa inerte e escura e a razão ilumina. Mas Henri Bergson, por exemplo, vem e diz ''não, a luz está nas coisas''. Georges Didi-Huberman também, em seu livro Sobrevivência dos vaga-lumes, fala muito bem sobre esse regime de muita luz, dos holofotes. O efeito disso é justamente tornar invisíveis aqueles seres que, ao contrário, precisariam de uma certa penumbra para existir. Entendo isso perfeitamente, pois a Ueinzz é um espaço que tem que ser um pouco protegido desse excesso, para que a luz venha deles. Porque a luz vem deles. No livro 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono, de Jonathan Crary, ele mostra como a utopia contemporânea é abolir a noite, o sono, a escuridão. Equipamentos gigantescos estão sendo lançados no espaço para refletirem luz naquelas regiões que tem uma noite longa demais, portanto, onde se trabalha menos. Enfim, tudo isso se junta para pensarmos o que é um niilismo branco. O niilismo, em geral, está associado a uma espécie de escuridão. E aqui, ao contrário, é uma espécie de luminosidade excessiva que ofusca, que impede de dormir, de sonhar, de devanear. Tudo tem que ter a clareza, é quase uma espécie de racionalidade tirânica, não é? Tem a ver com isso.

Vamos fechar com uma brincadeira. Ao vir a Belo Horizonte para um lançamento, Xico Sá terminou sua noite investigando, na mesa do bar, em qual dos personagens ''canalhas'' de Nelson Rodrigues Michel Temer se encaixaria. Para você, em qual personagem – do teatro, cinema ou literatura – ele se encaixaria? 
 
Sabe o que me veio? O Dr. Mabuse! Mas o Dr. Mabuse tem muito poder, já o Temer não tem nenhum. Mas alguma coisa me lembra. É uma desproporção, porque ele é uma marionete. Então, ele é um sub-Mabuse! (risos)
 
O avesso do niilismo – Cartografias do esgotamento
De Peter Pál Pelbart
n-1 edições
448 páginas
R$ 68
 
 
As fotografias que ilustram esta entrevista são de Daniel Böhm e registram as gravações do filme de Alejandra Riera com a Cia. Teatral Ueinzz, em Buenos Aires. As imagens retratam o momento do encontro de um líder indígena com o grupo e Peter Pál Pelbart, diante da estátua de Cristóvão Colombo, que tinha sido removida da Casa Rosada, sede do governo, por representar o colonizador-mor. Ao lado da cabeça da estátua – ''deitada, como se estivesse fazendo análise'' –, o índio argentino contou a seguinte história:  ''Os índios estão lá há 45 mil anos, e os rios, as florestas, tudo foi preservado. Em 500 anos de colonização, tudo foi destruído. Então, a gente tem uma filosofia muito diferente da dos brancos. Outro dia, um dos brancos da cidade quis ir até a nossa aldeia e um irmão nosso foi com eles. Chegando à aldeia, eles estavam com fome, e aí o nosso irmão indígena disse ‘ah, vamos até aquela colina, lá tem uma figueira’. E foram até lá, e comeram figos, e ficaram deliciados e saciados… E aí, a senhora que estava lá com eles disse ‘bom, por que a gente não colhe vários figos e os põe na bolsa para os próximos dias?’. A índia que estava ali diz o seguinte: ‘O nosso pensamento não é esse. Melhor deixar tudo na árvore, porque hão de vir outros com fome e eles vão poder colher os figos. Pelbart, que ouvia a conversa, conclui: “É isso, essa mentalidade do ‘vamos acumular’. O Ocidente produz ou colhe uma imensidão de alimentos, mas três quartos da população morre de fome. Fiquei tocado, é quase uma história que você conta para uma criança poder entender um pouquinho o que seria um outro jeito de pensar, compartilhar e tal…''

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