Estudantes do Cefart fazem abaixo-assinado por melhorias nos cursos

Divulgado pelo movimento 'Menos palácio, mais arte', documento evidencia defasagem no quadro de professores dos cursos mantidos pela Fundação Clóvis Salgado, entre outros problemas

por Estado de Minas 30/03/2017 13:36
Matheus Soriedem/Divulgação
(foto: Matheus Soriedem/Divulgação)
Estudantes do Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (Cefart) estão em campanha por melhorias das condições de ensino e aprendizado das três escolas que compõem a instituição: a de dança, a de música e a de teatro. 

Para tanto, lançaram um abaixo-assinado que denuncia a precariedade em que os cursos funcionam, além de reivindicar providências para salvá-los. O documento é assinado pelo movimento Menos Palácio, mais arte, formado por pessoas ligadas à instituição, como alunos e professores. Cerca de 100 assinaturas já foram coletadas.

Segundo estudante do 2º ano de teatro Bremmer Guimarães - um dos integrantes do movimento - a ideia é protocolar as assinaturas, inicialmente, junto à Presidência da Fundação Clóvis Salgado. Posteriormente, em outras secretarias do Governo do Estado. 

S.O.S

O cenário de fragilidade denunciado pela carta aberta que acompanha o abaixo-assinado do Movimento Menos palácio mais arte é grave. A defasagem no quadro de docentes é um dos maiores problemas apontados.

De acordo com a declaração, o curso de teatro, por exemplo, que já contou com 23 professores, hoje reúne apenas seis. A escassez teria sido provocada sobretudo pela Lei 100, que ocasionou a exoneração de vários docentes da instituição, e agravada pelos pedidos de aposentadoria de outros formadores. Temendo a reforma da Previdência atualmente proposta pelo Governo Federal e consequente perda de direitos, eles decidiram encerrar suas atividades. O baixo salário pago aos educadores - segundo a carta, de R$15 por hora/aula - é outro motivo atribuído à dispersão.

A situação, que se estende aos cursos de dança e música, tem feito com que os alunos não cumpram a carga horária completa de seus programas. O início do ano letivo também teria sido adiado em um mês sem qualquer explicação. 
 
Procurada pela reportagem para comentar os aspectos contidos no texto do abaixo-assinado, a Fundação Clóvis Salgado disse que iria se manifestar por meio de nota (leia o texto divulgado pela FCS no final desta reportagem). 
 

Leia o documento do movimento Menos Palácio, mais arte na íntegra

"Somos artistas. Somos cidadãs e cidadãos. Somos estudantes do Cefar(t) - Centro de Formação Artística (e Tecnológica) da Fundação Clóvis Salgado, e vivemos uma situação de completa crise em nossa escola. Estamos abertas e abertos ao diálogo e reivindicamos, nesta carta aberta, melhorias em nossas condições de ensino e aprendizado.

Criado em 1986, o Cefar(t) surgiu em resposta à crescente demanda da sociedade pela formalização dos primeiros centros profissionalizantes de artes em Minas Gerais. À época, foram reconhecidas pelas secretarias estaduais de cultura e educação as três escolas de natureza pública que compõem nosso centro de formação: as escolas de dança, música e teatro. Em 30 anos de existência, já passaram pelo Cefar(t) mais de 12 mil estudantes, grande parte desses hoje são profissionais atuantes na cena cultural do Brasil e do mundo, com grande reconhecimento de público e crítica.

Atualmente, porém, o Cefar(t) é marcado pelo abandono. Se, no passado, o curso de teatro já contou com 23 professores em seu corpo docente, hoje são apenas 6 profissionais em situação regular de trabalho. Essa crise é consequência da negligência que o Cefar(t) vêm sofrendo ao longo de anos pela Fundação Clóvis Salgado e pelo governo de Minas. Crise que se agrava desde 2014, depois de declarada a inconstitucionalidade da Lei 100, o que provocou a exoneração de vários servidores públicos do estado, e que chega ao seu ápice em 2017, quando professores fundantes da escola viram seus direitos trabalhistas ameaçados e decidiram se aposentar de seus cargos, em virtude da possível reforma da previdência proposta pelo governo federal.

Denunciamos e tornamos pública a situação de precarização de uma das mais importantes escolas de artes do país. Evidenciamos os riscos para o fim de uma escola em que os profissionais hoje estão se afastando, seja por meio do pedido de aposentadoria, diante do medo da reforma da previdência, seja por pedido de exoneração diante dos baixíssimos salários. Hoje, um educador do Cefar(t) recebe R$15 por hora/aula.

Discentes do 1º e 2º ano do curso técnico de teatro estão com sua grade de horários incompleta, com dias inteiros sem aulas, e a turma do 3º ano, que está em processo de montagem de formatura, não conta com qualquer outro profissional na equipe de criação além de sua diretora. A turma de formandas e formandos segue ainda sem expectativa da reposição de disciplinas que não foram cursadas nos anos anteriores do curso, quando o quadro de professores já estava defasado.

Essa defasagem do corpo docente se repete nos cursos de dança e música. Na dança, existem atualmente somente 3 professores para o curso técnico, e as turmas do 1º, 2º e 3º anos, têm aulas conjuntas diariamente. Já na música, faltam professores de diversos instrumentos, impedindo o desenvolvimento de estudantes em suas habilidades específicas.

A situação é crítica e o diálogo com a instituição é restrito. O início do ano letivo foi adiado em um mês, sem nenhuma justificativa dada aos estudantes. O pensamento sobre o fazer artístico e sobre a educação apresentado pela direção e a supervisão pedagógica do Cefar(t) caminha de mãos dadas com a burocracia e o conservadorismo, na contramão de várias e vários artistas que resistem hoje na cena cultural de BH e do estado. O cargo de coordenação do curso de teatro encontra-se inativo, o que dificulta a comunicação da diretoria com seu corpo discente.

Não há divulgação da previsão de concurso, contratação ou designação de novos profissionais para as vagas ociosas na escola. Não existe publicação de posicionamento da Fundação Clóvis Salgado, tampouco das secretarias estaduais de cultura e educação, ou do Governo de Minas Gerais, sobre nossa atual situação. Além disso, outras reivindicações do Movimento Menos Palácio Mais Artes seguem ignoradas pela instituição. Salas de aula não suportam a quantidade de estudantes matriculados e seguem em estado precário, com linóleos rasgados, carteiras quebradas e estruturas de iluminação enferrujadas, em potencial risco de acidentes.

Como o Cefar(t) está localizado nos fundos do Grande Teatro do Palácio das Artes, em períodos de estreia de óperas nossos espaços de ensaio, corredores e áreas externas, são muitas vezes interditados, transformando-se em camarins. Isso ocorre, pois a presidência da fundação mantém sua postura elitista, priorizando grandes espetáculos e conservando sua fachada, enquanto fecha os olhos para seu centro de formação artística.
A Fundação Clóvis Salgado não representa a diversidade e a qualidade da cultura produzida em Minas. A Fundação Clóvis Salgado não representa os estudantes do Cefar(t). É por isso que fazemos um apelo às autoridades da cultura e da educação, e sobretudo ao governo de Minas Gerais, para que o Cefar(t), esse patrimônio que é público, que é de todas as cidadãs e cidadãos, seja salvo e cuidado.

Reforçamos a necessidade de contratação de novos professores para a escola, nossa maior urgência neste momento, para que mais um período letivo não seja perdido. Que esse espaço recupere sua excelência enquanto centro de formação artística e se torne um modelo de democracia, cultura e liberdade para todas as pessoas. Resistimos!

Atenciosamente,
Movimento Menos Palácio Mais Artes
Leia e assine: https://goo.gl/forms/cacH8koXjYxvViXk2

 

Leia a nota da Fundação Clóvis Salgado sobre o abaixo-assinado: 

 
A Fundação Clóvis Salgado informa que o Edital de Designação de Professores para o Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart será publicado nesta sexta-feira, 31 de março, no Minas Gerais. Esta medida propiciará a contratação de professores para a composição do quadro docente do Cefart. Ressalta-se que essa defasagem de professores é decorrente da Lei 100 e que as aposentadorias foram comunicadas depois do início do procedimento do Edital de Designação.

O Cefart está voltado para a educação profissional artística, de nível básico. É importante destacar que entre agosto de 2016 e março de 2017 foi disponibilizado tanto aos alunos do Cefart quanto à comunidade em geral um diversificado elenco de atividades didáticas e de formação: 23 Cursos Complementares, 8 Seminários, 4 Workshops, 44 Apresentações, 22 Recitais, 5 Produções de Cenários, 2 Produções Vinculadas, 114 Ações Formativas, atendendo a quase 9 mil pessoas, 8.924 para ser mais preciso.

Educação e formação são prioridades da FCS, sendo motivo de orgulho as implementações, em curso, com vistas a democratizar o acesso à cultura e à arte para um número cada vez maior de cidadãos. 
 
 
 
 
 

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