Xico Sá fala sobre livro que lança nesta quarta em BH

Obra reúne crônicas sobre futebol. Jornalista admite ser um ''machista em permanente tentativa de transformação'' e revela o time mineiro pelo qual tem simpatia

por Pedro Galvão 16/05/2017 08:45
Carlos Vieira/CB/D.A Press
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
Já foi de sabedoria popular que futebol, política e religião não se discute. Para o cearense Xico Sá, de 54 anos, sendo 35 dedicados ao jornalismo, a máxima parece nunca ter valido. Em sua carreira, a tríade sempre fez parte do admirado repertório de reportagens, crônicas e artigos, quase sempre permeados por metáforas sobre relacionamentos amorosos, em alguns casos até mais polêmicos que a bola, o poder e as crenças, tão indissociáveis na cultura brasileira.


A parte mais futebolística desse acervo está reunida no livro A pátria em sandálias da humildade, que será lançado nesta quarta (17) em BH, no Sempre Um Papo. A edição reúne crônicas escritas por Xico e publicadas nos jornais Folha de S.Paulo e El País Brasil, entre 2005, quando a Seleção Brasileira era o melhor time e então campeã do mundo, e 2016, que terminou com a camisa amarela esboçando uma redenção depois de uma sequência de fracassos retumbantes iniciada no emblemático 7 a 1.

O período compreende também momentos importantes da política nacional, como escândalos de corrupção e crises que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff. Processos que possuem alguma relação, mesmo que indireta, com o futebol, conforme relatam as linhas escritas por ele.

Comentarista de programas esportivos como o extinto Cartão verde (TV Cultura), na década de 1990, e o atual Redação SporTV, do canal por assinatura, o jornalista começou no ofício justamente cobrindo futebol. No entanto, diz que só anos mais tarde foi entender o valor literário desse conteúdo. “No Brasil, a gente sempre tende a ver o futebol como conversa de botequim, distante da literatura, mas, lendo o conjunto, tem todo um sentido, as crônicas contam sobre um período do país que tem o futebol como metáfora”, afirma.

Embora a coletânea resgate vários momentos trágicos, dentro ou fora de campo, do nosso futebol, Xico Sá encerra o livro com um texto inédito, que escreveu sobre seu otimismo em relação à Seleção, classificada antecipadamente para a Copa do Mundo do ano que vem, sob o comando do técnico Tite. “Pelo amor de Deus, tenho que dar alguma esperança, sou dessa linha, tenho uma teimosia no país como cidadão. Já vi coisa pior, já vi final de ditadura, inflação de 2.000%. Talvez se eu fosse jovem, crescido do governo Lula para cá, eu seria mais desesperançoso, mas não, vivi tudo, então vou vender alguma esperança para o povo nesse final”, afirma.

Produzido via financiamento coletivo e lançado pela editora Realejo, o projeto contou também com a participação dos leitores na seleção das 102 crônicas. Embora o tema predominante seja o futebol, outros assuntos ligados à sociedade e à política são abordados dentro de suas relações com a bola. Em um papo com o Estado de Minas, Xico Sá comentou sobre alguns tópicos que aparecem no livro.


RECUPERAÇÃO DO PAÍS Se a Seleção parece já ter se recuperado do trauma e dos horrores causados pelos alemães no Mineirão em 2014, o país ainda não conseguiu superar o caos político e econômico em que se mergulhou nos últimos anos. Perguntado se mantém o otimismo que demonstrou em relação ao futebol, o cronista diz que o fundamental no momento é restabelecer a estrutura democrática:

“A esperança é que nesse caos todo possa vir alguma coisa, mas até 2018 eu espero só no futebol. Acredito, que vamos passar por um processo de redemocratizar o país, nas urnas, aí ganhe quem ganhar, aí voltamos a respirar, porque nosso potencial é gritante, apesar da rapinagem que começou desde que levaram a primeira tora de pau-brasil para Portugal e que nunca parou até hoje. Depois que resgatarem a democracia, que venha um Tite na política, mas não pela CBF, é claro, mas alguém capaz. Se você retoma a democracia já tem um país novamente”.

JOGADORES E SUAS POSIÇÕES POLÍTICAS “Não concordo com o Felipe Melo (jogador do Palmeiras que declarou apoio ao deputado Jair Bolsonaro) de jeito nenhum, porque acho tudo de ruim o que o Bolsonaro defende, mas acho ótimo que eles se assumam, assim como o Neymar quando apoiou o Aécio, seja lá para que lado ou candidato for. Jamais apoiaria qualquer ideia do Bolsonaro, mas defendo a ideia dele (Felipe Melo) de botar a cara para se expressar. Pensei, poxa, quem sabe agora a coisa muda, mas ele mesmo deu uma recuada depois. Eu adoraria que fosse consciente e ele fosse para o embate. Ninguém bota a cara nesse sentido, vi muitos amigos condenando, mas achei ótimo, já que o futebol anda tão escondido da política.”

RELAÇÃO COM TIMES MINEIROS 
“Tenho, sim, uma relação mais afetiva com o Galo. (Pelo menos duas das crônicas do livro falam sobre a conquista da Libertadores de 2013 pelo Atlético e nenhuma lembra os dois títulos nacionais do Cruzeiro, conquistados na mesma época.) Não nutro nada de antipatia pelo Cruzeiro, mas pelo Galo começou com o próprio título nacional de 71. Tive time de botão do Atlético campeão daquele ano. Na época eu morava no Cariri, em Juazeiro do Norte. Depois tive uma relação no Recife com o Dadá, quando eu era repórter e ele jogava no Sport, testemunhei os 10 gols que ele fez num jogo só. Depois vieram as amizades (com mineiros) que fiz em São Paulo, como o (jornalista) Fred Melo Paiva e o (cineasta) Kiko Goifman. O destino sempre me botou numas mesas de cachaça aqui muito mais com atleticanos. O mais maluco é que, uma vez, casei-me com uma mineira e ela era Cruzeiro, mas não gostava de futebol, nunca falava do Cruzeiro, por isso fiquei mais próximo do Atlético e esse livro reflete isso. Mas vi o Cruzeiro inaugurando o Romeirão, em Juazeiro, onde mora parte da minha família, num jogo contra o Fortaleza, em 1970. Vi um gol do Natal nesse dia. Já o América é o time simpático de todo mundo. Virou isso depois de um tempo, né? Antigamente, era um time que batia em todo mundo. De qualquer forma, sempre tive camisa do Coelho na minha coleção, porque acho uma das mais bonitas do país.”

HOMOFOBIA NO FUTEBOL  “Tenho esperança que mude, porque é tão bobo, além de preconceituoso, é tão ‘quinta série’, e tem gente que fica nessa de achar que é muita correção querer mudar, mas eu vi muito futebol sem gritar ‘bicha, bicha’. Tem muita forma de zoar e tirar onda sem isso. Espero que a nova geração de torcedores não caia nessa. Vejo uma molecada muito melhor do que isso surgindo. Acho que isso vai ficar bobo, dentro da minha linha ‘Poliana otimista’, espero que passe.”

PERSISTÊNCIA DO MACHISMO “No Brasil há uns surtos do tipo ‘agora vamos com o futebol feminino’. Fazem aquele auê, mas depois abandonam. Há muito preconceito em torno do futebol das mulheres, embora a prática amadora nos colégios seja gigante hoje. Nas arquibancadas, hoje há uma presença muito maior das mulheres do que antes, mas ainda há aqueles gritos absurdos, do cara em grupo, que se encoraja e comete não só assédio, mas quase um estupro. Está melhorando, mas ainda falta muito. Começa a crescer também o número de mulheres trabalhando no futebol, isso é muito positivo, mas ainda há a desigualdade salarial. Tomara que o futebol possa dar sua contribuição nesse processo de empoderamento delas. A crônica sobre a Larissa (Riquelme, presente no livro, sobre a qual a reportagem o questionou), sim, é machismo para valer, tanto do América (de Pernambuco), que fez a história, como do cronista, que sou eu. Sou um machista em permanente tentativa de transformação. Minha história reflete isso. Lembra-se da polêmica do uniforme rosa do Galo? Quando começou isso, eu nem via nada de mais. Fui acompanhando mais de perto, ouvindo as mulheres e hoje concordo com elas. Mas essa crônica da Larissa vem nesse contexto –um autor impregnado de chacota machista de futebol. Fiz com humor, não fiz com a sacanagem da arquibancada. Mas acabei usando, sim, um expediente machista, desse imaginário em torno dela, que sempre reafirmava o discurso de tirar a roupa quando o time ganhasse. É o puro exemplo do machismo de arquibancada.”


A pátria em sandálias da humildade
• Autor: Xico Sá
• Editora Realejo (228 páginas)
• Preço sugerido: R$ 33


Sempre Um Papo com Xico Sá
Quarta (17), às 19h30, no Auditório da Cemig (Rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho). Entrada franca. Mais informações: (31) 3261-1501

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