Perto do coração selvagem de Noll

Um depoimento sobre o impacto da obra do escritor gaúcho, que morreu na semana passada

Eduardo Trópia/Divulgação - 25/11/12
(foto: Eduardo Trópia/Divulgação - 25/11/12)
Foi num verão pernambucano que me deparei com a literatura do escritor gaúcho. No começo adolescente, estranhei o nome. Poderia outro artista chamar-se João Gilberto? O músico agora se dedicava à literatura? Era outro que vinha depois de um sobrenome final diferenciador. João Gilberto Noll.


Não estava em Brasília, minha cidade de vida inteira, quando por lá Noll passou em 1991. Solicitei a meus pais que fossem pedir um autógrafo, pregar uma assinatura na parede da obra. Na primeira página de Bandoleiros, o escritor gaúcho me mandou “o abraço de um novo amigo, acredite”.

Acreditei. Não era para menos. Havia algo insondável entre o cego e a dançarina, entre aquele personagem andarilho das páginas e as inquietações da vida real. O texto literário podia mesmo ser daquela forma? Tão colado na angústia do presente.

Devo à professora Aglaêda Facó, em seu curso de literatura brasileira contemporânea na Universidade de Brasília, a permanência de Noll na agenda de leitura. Daí em diante, continuei na cola de cada lançamento, cada texto, cada frase.

Anos mais tarde, já como jornalista da área de cultura, tive a chance de conhecer Noll. Era um dos meus ídolos literários, e não sei se cheguei a lhe dizer isso. Pude reencontrá-lo em outras ocasiões. Tive mesmo a audácia de convidá-lo a participar de um projeto literário com minha curadoria.

Assim, testemunhei de muito perto a leitura idiossincrática que ele fazia dos próprios textos. Cantochão, derramamento. Ele me concedeu imagens biográficas para que fossem projetadas enquanto era entrevistado. Escolheu trilha sonora que incluía a Tigresa, de Caetano Veloso. Crispou as mãos.

Nunca esqueci sua necessidade de escrever porque a realidade sempre lhe pareceu “insuficiente”. Lembro que fez careta quando lhe disse que gostava da literatura de Autran Dourado. Não era mais a sua onda, talvez nunca tivesse sido. Ele só andava lendo poesia.

Não faz muito tempo, perguntei a Sérgio Sant’Anna quem ele considerava o maior escritor brasileiro vivo. Não titubeou: João Gilberto Noll. Que escreve com devoção, que sente o sangue que sai da palavra atirada ao papel, que dedicou a vida a essa tarefa.

Noll colocou sua letra ascendente, nunca reta na página, em seis outros volumes da minha biblioteca. A amizade sempre retornava como tema. Passou de “repentina”, após um jantar gentil e caloroso, a algo que alcançaria “toda uma vida”, colada num “baita abraço”.

Há uma explicação em quase modo de impessoalidade. João Gilberto Noll era seus próprios livros. Quer dizer, não havia, não sentia diferença entre corpo e letra. E ele sabia proustianamente que este leitor tornava-se, título a título, um amigo. Todo leitor.

Ele retribuiu a fidelidade de modo generoso. Convidou-me a escrever a orelha da reedição, pela Record, de A fúria do corpo. Escrevi embalado numa tentativa de dar conta em poucas linhas da grandeza daquele romance e de toda a obra. Um pouco antes, havia incluído Berkeley em Bellagio e Lorde em minha tese de doutorado, sobre personagens-escritores. No caso de Noll, protagonistas que precisaram ir ao exterior para se reencontrar e para rever o país que nunca lhes concedeu o valor devido.

O autor de O quieto animal da esquina parecia ser puro tormento. Ouvi relatos de que não era “fácil”. Pode ter sido, de fato, difícil na vida literária. Pulou de editora em editora. Foi fiel a algo que lhe parecia maior: a expressão poética do mundo, delineada, deambulada num percurso sem fim.

Optei por escrever este texto em primeira pessoa para não cair na armadilha da objetividade. Não aqui, não agora. A morte de João Gilberto Noll, a garganta apertada, a lágrima derramada, tudo isso significa que o tempo passou, que a literatura ainda importa, que a vida segue, incerta, entre muitas ondas e leves canoas.

Significa que o eu-leitor perdeu um amigo-autor de carne e osso, distante nos últimos anos, talvez por um endereço de e-mail não atualizado ou pelo trabalho cotidiano que devora o tempo do que mais importa. Mas a amizade se perpetua a cada obra aberta, a cada página virada. Tão minha quanto de todos que se deixam embalar pelo canto triste de uma desolação.

Ler João Gilberto Noll sempre foi um ato de sobrevivência e de resistência à vontade de colocar tudo em escaninhos estereotipados e, por isso, facilmente compreensíveis. Não há trama a ser resumida, não há enigma a ser revelado. Existe a literatura para sempre.

* Sérgio de Sá é autor de A reinvenção do escritor: literatura e mass media (Editora UFMG, 2010) e professor na Faculdade de
Comunicação da Universidade de Brasília.

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