Peça faz paralelo entre LP 'Cabeça dinossauro', dos Titãs, com o Brasil atual

Lançado em 1986, disco foi um petardo contra a intolerância e o conservadorismo. Montagem do coletivo Complexo Duplo será encenada hoje, 12, a Belo Horizonte

por Pedro Galvão 12/04/2017 08:00

Ricardo Brajterman/Divulgação
Atores cantam e mantêm arranjos originais de 'Cabeça dinossauro' (foto: Ricardo Brajterman/Divulgação)
Cabeça dinossauro faz parte da trilha sonora da juventude de qualquer mente contestadora de classe média do Brasil da década de 1980, com suas letras combativas e musicalidade perturbadora. No embalo dos 30 anos da obra-prima da banda Titãs, lançada em 1986, o diretor Felipe Vidal criou o espetáculo Cabeça – Um documentário cênico, que entrelaça canções a histórias pessoais de artistas cujas vidas foram marcadas pelo disco. A peça será apresentada apenas hoje, 12, no Sesc Palladium.


O carioca Vidal tinha 12 anos quando Cabeça dinossauro foi lançado. Fascinado pelo som da banda e atraído pelo formato teatral que vem ganhando força na América Latina para remontar fatos contemporâneos, ele reuniu o elenco e, depois de quatro meses de ensaios, estreou em outubro do ano passado. “Nosso objeto é o disco e suas canções, mas queríamos falar sobre a recepção do álbum por nossa geração”, explica o diretor e autor do texto. Ele sobe ao palco ao lado de sete atores com idades e experiências parecidas.

São oito homens, assim como a formação que gravou Cabeça dinossauro, composta por Arnaldo Antunes, Nando Reis, Tony Bellotto, Marcelo Fromer, Branco Mello, Charles Gavin, Sérgio Brito e Paulo Miklos. Em cena, os atores contam experiências e pontos de vista que ajudam a reconstruir o ambiente  e a história em torno das 13 faixas do disco, tocadas na íntegra pelo elenco com os arranjos originais. São dois atos, assim como os dois lados do LP. Projeções videográficas complementam a narrativa.

“Com as músicas, acessamos o afetivo da plateia, conseguindo uma empatia muito grande das pessoas. Éramos jovens quando o disco foi lançado, e os Titãs também. Todo mundo que viveu aquela época também tem suas memórias e histórias. Isso nos aproxima do público”, revela Vidal.

A ideia é oferecer ao público uma viagem musical mesclando canções e depoimentos. “É um espelhamento cênico, temos os instrumentos – duas guitarras, baixo, teclado, bateria – e falamos sobre histórias pessoais e sobre os temas das canções, com a liberdade de inserir comentários e outras ideias. A peça está sempre em atualização, falamos de 1986, mas sob a perspectiva de hoje”, explica o diretor.

VIOLÊNCIA
Com letras sobre violência policial, questionamento da estrutura familiar, críticas à Igreja e outras estruturas sociais, a proximidade entre o contexto histórico que cercava o lançamento do LP e o atual torna Cabeça ainda mais oportuno. Em meio à polarização ideológica que atualmente toma conta do Brasil e da forte escalada conservadora, a peça oferece uma possibilidade de reflexão ao público, acredita o autor.

“Infelizmente, (o disco) poderia ser escrito ontem. São canções muito potentes, icônicas no discurso e maravilhosas musicalmente, mas é lamentável que, mesmo com todas aquelas críticas, voltamos para o mesmo lugar 30 anos depois. Notamos que se desenha um retrocesso, em 1986 ainda havia censura e canções desse tipo ressoavam muito mais do que hoje. É preocupante, pois desenha-se um retrocesso que lutamos para não acontecer”, analisa Vidal.

Produzido pelo coletivo Complexo Duplo, o espetáculo foi premiado em seus primeiros seis meses em cartaz. Na última edição do Prêmio Shell, Cabeça conquistou o troféu de melhor música e foi indicado à categoria melhor autor. A peça vem a BH por iniciativa do projeto Teatro em movimento, que se propõe a fazer espetáculos circularem além do eixo Rio-São Paulo.

CABEÇA – UM DOCUMENTÁRIO CÊNICO
Com Coletivo Complexo Duplo. Hoje, às 20h30. Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro 1.046, Centro, (31) 3270-8100. Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)

Warner/Divulgação
Capa do disco lançado em 1986 (foto: Warner/Divulgação)

‘Pedrada’ oitentista Terceiro álbum da banda Titãs, Cabeça dinossauro é um ícone do rock brasileiro. Com musicalidade agressiva, típica do punk rock que chegava ao Brasil uma década depois de explodir nos EUA e na Inglaterra, o álbum apresentava também outros ritmos, como o reggae e o funk. A novidade sonora e as letras transgressoras, no momento de redemocratização política e reconquista das liberdades individuais depois da ditadura militar, fizeram do álbum um sucesso de crítica e de público. Cerca de 700 mil cópias foram vendidas.

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