Lívia Moura e Felipe Fernandes apresentam pinturas abstratas em BH

Exposição 'Abrindo a caixa' começa nesta terça-feira, 25, na dotART Galeria e ainda reúne outros trabalhos dos artistas e um vídeo de Regina Vater

por Pablo Pires Fernandes 25/04/2017 10:03
Felipe Fernandes/Divulgação
Pintura da série 'Barulho', de Felipe Fernandes, parte do desenho para capturar objetos e formas do inconsciente. (foto: Felipe Fernandes/Divulgação)
A espontaneidade e a intuição que orientam o fazer criativo de Felipe Fernandes e Lívia Moura escondem um trabalho mais complexo. Nas pinturas de ambos os artistas predomina a abstração, em formas orgânicas que escondem e revelam nuances, cores e matérias. Também nos dois casos, a um primeiro olhar, as telas em grande formato não deixam evidente o exercício de domar o gesto puro. A intuição aqui é fruto de um elaborado processo de racionalização ou desconstrução das formas.

Em exposição que será aberta nesta terça-feira, 25, na dotART Galeria, os artistas mostram seus mais recentes trabalhos, junto a um vídeo de Regina Vater. A curadoria é do diretor artístico Wilson Lazaro, que justifica a escolha dos dois jovens cariocas pelo fato de ter querido inaugurar a primeira mostra do ano com pinturas. ''Quis mostrar o suporte da pintura, que está sempre atual, ao contrário do que dizem – que a pintura está morta'', defende, acrescentando que ambos trazem frescor à técnica empregada, com o uso de muitas cores e formas abstratas em telas que dialogam com a trajetória de cada um. ''Nos trabalhos dos dois, há muitas nuances e elas exigem que o espectador desvele as várias camadas para descobrir surpresas'', aponta Lazaro.

LIBERTAÇÃO Lívia Moura exibe um conjunto de 11 pinturas – sendo um conjunto de quatro telas e dois dípticos –, cinco fotografias, um vídeo e alguns vasos de cerâmica sob o título de Abrindo a caixa. O título é uma referência a Pandora, figura mítica que, ao abrir uma caixa, libertou todos os males do mundo. Em sua trajetória, Lívia trabalhou com ''linguagens ampliadas'', como ela se refere às performances, instalações, vídeos ou o uso conjunto de várias técnicas e meios para criar uma obra com forte engajamento social.

O conjunto de fotografias, vídeo e vasos tem origem na residência que fez no Sul da Itália (2008-2012), quando estudou técnicas tradicionais de cerâmica e produziu diversos objetos. O vídeo é desta época e mostra vasos de cerâmica em uma praia, sob o movimento das ondas, que ocultam e revelam os vasos. Ela diz que as imagens remetem às formas de um útero, com as espumas podendo significar o esperma de onde emergiu a deusa Vênus, com sugestões eróticas e relacionadas ao universo feminino.

Nas pinturas, Lívia retoma a circularidade, e as formas multicoloridas evocam teias, redes ou espumas. A artista conta que, depois de anos negando a pintura e usando outras linguagens, sentiu a necessidade de pintar. ''É uma contradição, no bom sentido'', diz, rindo de si própria. E conta que ela liberou a parede de sua casa para que os filhos Teo e Francesco, de 1 e 3 anos, a ocupassem com desenhos e pinturas. ''Ao vê-los pintando e misturando cores de maneira intuitiva, decidi pintar'', declara, acrescentando que os desenhos dos filhos serviram como ponto de partida para suas criações, até que foi desenvolvendo a pesquisa com tintas, pigmentos naturais.

''Não queria projetar nenhuma ideia nem fazer algo figurativo. Buscava um movimento genuíno, intuitivo, não queria fazer o projeto de um quadro. A pintura vai acontecendo no momento em que vou lidando com o material, que responde de diferentes maneiras, com relevos, crostas, as várias camadas que se sobrepõem'', conta. Ao mesmo tempo, Lívia explica que o processo de feitura impõe desafios. ''É intuitivo e extremamente racional, porque, para ficar equilibrado, exige muito. É como uma equação que vai se apresentando a cada passo e que eu tenho que resolver.''

O processo de Felipe Fernandes, que expõe a série intitulada Barulho, também traz muito de intuição, embora o início se dê sempre a partir de desenhos. Ele relata que os quadros começam com desenhos, mas não de observação. ''É um modo de acessar coisas que não estou vendo'', conta. Para o artista, o traço, com linhas básicas – círculos, formas orgânicas –, traz sempre algo de figurativo, além de ser o caminho mais rápido entre o pensamento e sua expressão. O movimento na pintura é outro, por lidar com cores e manchas e a especificidade da tinta.

Felipe explica que não reproduz os desenhos nas telas, mas que, no ato de pintar, reúne as imagens desenhadas e as redimensiona, num exercício de desconstrução do figurativo. Esse movimento fez com que as telas de Felipe se situassem entre os dois campos: figurativo e abstrato, evocando o inconsciente. ''É sempre um movimento de ida e volta, em que apago o figurativo e tento dar alguma forma ao abstrato'', diz, acrescentando que busca sempre formalizar um desejo, um sentimento ou algo que não pensaria em relação a um objeto. ''No fim, é sempre uma insinuação, de figuração e ou de abstração, é um caminho nesse meio termo. É mais intuitivo, não consigo fechar o trabalho numa forma, mas na soma de várias idas e vindas.''

A exposição traz ainda o vídeo de Regina Vater produzido na Bélgica. A artista da geração dos anos 1960 e 1970 explora elementos políticos no trabalho Green ou sinal verde para o saque das Américas. ''Tem tudo a ver com o que estamos passando no mundo'', diz o curador, que quis resgatar a artista que, segundo ele, está ''um pouco afastada da mídia e precisa ser lembrada''.

Coletiva
Abrindo a caixa, pinturas, vídeo e fotografia de Lívia Moura; Barulho, pinturas de Felipe Fernandes; e Green ou sinal verde para o saque das Américas, vídeo de Regina Vater
Abertura hoje, às 18h30. Na dotART Galeria (Rua Bernardo Guimarães, 911, Funcionários, (31) 3261-3910). De segunda a sexta, das 9h às 19h, sábado, das 9h às 13h. Entrada franca. Até 24 de junho.

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