Leia crônica de Teresinha Soares escrita para o Estado de Minas

Texto 'Amo São Paulo' foi publicado na edição do EM de 12 de julho de 1968

31/03/2017 14:52
Arquivo Cruzeiro
A artista Teresinha Soares com o trabalho 'Caixas óleos', em 1967 (foto: Arquivo Cruzeiro)
Tenho capacidade, ou melhor, sou afeita a experimentar sentimentos os mais diversos em um curto espaço de tempo.
Naquela esplêndida manhã partiria para S. Paulo. A pureza do ar entrando-me pulmões adentro me purificava. Os pensamentos eram leves, os olhos buscavam mansamente a paisagem, evocando na saudade outros momentos comuns, um mesmo despertar gostoso para as coisas, para a vida. Eu venceria.

Treze horas. Sentada contra um janelão de vidro, por ele, lá de cima, do meu hotel, eu podia ver uma nesga da cidade. Um relógio quadrado enorme indicando sempre que o povo deva correr. Tempo é dinheiro. E os homens lá embaixo, como em fita de cinema mudo, eram milhões de Carlitos se acotovelando, cruzando, passando… Por entre gigantescos blocos de cimento, fixos, rígidos, indiferentes. São Paulo ficou mais fria. E eu me senti só.

Às seis horas da tarde, em uma repartição pública, escutei a mocinha receosa dizer que era preciso voltar rápido para casa. E me deu o conselho. Haveria passeata dos estudantes, quebra-quebra, polícia, confusão. Parece que ela falou tão alto, por misteriosos alto-falantes, pois que de repente todo mundo corria. Nas ruas, até papéis e folhas secas eram levados pelo vento, numa grande movimentação e expectativa. Os estudantes vieram e passaram como uma chuva de pedras. Durou pouco tempo. O fogo que puseram na sede de um jornal paulista foi fogo de palha, não queimou nada. Nesse momento eu fui repórter. Quis estar presente no meu tempo. Ver, ouvir e falar.

Passaram-se alguns dias e muitas coisas aconteceram. Minha exposição em S. Paulo foi um sucesso. A Galeria Art-Art, que é enorme, estava repleta de gente: artistas-intelectuais, críticos, juventude, curiosos dando ao recinto, segundo José Geraldo Vieira, de A Folha — “qualquer coisa balouçante e fervilhante de tombadilho e porão daquela Nave dos Insensatos, do célebre romance”.

Atingi em cheio o alvo. Eu, que confiante escrevera no cartaz — usando das cores e formas da bandeira paulista — “Amo São Paulo” —, sorria à vitória do amor. Pois minha arte, meu trabalho, conquistou a maior cidade do país.

Não importa a criatura, mas a obra. Esta, sim, permanecerá.

Crônica publicada no Estado de Minas, 
sexta-feira, 12 de julho de 1968

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