Exposição no Rio reúne imagens de fotógrafo mineiro Chichico Alkmim

Artista foi pioneiro na produção de retratos e documentarista da vida de trabalhadores na Diamantina da primeira metade do século 20

por Ana Clara Brant 11/05/2017 20:03
O poeta Carlos Drummond de Andrade costumava dizer que o céu deveria ser uma Diamantina maior e que, “entre outras excelências, o povo da cidade é povo que canta, e isto significa riqueza de coração”. Além dos diamantes, o antigo Arraial do Tejuco guarda outras preciosidades e boa parte delas foram registradas pelo fotógrafo mineiro Francisco Augusto Alkmim, o Chichico Alkmim (1886-1978).

CHICHICO ALKMIM/ACERVO IMS
Chichico Alkmim não se limitou a retratar a elite diamantinense em seu estúdio, como fazia a maioria dos fotógrafos do período (foto: CHICHICO ALKMIM/ACERVO IMS)

Um recorte importante das imagens registradas pelo artista foi reunido numa exposição que será aberta amanhã no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro. Com curadoria de Eucanaã Ferraz, poeta e consultor de literatura da instituição, a mostra Chichico Alkmim, fotógrafo apresenta mais de 200 imagens produzidas na primeira metade do século 20. O acervo do fotógrafo está sob a guarda do IMS desde 2015.

Para o curador, um dos aspectos que mais chamam a atenção em relação ao mineiro nascido em Bocaiúva, mas que se mudou para a terra de JK e Chica da Silva, é a emoção. Eucanaã Ferraz diz que é flagrante o fato de que Alkmim não era apenas um fotógrafo que cumpria friamente a sua função ao retratar pessoas. “É uma qualidade do Chichico conseguir isso. Além de mostrar as qualidades estéticas que todo fotógrafo mostra, ele consegue fazer vir à tona as questões que não são materiais, como a coragem, a força, a dignidade, a dor, o sofrimento, a alegria, ou seja, uma série de valores existenciais e culturais que impressionam. É como se aquelas imagens tivessem alma. Esse é um dos grandes diferenciais do Chichico Alkmim “, afirma.

O curador ressalta que, diferentemente do que faziam muitos fotógrafos com estúdios pelo interior do Brasil nesse período, Chichico nunca se limitou a retratar apenas a burguesia diamantinense. Teve como frequentadores de seu estúdio os trabalhadores ligados ao pequeno garimpo, ao comércio e à indústria e também registrou casamentos, batizados, funerais, festas populares e religiosas, paisagens e cenas de rua.     
CHICHICO ALKMIM/ACERVO IMS
O acervo do fotógrafo está com o Instituto Moreira Salles desde 2015 (foto: CHICHICO ALKMIM/ACERVO IMS)

“Ele não foi o fotógrafo da elite de Dimantina, mas sim dos garimpeiros, operários, faiscadores, dos pobres, dos filhos de escravos. Criou-se até um certo equívoco em achar que foi o Assis Horta, também fotógrafo diamantinense, o primeiro a retratar essas pessoas. O Chichico foi o pioneiro”, aponta.

A mostra no IMS, que ficará em cartaz até outubro, propõe ao visitante uma viagem no tempo, cobrindo cronologicamente e sintetizando as fases do trabalho do fotógrafo, que são apresentadas em salas ambientadas. Para reunir obras de valor museológico, a antiga biblioteca da casa da família Moreira Salles voltará ao seu estado original, com estantes de madeira e sem paredes falsas. Lá, será possível consultar mais de uma centena de negativos de vidro iluminados, que formam uma espécie de vitral, como também objetos originais do laboratório de Chichico e uma máquina de fole semelhante à utilizada por ele.

“Outro aspecto interessante é que haverá toda uma ambientação especial. Vão ser expostos cinco discos 78rpm com as obras de Ernesto Nazareth e de Catulo da Paixão Cearense, além dos registros de seresteiros, grupos de jazz, estudantes de música, bandas escolares e militares fotografados por Chichico. Haverá fones de ouvido para que quem for à mostra possa ouvir essas músicas e se transportar para aquela época”, diz.
CHICHICO ALKMIM/ACERVO IMS
A exposição fica em cartaz até outubro na Cidade Maravilhosa (foto: CHICHICO ALKMIM/ACERVO IMS)

O poeta e consultor de literatura destaca o papel de Diamantina no trabalho de Chichico Alkmim. Segundo ele, o fato de a cidade histórica ter uma aura especial certamente se refletiu nas imagens do retratista. “É uma cidade que tem uma leveza, uma doçura, uma singeleza em que a arquitetura é emoldurada pela natureza. Mas, ao mesmo tempo, tem essa questão da miséria, da exploração da mineração. É um lugar curioso. E tudo transparece nas fotografias dele em perfeita harmonia”, resume.

Chichico Alkmim tinha limitações físicas nas mãos; calcula-se que ele tenha mantido a atividade de fotógrafo até 1955. Nascido em 1886, ele morreu em Dimantina, em 1978

SAIBA MAIS

Biografia

Francisco Augusto Alkmim (foto) nasceu em 1886, em Bocaiúva, em uma fazenda na área rural. Com a decadência dos negócios da família, mudou-se para Diamantina em busca de meios para sobreviver. Ali levou adiante o interesse pela fotografia, aproveitando-se de informações obtidas com um padre. Em 1913, abriu o próprio estúdio. Com uma máquina de fole 13x18 registrou batizados, casamentos, vistas de cidades, funerais, festas populares e religiosas. O material fotográfico vinha do Rio de Janeiro e de São Paulo em lombo de burro e, a partir de 1914, de trem. Na década de 1930, eles passam a ser adquiridos na cidade histórica, na loja Foto Werneck, na Rua Jogo de Bola. Durante toda a carreira, Chichico sofreu de limitações físicas nas mãos que não o impediram de trabalhar. Estima-se que tenha fotografado até 1955. O fotógrafo morreu em Diamantina, em 1978.


Abolição


Amanhã completam-se 129 anos da Lei Áurea, que aboliu a escravatura no Brasil. Para lembrar a data, o cinema do IMS fará uma exibição especial de Terra deu, terra come (Brasil, 2010), de Rodrigo Siqueira, que se passa no quilombo Quartel do Indaiá, em Diamantina, na região onde Chichico Alkmim passou sua infância e juventude. No filme, Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos, comanda como mestre de cerimônias o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, que morreu com 120 anos, num ritual em que vêm à tona as raízes africanas de Minas Gerais.

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