Em entrevista, escritora Maria Kodama fala sobre obra de Jorge Luís Borges

Viúva do escritor, tradutora e guardiã da obra de um dos autores mais importantes da América Latina, Maria Kodama esteve no Brasil

por Nahima Maciel 06/05/2017 09:00
GAIZKA IROZ/AFP
(foto: GAIZKA IROZ/AFP)

Maria Kodama não gosta de ver a si mesma como a guardiã da obra de Jorge Luis Borges. A escritora e crítica argentina se diz, na verdade, “responsável” pela obra de um dos maiores nomes da literatura latino-americana. Maria também é viúva de Borges. Aos 80 anos, ela não se cansa de viajar o mundo para falar sobre o autor de O Aleph e Ficções. É uma missão de vida, mas não é fácil. Maria se casou com Borges em abril de 1986, dois meses antes da morte do escritor. Mas a proximidade entre os dois começou nos anos 1970, quando ela se tornou colaboradora de Borges. Ela esteve no Brasil para participar de um ciclo de conferências sobre autores latino-americanos, em Brasília.

Para falar sobre Borges, Maria escolheu o tema do outro. A alteridade é ponto central da obra do autor e algo que permite construir pontes para o universo borgiano, incluindo, inclusive, um rol de outros escritores que serviram de fonte e influência. “O outro é um dos temas principais de sua obra”, avisa Maria. “Acho que é porque nós somos assim. Nós não somos um. Somos mais de um. Muitas das obras de autores que ele gostava muito têm essa duplicidade do ser humano.”

Borges se tornou um ícone da literatura latino-americana, mas Maria lembra como ele mesmo costumava apontar que era mais comentado do que lido. Ela também trata de desconstruir a fantasia da Argentina como um país que lê. “Não se pode generalizar, claro”, diz. “Há um grupo de pessoas, de estudantes, que claro leem. Mas digamos que não é a maioria.” Maria conhece pouco da literatura contemporânea produzida no continente e menos ainda da brasileira. Ela cita um conselho do próprio Borges para explicar o porquê de não ler os contemporâneos: se você não tem tempo para ler, leia o que é importante para você. Filha de um cientista japonês com uma pianista argentina, atualmente, ela mergulha nas tragédias gregas. Para Maria, é uma maneira de compreender os tempos modernos. Em entrevista, ela fala sobre Borges e sobre literatura.

Entrevista

Maria Kodama, escritora

A senhora comentou que, mesmo na Argentina, os índices de leitura têm caído. Por que acha que isso acontece? Há um desinteresse pela cultura no mundo de maneira geral?


Acho que se deve a muitas coisas. Para começar, temos a tecnologia, que é fascinante e ajuda muito no desenvolvimento de diferentes disciplinas. E não é, digamos, esse o mal, mas a forma como é utilizada. Por exemplo, há estudantes que não leem, pesquisam as coisas no Google ou na internet não se dão ao trabalho de buscar e entender algo. Sequer se perguntam por que fazem isso.

O que gosta de ler hoje?

Não tenho muito tempo para ler coisas novas e Borges dizia sempre que não tinha tempo para ler coisas novas. Então leio coisas que me interessam. E minhas leituras preferidas são as tragédias gregas porque creio que ninguém conseguiu fazer a dissecção da alma humana como os gregos.

É possível compreender a contemporaneidade lendo as tragédias gregas?


Eu acho que sim, porque nada mudou desde então. Nada. Não mudou, por exemplo, a ambição, o desejar o que não deve ser desejado, a sede por notoriedade, fazer qualquer coisa para estar em evidência. Tudo isso já existia e ainda existe.

A senhora costuma dizer que Borges está sempre presente, mesmo não estando mais aqui. E que ele continua a conversar com a senhora. Esse diálogo é eterno?

Creio que sim. Não que seja um diálogo. É mais sobre como você sente as coisas. Você sente que a pessoa está com você. Mas também talvez isso seja parte de minha formação japonesa. No Japão, acreditamos que os seres que amamos e que morrem se convertem, de alguma maneira, em seres e espíritos que nos protegem. É o xintoísmo. O xintoísmo é uma religião totalmente aberta, muito bonita, você pode ser xintoísta e budista ou católico. Isso é muito agradável porque não é uma religião que se instala e diz como tem que ser.

Que lugar ocupa Borges hoje na literatura mundial?

Pelas conferências e convites que recebo, convites para bancas de tese, no âmbito intelectual segue ocupando um espaço importante. Mas ele dizia que, apesar de ser visto como espécie de ícone, na verdade não era tão lido. Claro que nada é absoluto, mas é verdade.

Borges é um escritor do qual o cinema e as artes plásticas gostam muito. Por que isso acontece?

Borges, com frequência, não gostava das adaptações de suas obras para cinema e eu sempre dizia que ou ele não devia dizer não ao acompanhamento do roteiro ou não dizer sim ao ceder os contos. Borges gostava muito de arte. O problema com os contos é que, quando um diretor lia um conto, pensava logo “tenho o filme”, porque é terrivelmente visual. E no fim saía uma besteira porque escapava a essência, que é toda a filosofia subjacente a tudo isso. Ele sempre dizia que apenas dois filmes se salvavam: O homem da esquina rosada, de René Múgica, e A estratégia da aranha, de Bernardo Bertolucci. E ele havia visto todos os filmes. Eram os únicos que ele gostava.

Por que, na sua opinião, a literatura de Borges desperta tanta admiração e devoção?

Creio que é porque a obra dele não é do tipo “te conto um conto”. Na obra dele, cada conto carrega toda uma percepção filosófica de diferentes temas. E isso é o que faz com que a obra seja fascinante para as pessoas e atravesse o tempo. Não é uma obra que você lê, toma um café e vai caminhar. Tem toda essa filosofia que ele carregava desde pequeno sem se dar conta. Quando ele era pequeno, o pai dava a ele uma maçã e perguntava: “o que é isso?” Ele respondia: “uma maçã”. Então o pai dizia “feche os olhos e me diga o que é uma maçã? A cor? O sabor?”. O pai ensinou filosofia e toda a formação de Borges era uma formação filosófica. Não é, digamos, aprendida, e sim absorvida e vivida desde a infância. E depois desenvolvida e aprofundada conforme o interesse dele.

A senhora é a guardiã da obra dele…


Não sou a guardiã, sou a responsável. O que é muito diferente. A diferença é que a guardiã cuida da obra e ser responsável é tratar de impedir que essa obra seja deturpada, destruída. Há uma enorme diferença. E é uma responsabilidade que tenho. Cada um tem sua missão na vida. Cumpro a minha com alegria.

Qual é o desafio? Há ameaças?


Há muitas pessoas que querem distorcê-la, usá-la. É uma coisa muito complexa e difícil preservar o respeito em relação a como a pessoa trabalhava e sentia sua obra.

Há coisas inéditas de Borges?

Tenho coisas inéditas. Um prefácio feito para o Livro dos mortos, dos egípcios, e um roteiro pedido por uma atriz que se chamava Valentina Cortese. Ele trabalhou muito nesse roteiro. Mas não vou publicar, faltava muito para terminar.

Como a senhora encara as crises no continente latino-americano hoje?


Penso que, se não aprendermos a nos encontrar e falar, estamos perdidos. Estive no Festival de Biarritz numa comissão para escolher entre cerca de 80 filmes latino-americanos. Vendo todos esses filmes pensei em duas possibilidades. Uma é que eles tenham sido feitos para que as pessoas que o produziram recuperassem o dinheiro e isso já era terrível o suficiente. A outra possibilidade é que realmente isso fosse o que pensam, sentem e o que queriam transmitir os diretores desses filmes. Se for assim, a América Latina nasceu malparida e vai continuar malparida. Para cá vieram homens aventureiros que trouxeram para fazer dinheiro. E isso ficou na mente e no DNA dos latino-americanos. É um saque permanente. Estamos perdidos. Em nenhum desses filmes que eu vi há futuro. E quando não há futuro, acabou a história.

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