Conheça a mulher que usou smoking nos anos 1970 nos bailes de gala em BH

Artista mineira de 90 anos produziu intensamente entre 1966 e 1976, antes de abandonar o ofício. Em abril, ela ganha mostra de dimensão inédita no Masp, em São Paulo

por Pablo Pires Fernandes 31/03/2017 14:26

Era tarde de sexta-feira quando Teresinha Soares nos recebeu em seu apartamento no Belvedere, bairro nobre na Zona Sul de Belo Horizonte. O sorriso foi sincero, como tudo que relatou, abertamente, a respeito de sua vida e sua obra. Ao longo da conversa, a serenidade desta senhora de cabelos previamente arrumados no salão de beleza revelou um pouco da inquietude e da intensidade com a qual se dedicou à arte.

Arquivo/ Teresinha Soares
(foto: Arquivo/ Teresinha Soares)
Teresinha Soares é singular, tanto a mulher como a artista. E não apenas pela qualidade de sua obra – realizada entre 1966 e 1976 –, mas, sobretudo, pela intensidade de sua entrega ao ofício. Nesses 10 anos, produziu intensamente, obteve notório reconhecimento e provocou debates acalorados.
 
Aos 90 anos, sentada no sofá de sua casa, discorre sobre sua “fase artística” como algo bem localizado no tempo. Refere-se sempre “àquela época”, a despeito das obras que produziu ocuparem duas paredes da sala. Além da janela de persiana que mostra o fim de tarde belo-horizontino, o outro lado é preenchido pela estante, com uma garrafa de café, biscoitos e torradas sobre uma bandeja e um pano bordado.

Aos poucos, ela conta sua história e comenta seu trabalho. Mesmo 40 anos depois de ter parado de produzir arte, sua convicção a respeito dela é evidente. A entrega era visceralmente necessária e, portanto, era o certo a ser feito. E ela sabe disso.

Essa mulher realizou uma obra que obteve reconhecimento imediato na década em que produzia. Participou de três bienais de São Paulo, expôs no exterior, ganhou destaque na imprensa. No entanto, poucos se recordam, conhecem ou têm ciência de seu valor artístico. No próximo mês, contudo, os trabalhos de Teresinha Soares serão reunidos no Museu de Arte de São Paulo (Masp). A mostra vai exibir grande parte das obras da artista em retrospectiva de dimensão inédita.

Naquela sexta-feira, Rodrigo Moura, responsável pelo setor de arte brasileira no Masp e que assina a curadoria da exposição de Teresinha, observava a minha conversa com a artista sem pronunciar palavra. Apesar das inúmeras visitas àquele apartamento no Belvedere, pela primeira vez ele colocou uma questão que lhe inquietava: “Quem tem medo de Teresinha Soares?”. A pergunta é o título da exposição que será inaugurada no Masp em 27 de abril. A frase foi extraída do título de um artigo de Henry Corrêa de Araujo, publicado pelo Estado de Minas em 11 de agosto de 1973.

“Olha, eu acho que, atualmente, ninguém tem mais, né? A Teresinha Soares já está com 90 anos, velha, coitadinha. Não dá mais trabalho. Mas, naquela época, as pessoas tinham medo de mim.” A resposta dela foi espontânea, sem nada que indicasse os escândalos que provocou com sua arte e seu modo de ser.

Mas Teresinha Soares despertou medo em muita gente e sua conduta libertária chegou a causar constrangimento à tradicional sociedade mineira. Seu pioneirismo, irreverência e contestação assustaram muitos. Naquele final da década de 1960 e início dos 1970, exibiu gravuras, instalações e performances que lidavam, principalmente, com a feminilidade e a sexualidade. “A mulher tem que ter prazer, desejo, sem crime e sem castigo. É a coragem de se mostrar, de se sentir à altura do homem, de se questionar – incluindo suas zonas erógenas –, da emancipação, do prazer, do encontro. Isso tudo está no meu trabalho”, afirma, com convicção e brio nos olhos.

A proposta criativa e antropofágica de Teresinha dialogou com o espírito contestador da época (já frequentou bailes de gale no Automóvel Clube usando smoking) e se materializou em formas potentes e que expressavam sua personalidade, sua história e suas inquietações. “A mulher foi sempre meu leitmotiv. Ela sempre esteve presente desde os primeiros rabiscos e até o fim. Mas meus trabalhos Corpo a corpo, Túmulos, Bandejas, tudo isso significava a vida doméstica, a opressão, o machismo, a agressão, a violência, a falta de equiparação, coisas que só eram permitidas aos homens. Então, enveredei-me por esse caminho, além de expor nas gravuras e nos desenhos essa parte erótica e o sexo. Também, quando coloquei meus pôsteres no chão na Petit Galerie (RJ) e as pessoas pisaram, era justamente isso, uma contestação, contra o corpo magoado, massacrado.”

Para ela, arte e vida são intrínsecas e indissociáveis. “A minha arte sempre foi assim, corpórea. É como se nascesse, como se eu parisse. Ela veio como um grito. Foi uma necessidade orgânica de pular, de mostrar, de falar e lutar por aquilo que eu achava que tinha razão. Foi uma coisa muito íntima, eu estava muito ligada à arte”, relata. A visceralidade é a mesma que, em 1968, o crítico Frederico Morais constatou e escreveu a respeito da artista: “É impressionante a sua energia, a sua vontade de pintar, desenhar, viver. Produz como se estivesse possuída pelo demônio, é algo fisiológico, inadiável, intransferível, como a necessidade de, repentinamente, chorar, gritar, dar socos ou dizer um palavrão”.

A arte de Teresinha Soares é fruto de pulsão e instinto libertários. Em Araxá, onde nasceu, ela já manifestava seu desassossego. Na provinciana cidade mineira, foi professora e lia cartas do namorado para os alunos. Foi a primeira mulher a trabalhar como bancária e a primeira a exercer o mandato de vereadora do município. A família frequentava o Rio de Janeiro e São Paulo. O casamento com Britaldo Silveira Soares a trouxe a Belo Horizonte.

Sua inquietude era expressa em textos, crônicas e relatos, o que a conduziu ao teatro. Teresinha fala pausadamente, sem pressa, e sempre com naturalidade, diz: “Nunca pensei que eu fosse ser artista, não passava pela minha cabeça, mas o teatro me abriu. Foi como se abrissem as cortinas e aquilo me mostrasse uma outra realidade. Foi como se eu pudesse ser aquilo que eu queria ser, sabe?”. As palavras deixavam claro que, naquele momento, o caminho da arte estava aberto.

Frequentou cursos de arte e se encantou pelo meio artístico e pela possibilidade de se expressar. “Comecei a rabiscar, brincar até com papel de jornal. Não tinha papel, me sentava no chão e rabiscava o jornal com tinta. Depois, passei a comprar papel e fazer esses trabalhos de mulheres”, relata.

Ao falar de suas motivações artísticas, Teresinha se refere à formação em Araxá. A política, segundo ela, sempre esteve presente no seu modo de pensar. “O homem é um animal político. E a política está na vida da gente, dentro de casa, com os amigos, no trabalho”, resume, sem diferenciar a postura cotidiana de uma suposta prática institucional.

Embora o cerne de seu trabalho seja contestador e discuta a sexualidade feminina, um tabu para a Igreja Católica, afirma que a religião é constituinte de sua visão de mundo. “A religião tem uma importância muito grande na minha formação. Fui educada por dominicanos e, depois, na Pontifícia Universidade Católica, onde estudei e me burilei dentro da religião católica.”

Pergunto sobre a irreverência em seu trabalho e ela, mais uma vez, retorna à infância. “A primeira experiência que eu tive com arte foi com o circo, quando eu morava em Araxá e era criança. E o circo me influenciou muito. Os palhaços, as dançarinas, os animais.” E o humor? , pergunto para esticar a resposta. “É próprio do circo, do palhaço. Eu sei rir de mim, das bobagens que eu faço também. Tem muita coisa que eu me lembro e morro de rir. Acho o humor muito importante. Através do humor, da brincadeira e do lúdico você fala coisas sérias.”

O percurso artístico de Teresinha é coerente com seu desejo de explorar temas fortes e questionar a sociedade oprimida pela moral e pela ditadura. Seu primeiro trabalho, Caixa de fazer amor (1967), causou espanto pela tridimensionalidade e irreverência. Nela já estava contida a essência de sua obra, que se desdobrou em gravuras, instalações e performances. Como se estivesse contando um caso ocorrido no mês passado, descreve a proposta da instalação Ela me deu bola (Camas), realizada em 1970: “O primeiro trabalho que tirei da parede foi Camas, pus no chão. Foi uma coisa inovadora no meu pensamento. A cama tem um valor muito importante na vida da gente. É onde você faz amor – tem outros lugares, mas, principalmente lá, é onde é mais gostoso. Tem o sexo, tem o nascimento do filho, tem a hora de descanso, tem os sonhos, tem o prazer. Tudo está associado à cama e é muito ligado à mulher, à nossa vida doméstica. Vamos dizer: faz cama, tira cama, coloca cama, deita na cama, menino faz xixi na cama. Não é a Kama Sutra ainda não, mas é a cama.” E solta uma sonora gargalhada.

No famoso texto de 1973, Henry Corrêa de Araújo sintetiza a principal preocupação da artista: “Fazer arte de vanguarda, a mais avançada possível”. E completa: “Expressar tudo o que sente pelo mundo através de suas criações, mostrar sua repulsa pela sociedade de consumo. Melhor: consumir antes que a consumam. Viver e ser, estar presente é a sua tônica, uma constante na arte de Teresinha Soares, que não faz concessões.”

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