Joca Reiners Terron lança em BH romance 'Noite dentro da noite'

Obra traz mistura de lembranças de infância com personagens reais e imaginários

por Carlos Marcelo 09/04/2017 20:03

O novo livro de Joca Reiners Terron foi escrito para você. Mais precisamente, para “você”. O romance é narrado na segunda pessoa do singular, como se anuncia nas primeiras páginas: “Esta história é sobre você, mas vai contá-la como se fosse sobre outro”. Confuso? Nem um pouco. Claro como a neve. Ou o Ano do Grande Branco, uma das muitas imagens poderosas de Noite dentro da noite: uma autobiografia (Companhia das Letras), que será lançado na noite de hoje em BH, dentro do projeto Sempre um Papo.


RENATO PARADA/DIVULGAÇÃO
Escritor mato-grossense estará no projeto 'Sempre um papo' (foto: RENATO PARADA/DIVULGAÇÃO)

A narrativa cruza reminiscências fragmentadas da infância do escritor mato-grossense nos anos 1970 durante a ditadura militar, com personagens reais, como o tradutor alemão Curt Meyer-Clason (1910-2012), e mergulha o leitor em uma espiral tão avassaladora quanto a imagem da capa, o quadro Hole, de Brendan Monroe. É um passo seguro de Terron, cuiabano radicado em São Paulo, na consolidação de uma obra coerente e consistente.

“Alguns temas me perseguem, como a perda da memória, as relações entre esquecimento e imaginação, questões acerca da identidade, estão presentes na maior parte de meus livros e neste também”, acredita o autor. A seguir, em entrevista por e-mail, Joca Reiners Terron discorre sobre a criação de Noite dentro da noite (inclusive a origem do belo título), e explica: “Em meu caso, a imaginação e a mentira servem para que a ficção se aproxime mais da verdade.”


Qual foi o primeiro lampejo para Noite dentro da noite?
Não me lembro, comecei a escrevê-lo há 10 anos. Estava no Cairo em 2007, pesquisando para escrever o romance Do fundo do poço se vê a lua (Companhia das Letras, 2010), e curiosamente comecei a compor uma história passada no Mato Grosso e no Chaco paraguaio. É o capítulo 12 do novo romance. Ou seja, comecei a escrevê-lo pelo final. Lembro que andava lendo W.G. Sebald.

Quem é “você”, a quem a narrativa é destinada?

O romance é narrado na segunda pessoa do singular para esse “você”, que, além de mudo, é desmemoriado. Embora não fale em nenhum momento, “você” é o assunto principal do livro, quem seria, o que fez, por que se comporta de tal maneira. É uma figura vazia como aquelas silhuetas tracejadas para serem recortadas. O romance é a própria tentativa de preenchê-lo de algum sentido.

Quais os fantasmas que o assombraram na hora de escrever? E como você os incorporou à narrativa, a ponto de citá-los na epígrafe (“E os fantasmas, eles são donos de tudo”, de Graham Foust)?
Há uma frase do livro que diz que toda história de família é uma história de fantasmas. Então são esses fantasmas familiares que me perseguiram. São vidas fantasmáticas, que poderiam ter tomado outros rumos mas seguiram seu caminho torto. O livro propõe outra questão: os fantasmas continuam a existir após todas as pessoas que deles se lembravam também morrerem?

Como as suas lembranças da infância foram utilizadas em Noite dentro da noite?
É impossível escrever ficção sem que o escritor se apóie em sua própria experiência. No livro, além do acidente, que foi algo real que sofri, aparecem todos os cenários de minha infância e juventude. Como “você”, vivi no Paraná e no Mato Grosso, fiz FAU no Rio de Janeiro. E a Fazenda Sumidouro do livro é a fazenda de meu avô. Mas “você” não sou eu.

Afirma o narrador: “A imaginação é mestra do erro e da falsidade”. E para o escritor, o que representa a imaginação? No seu caso, a imaginação ajudou a substituir as lacunas da memória?

Hobbes afirma que memória e imaginação dizem a mesma coisa, apenas possuem nomes diferentes. Em meu caso, a imaginação e a mentira servem para que a ficção se aproxime mais da verdade. É como se o livro flagrasse o nascimento mesmo do ato imaginativo, que pode ser tanto de um escritor quanto de um psicopata.

Como surgiu a decisão de utilizar Curt Meyer-Clason como personagem? O que mais o fascina no alemão, mais conhecido no Brasil por traduzir Guimarães Rosa?
Meyer-Clason teve duas vidas, e isso é o que me interessou nele. Primeiro, foi um comerciante que na verdade era espião nazista. Depois se tornou tradutor e negou completamente seu passado. No livro, todos os personagens têm vidas duplas, como naquele discurso famoso de Philip K. Dick (autor de O homem do castelo alto, entre outros romances) em Merz, no qual ele afirmou não acreditar em vidas passadas, mas em outra vida que está acontecendo agora mesmo paralelamente a esta que vivemos.

“Por quilômetros você observou as colheitadeiras que pastavam no horizonte como bichos pré-históricos, uns dinossauros avermelhados pelo sol do Mato Grosso devorando florestas do futuro.” Eis uma das imagens fortes do livro. Qual é o Mato Grosso que aparece nas suas lembranças, ainda que fragmentadas?
É um Mato Grosso privado, que só existe em minha lembrança. Há regiões da fronteira totalmente esquecidas, como se fossem zona pertencentes ao terreno da morte ou ao passado. Bela Vista, cujo nome alterei para Curva de Rio Sujo, é uma delas: uma cidade de duzentos anos na fronteira com o Paraguai, em ruínas, que ainda rumina restos de uma guerra acontecida há mais de cem anos.

Como chegou ao título Noite dentro da noite? Também é uma referência à ditadura militar? E por que a inclusão do subtítulo “uma autobiografia”?
Me veio à cabeça anos atrás, ao ver o quadro de Malevich, Quadrado branco sobre fundo branco. É um título sugestivo, inclusive nesse sentido que você diz, mas tem a ver com a forma com que os índios mbyá-guarani compreendem a passagem do tempo e a ideia do amanhã. Isso influenciou a estrutura do livro. O subtítulo, por outro lado, sugere que é “uma” autobiografia. Mas bem poderia ser “outra”.

“A verdadeira ditadura militar foi a obrigação de acordar mais cedo todos os dias para cantar o hino à bandeira em ordem um dia”. Você emprestou suas lembranças aos personagens? Os fantasmas da ditadura ainda nos assombram? De que forma?
Sim, emprestei. Meus personagens são bichos empalhados com a palha de minhas lembranças. O autoritarismo nos cerca por todos os lados. Não morreu, está aqui, agora e precisa ser combatido todos os dias.

Curva de Rio Sujo, seu livro de 2003, tem adaptação cinematográfica dirigida por Felipe Bragança que foi exibida no Festival de Sundance no início do ano. Qual a sua participação e reação à visão do diretor? Noite dentro da noite também pode seguir o mesmo caminho?
Felipe tomou as histórias do livro para si e criou em cima delas. Li apenas uma versão antiga do roteiro e ainda não assisti ao filme. Um capítulo do livro novo quase virou série dirigida por Luiz Fernando Carvalho na Globo, Quadrantes, que chegou a comprar os direitos. Porém, a série foi descontinuada. Já o romance completo seria difícil de adaptar, só se o cineasta estivesse louco.

Em entrevista em 2013, você afirmou: “Mergulho de verdade nos livros e desligo por completo meu poder de avaliação. Se não gosto de algo, ponho de lado sempre com a desconfiança de que o despreparado sou eu, não o livro”. Quais escritores despertaram o seu prazer da leitura? E quais os romances recentes que proporcionaram idêntica satisfação?
Robert Louis Stevenson, Jules Verne, Mark Twain, Edgar Allan Poe. Senti prazer semelhante ao ler romances de Roberto Bolaño, W. G. Sebald e Tom McCarthy.

 

 

 

NOITE DENTRO DA NOITE
De Joca Reiners Terron
Companhia das Letras
464 páginas
R$ 39,90 (e-book)

Hoje, às 19h30, o autor participa do projeto Sempre um Papo, no Auditório da Cemig (Rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho). Entrada franca. Informações:
(31) 3261-1501

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