Exposição 'Entre nós' traz acervo do Masp para BH

Mostra reúne obras importantes do museu paulistano, com trabalhos de artistas nacionais e estrangeiros centrados na figura humana

por Ana Clara Brant 26/04/2017 08:00
Jair Amaral/EM/D.A.PRESS
Conjunto de esculturas de bailarinas do francês Edgar Dégas (1834-1917) (foto: Jair Amaral/EM/D.A.PRESS)
O passeio começa pela África, mais precisamente na Nigéria e em Benim. Já na primeira sala, o visitante se depara com um conjunto de ibejis, esculturas africanas de autores desconhecidos. Entre os iorubás que vivem nesses dois países, há uma das maiores incidências de nascimento de gêmeos em todo o mundo;, fenômeno ainda não explicado. Esse povo defende a teoria de que os gêmeos compartilham a mesma alma e, por isso, quando um deles morre, uma estatueta chamada ibeji (ibi – nascido – e eji – dois) deve ser providenciada para manter o vínculo espiritual entre o irmão vivo e o que morreu.


“Eles têm a ideia de que o gêmeo, na verdade, é uma só pessoa. As estatuetas que os representam recebem uma série de cuidados e são feitas de madeira, mas também carregam adereços como metais e contas. É um trabalho bem interessante”, ressalta Luciano Migliaccio, um dos responsáveis, ao lado de Rodrigo Moura, pela curadoria da mais nova exposição do Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte (CCBB-BH).

Entre nós - A figura humana no acervo do Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), entra em cartaz hoje em BH, após ter passado pelo Rio de Janeiro. A mostra, que traz um recorte importante do acervo da instituição paulista, fica aberta à visitação até 26 junho, no prédio da Praça da Liberdade.

Como seu nome indica, o eixo central da exposição é a representação da figura humana, tema tratado de diferentes maneiras em diferentes coleções do acervo do Masp. Aspectos como religiosidade, o apelo estético e o trabalho estão presentes, assim como várias épocas, estilos e lugares, como a própria África, o Peru, a Colômbia, a Itália, França e, claro, o Brasil. “A ideia foi achar um tema que permitisse mostrar toda essa pluralidade de linguagens, de expressões artísticas, de técnicas e também de diversos momentos da história e de estilos. São aproximadamente 100 obras, incluindo pinturas, fotografias, objetos tridimensionais, instalações e desenhos”, afirma Migliaccio, que é curador adjunto do Masp.

Ele destaca a importância de obras de valor artístico tão relevantes deixarem momentaneamente o museu paulistano e ficarem disponíveis a um público que não é o habitual do Masp. “No Rio, a repercussão foi muito positiva. Desde 1947, os cariocas não recebiam uma exposição com recorte tão amplo do Masp. Em BH, já tivemos algumas obras do museu expostas, mas sempre algo bem específico e pontual. Conferir um acervo como esse, que contempla Goya, Diego Velásquez, Amadeo Modigliani, Vicent van Gogh, Manet, Pedro Figari, Pablo Picasso, Edgard Degas, sem contar os brasileiros Anita Malfatti, Cândido Portinari, Lasar Segall, Victor Brecheret, Djanira e Heitor dos Prazeres, é uma chance única”, pontua.

BAILARINAS Entre os destaques de Entre nós... está uma conjunto de 12 esculturas do artista francês Edgar Degas que mostra a evolução dos movimentos de uma bailarina – Bailarina que calça sapatilha direita, Bailarina descansando com as mãos nos quadris e a perna direita para a frente e o feminino, como em Mulher grávida e Mulher saindo da banheira. “Degas não fez essas esculturas para expor, mas para estudo plástico e dialogava muito com seus desenhos e pinturas. Quando ele morreu, os amigos, para evitar que esses esboços que eram feitos de argila e cera se perdessem, fizeram fusões em bronze e o resultado está aí. O Masp é um dos sete museus do mundo que têm essa coleção”, frisa.

Entre os brasileiros, há um retrato de Tarsila do Amaral feito por Anita Malfatti; a belíssima e viva Capoeira, pintura de Maria Auxiliadora; e o maior quadro da exposição, Guerra, de Lasar Segall. Um dos idealizadores do Masp, o empresário e jornalista paraibano Assis Chateaubriand, também se faz presente na mostra em um desenho de 1971 de Flávio de Carvalho.

Luciano Migliaccio salienta que a exposição contempla autodidatas e um dos exemplos é o imigrante italiano Albino Braz. O artista ficou boa parte de sua vida internado em um hospital psiquiátrico no interior paulista e criou uma série de desenhos que foram doados ao Masp pelo psiquiatra Osório César. “São obras muito fortes, intensas, e estão nesta exposição no CCBB, assim como o desenho O serrador, de Hélio Melo, que era seringueiro. Essas manifestações são também importantes na cultura brasileira e comprovam que o espírito principal do Masp é sua diversidade”, afirma.

A única obra de arte que não é essencialmente humana mas apresenta o homem de uma outra maneira é Paisagem com tamanduá, datada de aproximadamente 1660. O quadro, em óleo sobre madeira, do holandês Frans Post, mostra Recife e carrega vários detalhes e nuances como palmeiras, animais, como o próprio tamanduá-bandeira, o tatu, e até um engenho de açúcar. “É um dos primeiros retratos do Brasil. Post veio com Maurício de Nassau na época das invasões holandesas. Mas esse quadro foi pintado depois, a partir de desenhos”, explica o curador. A última sala de exposição traz uma instalação muito curiosa de Nelson Leirner, Altar para Roberto Carlos, de 1966, que faz uma homenagem cheia de luzes, fé e cores ao Rei da música popular brasileira.

Italiano de Nápoles e morando no Brasil há 20 anos, Luciano Migliaccio acredita que o brasileiro tem um potencial enorme não só de apreciar, como principalmente de criar arte, e diz estar particularmente muito feliz de trabalhar no Masp como curador adjunto, já que o museu foi fundado por um italiano (Pietro Maria Bardi) e um brasileiro (Chatô), que pensaram juntos um novo país. “Este museu ajudou a estreitar essa relação do Brasil com a arte e fazer com que o país tivesse uma noção da importância dessa manifestação na cultura contemporânea. Espero que essa mostra promova uma série de reflexões e de experiências estéticas e que o público de Belo Horizonte entenda que o Brasil tem uma instituição com a missão de discutir a arte e a experiência estética no passado e no atualmente”, resume.

Entre Nós – A Figura Humana no Acervo do Masp
CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, 3431-9400). Em cartaz até 26 de junho, de quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada franca.

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