Antonio Candido foi o maior pensador e divulgador da literatura brasileira

Um dos grandes intelectuais do país, autor de obras referenciais morre aos 98 anos, em SP

por Pablo Pires Fernandes 13/05/2017 10:14
Lenise Pinheiro/Folha Imagem
O corpo de Antonio Candido deve ser cremado hoje. Ele pediu para que suas cinzas fossem misturadas às da mulher, Gilda de Mello e Souza, falecida em 2005 (foto: Lenise Pinheiro/Folha Imagem)

Crítico literário era como Antonio Candido gostava de ser definido, mas seu papel como intelectual é bem maior do que essa única designação. Sociólogo, professor, ensaísta, pensador da cultura brasileira e militante político são a face pública do mestre, que morreu na madrugada de ontem, aos 98 anos. Mas alunos e amigos, colegas e familiares sempre deixaram clara a gentileza, o humanismo e a elegância de Antonio Candido.

O intelectual estava internado no Hospital Albert Eistein, em São Paulo, desde sábado, por causa de uma crise gástrica, segundo a família – ele sofria de hérnia de hiato. O velório ocorreu ontem, das 9h às 17h, e o funeral será hoje, em cerimônia restrita para familiares e amigos próximos. Atendendo a um desejo dele próprio, seu corpo será cremado e suas cinzas serão misturadas às de sua mulher, Gilda de Mello e Souza, falecida em 2005. Ele deixa as filhas Laura, Marina e Ana Luísa.

Muito solicitado por alunos e jornalistas por sua imensa erudição, mantinha discrição e não era afeito a aparições públicas nem a grandes homenagens. O poeta mineiro Mário Alex Rosa se lembra de um episódio que ilustra a delicadeza de Antonio Candido. Ainda aluno da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1992, Rosa conta que estava com um colega em Ouro Preto para participar de um evento sobre a Inconfidência Mineira, no qual Candido deu uma palestra sobre os poetas do movimento rebelde da então Vila Rica. “Eu e um colega estávamos nervosos e queríamos fazer perguntas sobre um monte de coisas a ele. Quando insistimos em fazer mais uma, o crítico disse: ‘Tem uma senhora me esperando e fazer uma senhora esperar não há poesia que justifique’. Foi uma das coisas mais bonitas que eu já ouvi de um homem”, afirma Rosa, professor de literatura brasileira.

Em uma de suas raras aparições públicas, participou de uma homenagem a Oswald de Andrade (1890-1954), autor homenageado na 9ª Festa Literária de Paraty (Flip), quando fez uma conferência sobre o amigo e autor de Pau Brasil. Na ocasião, contou que, embora gostasse muito da obra do modernista, fez uma crítica a um dos títulos do escritor que foi mal recebida, por causa da personalidade “vulcânica” de Oswald. “Eu era um jovem crítico, estava com 24 anos e não aceitava aquele silêncio que rondava a obra de Oswald, considerado um autor inatacável.” Algum tempo depois, Candido reconheceu o exagero de sua escrita, a ponto de produzir um longo ensaio em que salientava o valor literário do autor. Foi o suficiente para estabelecer uma amizade profunda e sincera, que resistiu até às novas críticas de livros.

Antonio Candido exerceu como poucos a atividade de crítico literário. Foi responsável por escrever resenhas a respeito dos primeiros livros de escritores então novatos, mas que se tornariam grandes nomes das letras nacionais. Foi o caso de Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e outros. Em Paraty, disse que era obrigado a lidar com nomes que, naquele momento, ainda eram desconhecidos. “Certo dia, recebi um livro chamado Perto do coração selvagem, assinado por Clarice Lispector. Pensei que fosse um pseudônimo, porque isso não é nome de gente, Lispector. Eu não sabia quem era e precisava dizer se o livro era bom ou era ruim. Ou seja, minha responsabilidade como crítico era muito grande. Tive a sorte de viver um tempo de esplendor da literatura brasileira. Mas avaliações erradas poderiam custar o emprego”, contou. (Com agências)

LIÇÕES DO MESTRE A importância de Antonio Candido (1918-2017) para a literatura brasileira é inestimável. Foi ele o responsável por estabelecer muitos dos cânones das letras nacionais em seus primeiros momentos, apontar a ligação com a cultura e a sociedade nos romances e obras sociológicas, criar parâmetros para o ensino da crítica e da própria literatura – prosa ou poesia – e divulgar e apontar o valor do que era produzido no Brasil. Como professor, foi o formador de gerações de estudiosos e intelectuais que, com sua erudição, aprenderam a estabelecer com rigor as mais diferentes conexões e possibilidades dos textos.

Wander Melo Miranda, professor aposentado e ex-diretor da Editora UFMG, não mede elogios e diz que, como é da área das letras, considera Antonio Candido “o maior intelectual brasileiro do século 20”. “Ele consegue juntar críticas de rodapé, que ele fez no início da carreira, a uma crítica acadêmica com maior rigor teórico de maneira exemplar. Por isso ele é o maior crítico brasileiro”, sustenta Miranda. E acrescenta que, apesar de Candido ser rigoroso, as análises têm “argumentação muito clara, o que faz com que o texto dele possa ser lido por pessoas que não sejam especialistas em literatura”.

A professora emérita da Faculdade de Letras da UFMG Eneida Maria de Souza destaca que Candido sempre esteve nos meios literários e culturais, desde a década de 1940. “Ele soube entender e dar exata qualidade e valor à obra, e passou a ser uma referência bibliográfica para todos os estudos literários, sobretudo sobre os autores mais consagrados, com quem ele pôde conviver mais de perto”, explica, apontando ainda o caráter “arguto” do crítico.

Wander Melo Miranda observa ainda que o fato de detectar a qualidade de escritores iniciantes – caso de Clarice Lispector, Drummond, João Cabral de Melo Neto e outros – se deve à “enorme sensibilidade, aliada a uma formação intelectual muito forte”, tarefa que todos reconhecem ser difícil. A escritora e professora Maria Esther Maciel menciona que Antonio Candido “teve papel importante na própria canonização de vários escritores brasileiros a partir das leituras críticas que fez”.

Outra característica do mestre, diz Wander Melo Miranda, foi o pioneirismo de Candido na análise da literatura em seu contexto histórico e social, uma das marcas das obras referenciais Formação da literatura brasileira (1959) e Literatura e sociedade (1965). “Ele é um crítico e pensador completo, deixou a lição de como lidar de maneira atenta à história e à sociedade e levou isso para a crítica literária”, diz Maria Esther Maciel. Miranda ainda descreve a capacidade de ver o fato social no texto e na linguagem, na estrutura literária, “não como algo externo ao texto, mas algo que faz parte da linguagem, o único que soube apontar como os fatos históricos e sociais são traduzidos na literatura”.

POLÍTICA

Candido foi ligado ao Partido Socialista e participou de publicações de oposição a Getúlio Vargas. Mais tarde, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e sempre sustentou com convicção seus ideais progressistas. Para Eneida, o ambiente que frequentava influenciou essa “percepção política e sociológica da literatura”. “Ele estava dentro de todo um ambiente de colegas ligados à crítica social e à crítica política.”

Professora de teoria literária da UFMG, Eneida ressalta ainda a importância de Candido como professor, “principalmente porque ele teve uma atuação muito grande na criação dos cursos de pós-graduação”. “Ele foi criando uma série de alunos e orientando. Vários seguiram sua tendência mais sociológica, embora isso os tenha tornado arredios à crítica cultural e à abordagem estruturalista”, aponta. Miranda acredita que “de alguma forma ele é o responsável pela formação de toda a crítica brasileira moderna. Mesmo os que não seguem os mesmos parâmetros, todos devem a ele”.

O professor e poeta Mario Alex Rosa destaca também a preocupação didática dos livros de Candido, cuja clareza e profundidade se unem de maneira brilhante. E afirma que, apesar de comumente se apontar Formação da literatura brasileira como a principal obra do ensaísta, ele destaca Na sala de aula, cadernos de análise literária (1985) como obra referencial. “É um trabalho essencial para o estudante do curso de letras, mas também para todos os que gostam de poesia. Tem uma didática e uma escrita transparente, além de um grande respeito pela poesia, pelo poeta, é uma obra excelente”, diz, indicando ainda O estudo analítico do poema, ensaio criado a partir da anotação de alunos de Candido. Maria Esther Maciel reforça o caráter prazeroso do texto do pensador.

Leitor voraz de clássicos, Antonio Candido há muito havia abandonado os novos autores e dizia preferir reler os clássicos que tanto admirava. Entre os brasileiros, escreveu sobre praticamente todos os grandes nomes e apontou as qualidades particulares da produção nacional. Miranda explica que o crítico foi essencial por “colocar a literatura brasileira em pé de igualdade com a produzida em outros países”. O professor ainda ressalta a qualidade única do mestre em criar diálogos entre obras nacionais e estrangeiras. “Ele foi um grande comparatista e foi fundamental por estabelecer que a literatura feita no Brasil merece ser lida, estudada e divulgada.”

Bibliografia
Veja as principais obras de Antonio Candido


>> Introdução ao método crítico de Sílvio Romero, 1945
>> Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos, 1956
>> Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1959
>> O observador literário, 1959
>> Tese e antítese: ensaios, 1964
>> Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida, 1964
>> Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária, 1965
>> Vários escritos, 1970
>> Formação da literatura brasileira, 1975
>> Teresina etc., 1980
>> Na sala de aula: caderno de análise literária, 1985
>> A educação pela noite e outros ensaios, 1987
>> O estudo analítico do poema, 1987
>> Recortes, 1993
>> O discurso e a cidade, 1993
>> Teresina e seus amigos, 1996
>> Iniciação à literatura brasileira (Resumo para principiantes), 1997
>> O Romantismo no Brasil, 2002
>> Um funcionário da monarquia: ensaio sobre o segundo escalão, 2002


REPERCUSSÃO


“Estava muito lúcido, era incrível. A gente conversava sempre. De repente isso aconteceu. A gente perdeu mais do que um amigo, mas o espírito de um tempo. Ele atravessou vários momentos da história, mesmo os sombrios, sem perder nenhum sentido dos valores, de todo o julgamento das coisas. Era de uma sutileza incrível”

. Adauto Novaes, filósofo


“É um marco na crítica brasileira. Não fui aluno dele, mas foi meu mestre através dos livros. Estava muito lúcido e atuante, preocupado com o que está acontecendo na literatura e na cultura Era interessado na vida do Brasil. Uma liderança intelectual, uma das pessoas que pensam o país”

. Domício Proença Filho, presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL)


“É com imenso pesar que recebo a notícia do falecimento de Antonio Candido. O país perde um dos seus mais brilhantes pensadores, um homem que alçou a crítica literária a um outro patamar e testemunhou com notável clarividência momentos fundamentais da nossa história. Sua morte deixa uma enorme lacuna no cenário cultural e político do país, mas deixa também um inestimável legado na construção de um Brasil mais justo e mais próspero. Aos familiares e amigos, minha solidariedade neste momento de luto”

. Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais


“No dia em que perdemos Antonio Candido, uma de nossas bússolas intelectuais, o Brasil vai caminhando cada vez mais perdido após sermos tragados pelo transe que nos assola, em linha com o que ocorre no mundo, mas singularizado pela ‘lógica em uso’ que aceita a violência e o enfrentamento como linguagens do cotidiano”

. Renato Sérgio de Lima, diretor do Fórum Brasileiro de Segurança Pública


“Os mais novos não têm ideia do significado do Antonio Candido para as gerações mais velhas, na USP e fora dela. Ele simplesmente encarnava o padrão mais elevado a ser perseguido, conciliando integridade moral, rigor intelectual e prosa enxuta e elegante. Embora já afastado da vida pública, sua presença ocasional em eventos sempre encantava os que não tiveram a sorte de tê-lo tido como professor. Que falta ele vai fazer!”

. Pablo Ortellado, professor de gestão de políticas públicas na USP


“Recebo com profunda tristeza a informação sobre a morte do intelectual Antonio Candido de Mello e Souza. Além de ter uma presença marcante na crítica literária, Antonio Candido é um dos fundadores do PT e sempre esteve ao lado da democracia e das lutas populares. Sua memória sempre estará presente em nossas lutas e sonhos. Neste momento de dor, deixo minha homenagem e solidariedade aos familiares e amigos”

. Aloizio Mercadante, ex-ministro da Educação


“Na madrugada de hoje perdemos um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos”

. Lindbergh Farias, senador (PT-RJ)



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