Suspensa em 2004, biografia de Caetano Veloso chega às livrarias

Obra ganha nova editora (Seoman), tem texto reescrito pela dupla de autores e será lançada na próxima semana

por Mariana Peixoto 28/04/2017 09:00

Thereza Eugênia/Divulgação
Foto tirada na casa do cantor em 1982. (foto: Thereza Eugênia/Divulgação)

Biografias, salvo exceções, têm uma estrutura inconfundível. O prólogo, é regra, traz um fato marcante da vida do biografado. Logo depois vem o capítulo inicial, geralmente aberto com os primeiros anos do personagem.

 

Caetano: uma biografia. A vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos (editora Seoman), de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, que chega às livrarias na próxima semana, tem início na noite de 23 de março de 2003.

No Kodak Theatre, em Los Angeles, Caetano apresentou, ao lado da mexicana Lila Downs, Burn it blue durante a cerimônia do 75ª edição do Oscar. A canção havia sido indicado ao prêmio pelo filme Frida. Para os autores, o ''fato não poderia ser ignorado'', já que Caetano havia se apresentado para o maior público de sua carreira.

É uma opção, que ganha novo sentido quando se chega à página 523 do livro (são 544 no total). No posfácio, o leitor fica sabendo que Drummond e Nolasco poderiam ter enterrado um trabalho que consumiu seis anos da dupla. E que a biografia, originalmente, seria publicada entre 2004 e 2005, pouco após a apresentação no Oscar. Por outra editora (Objetiva), com um outro texto. Que Caetano não autorizou.

A dupla de autores, funcionários públicos que nunca foram tietes de Caetano – ''não tínhamos conhecimento profundo sobre ele quando começamos'', afirma Drummond, também poeta e compositor da Imperatriz Leopoldinense –, após realizados alguns encontros com o músico pediu uma declaração dele ''que desse segurança à continuidade dos trabalhos''.

Caetano escreveu, em 2001, um documento em que reconheceu a existência do projeto – ''Eles me apresentaram algum material extraído das entrevistas que fizeram, sendo que alguns documentos (textos e fotos) a que tiveram acesso me surpreenderam e emocionaram'', diz trecho da carta.

 

 

Em 2004, já de contrato assinado com a Objetiva (que lhes pagou um adiantamento de R$ 20 mil), os dois voltaram a Caetano. Precisavam de uma autorização formal para a continuidade do trabalho. O escritório do artista não autorizou, e a editora desistiu de publicar o livro. Que só foi retomado em 2015, quando decisão do Supremo Tribunal Federal retirou a obrigatoriedade de autorizações prévias para a publicação de biografias.

A história terminaria agora, com o livro pronto, não fosse uma outra questão. Caetano não teria autorizado o livro na época porque não havia gostado do texto. A Objetiva teria exigido um terceiro autor, um nome de peso (a jornalista Ana Maria Bahiana).

“Chegamos a aceitar (a exigência), mas o projeto não foi em frente. Gostar ou não de um texto é uma questão absolutamente normal. Mas o que Caetano tinha lido (no início dos anos 2000) era um outro texto, que não estava em sua versão final. E tinha valor, do contrário, por que a Objetiva nos pagaria um adiantamento?”, afirma Drummond.

Em turnê pela Europa, Caetano falou sobre a polêmica em entrevista publicada na última segunda-feira, 24, pelo jornal português Observador. ''Não reli, mas vou olhar agora quando voltar para o Brasil. Eles fizeram uma pesquisa muito cuidadosa, falaram com todos os meus parentes, irmãos, meus amigos de infância, as pessoas com quem eu trabalhei em vários períodos, e acho que eles fizeram um levantamento que deve valer a pena para quem se interessa pela minha vida. Agora, quando a li pela primeira vez, falei para eles: 'Olha, isso precisaria ser reescrito', porque… como texto literário, achei um pouco fraco. Agora eu não reli, mas foi preciso autorização minha para que eles pusessem as fotografias, e eu dei autorização. Sem reler.''

 

REESCRITA

Drummond e Nolasco entrevistaram 103 pessoas para o projeto (20% delas, na conta dos autores, já morreram). Para a publicação da biografia, não fizeram nenhuma nova entrevista. ''Depois de tudo o que aconteceu, não nos sentíamos mais à vontade para fazer entrevista'', justifica Drummond. Passaram um ano, já com a nova editora, reescrevendo o livro e checando as informações.

Um dos problemas do volume aparece aí. O texto tem início e fim com a cerimônia do Oscar. A trajetória de Caetano de 2003 até os dias atuais aparece no posfácio, num texto que parece escrito às pressas, sem qualquer profundidade (e nada diferente do que se acha numa rápida pesquisa na internet). E é uma época prolífica para Caetano, em que ele se reaproximou do público jovem (com a trilogia da banda Cê) e protagonizou duas turnês históricas (uma com Roberto Carlos e outra com Gilberto Gil).

O texto, já que a polêmica atual é esta, carece de personalidade. É por vezes ingênuo (''Em tempos de ditadura, o programa alternativo sempre seria uma boa opção para quem quisesse respirar novidades e arejar a cabeça''). Em alguns momentos, abusa dos chavões (''Em coração de pai e de mãe sempre cabe mais um'').

Mas a profundidade com que os autores tratam da história (até 2003, vale repetir), e a profusão de fontes (são pelo menos três para cada fase do artista, além de extensa bibliografia), acaba validando a biografia como um documento responsável e crível sobre a longa trajetória de Caetano.

Os autores não se prendem a fofocas ou qualquer assunto de menor importância. E ainda delineiam ricas passagens biográficas sobre aqueles que estiveram próximos ao artista (Maria Bethânia tem muito destaque). Entre os pontos fortes está a fase inicial, na infância em Santo Amaro da Purificação. Os autores contaram com a colaboração de parentes (os irmãos Mabel e Rodrigo Velloso, principalmente) e amigos de infância do compositor. Estão ali os anos escolares (há inclusive documentos impressos no livro, bem como desenhos feitos pelo próprio Caetano), relatos dos primeiros emprego e namorada.

Foi um antigo colega de colégio, Wanderlino Nogueira (hoje integrante do Comissionado do Comitê dos Direitos da Criança da ONU, em Genebra) quem apresentou a Caetano a obra de Oswald de Andrade. O livro ainda relata a origem de várias canções (Itapoã foi inspirada, por exemplo, nos primeiros momentos de namoro com Dedé Gadelha, quando Caetano viajava escondido para a praia baiana).

Há também fontes pouco conhecidas, como Respício do Espírito Santo, então tenente, que ajudou Caetano durante o período em que ele ficou preso pela ditadura militar (leia trecho nesta página).

''Hoje, minha sensação é de alívio por ter terminado algo que, em determinado momento, parecia que ia se perder'', conclui Drummond, logo acrescentando: ''Não me considero um biógrafo. Sou apenas um sujeito que fez um livro sobre o Caetano''.

Trecho
''Com a censura imposta, não se podia ser claro sobre o paradeiro de Caetano. Fora isso, havia muita especulação a respeito. Quem sabia a verdade, publicava matérias cifradas ou mesmo se calava por segurança. Desde a transferência de quartéis na própria Vila Militar, Dedé o perdera de vista. Foi assim até o dia em que o tenente Respício esteve com Bethânia. Foi ele quem levou notícias sobre Caetano. Ele passava bem e estava detido em seu quartel. Ela pediu para visitar o irmão. Não havia problema. Pelo menos ali, Caetano podia receber visitas. E mais: deixou seu telefone para que Bethânia ligasse no dia em que fosse. Ele mesmo mandaria buscá-la. No dia e hora marcados lá estava o Simca Chambord azul do tenente para pegar Bethânia. A ansiedade durante o percurso só não foi maior do que a alegria pelo reencontro, apesar do choque. Caetano estava um caco, abatido, de cabelo reco, vestido de soldado... Quase sumia de tão magro.''



CAETANO: UMA BIOGRAFIA. A VIDA DE CAETANO VELOSO, O MAIS DOCE BÁRBARO DOS TRÓPICOS
>> Autores: Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco
>> Editora: Seoman
(544 páginas)
>> Preço sugerido: R$ 59,90

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