Em 'Cercanias', Yeda Prates Bernis aborda pequenos acontecimentos do cotidiano

Décimo quinto livro da poeta é 'tarde venturosa cercada de luz'

Jair Amaral/EM
(foto: Jair Amaral/EM)
Tarde venturosa de aconchego, circundada de sons e cores. Chegou ditoso o livro de Yeda Prates Bernis, Cercanias. Chamou-o assim porque o criou ao largo da poesia. Armou sebes e cercas para o resguardo de suas verdades. Poucos podem ultrapassá-las, apenas alguns.

A primeira palavra é de saudade. O espelho representa sua própria alma. Está ali dento dela a memória, trazida pelas lembranças espalhadas na sala, a partir do céu de estrelas, no espelho espatifado no chão.

Cercanias serve de oferenda ao tempo vivido pela autora. São nove décadas. De há muito sonhado, veio Entre o rosa e o azul (O Cruzeiro, 1967), equacionando sentimentos e emoções; sem ser primário, mas o primeiro a encetar travessia de buscas e achados, “naquelas tardes fagueiras...”

No prefácio de Cercanias, declara com firmeza Márcio Sampaio, em “Revelações da poesia de Yeda Prates Bernis”: “Com a consciência da impregnação do tempo em nossa vida, da corrosão das coisas, das perdas, das faltas e dos esquecimentos, vai alternando, ao longo dos anos, a construção do entendimento com que extrai e conforma sua poesia, que é testemunho e revelação”.

Esta nova Yeda se debruça na tarde azul e encarece, sem alarde, com antigos ais, o refrigério para o segredo de um peito ardente.

A poeta segue em frente em busca da saga pretendida, mas sempre contornando o alambrado verde que vivifica o caminho. Depois da Perda, com o Caos, Madrugada e Viagem, posta-se Ao acaso; Da varanda, o crepúsculo toma conta da palavra “que emudece a montanha, confundindo o dia”. Para Yeda é o bastante, como a gota d’água da ressurreição.

Em meio à neblina, a memória do passado se desmancha com a brisa fresca da noite que passeia pelas dobras dos sonhos perdidos. Aquele foi um dia sem sol, triste: Que é do sorriso da aurora que a buscava em sua janela aberta? Onde, onde as cores das flores se ocultaram sem nenhum aviso? Riscos luminosos agitavam-se e corriam a esconder-se entre sombras. Mas há luzeiro esplendoroso de ideias.

As palavras borbulhavam em versos magníficos, e saltaram às páginas de um novo livro. Não houve inspiração, mas prontidão lírica. Quando surge a metáfora, imprescindível à poesia, e labor artístico – terá que haver para ela muito trabalho de fé e suor – assim dizia Henriqueta, a poeta dos Quatro estágios.

Apregoam os estudiosos das artes poéticas que Yeda sucede em grau máximo a esta antecessora do verso mineiro. Concordamos, mas devemos acrescentar que Henriqueta elaborou toda a sua obra sustentando o peso da solidão; carregou sozinha a trava de um amor solteiro, enquanto Yeda cantou em dueto, às vezes mesmo em falsete, para se situar apenas nas cercanias de seus sentimentos. Yeda se cobre com lençol perfumado e bebe sem medo o azul de um tempo, vivendo a alegria de poder haurir a poesia daquela tarde de esperanças.

Os títulos dos livros de Yeda já são poemas. Sinto ganas de roubá-los, já o dissera alhures. Coisa mais especial do que Encostada na paisagem?, À beira do outono?, Pêndulo?, Palavra ferida?. São mesmo artes de poeta.

Quando a artista fala, emudece o leitor, arrepia-lhe a sensibilidade, e acelera-lhe o coração. Viandante não passa simplesmente. Veio para ficar. Ali, os óculos, cujas lentes captaram histórias, verdades e guardaram episódios belicosos; os sapatos, ficados agora no canto do armário, percorreram sendas, viajaram caminhos distantes, trilharam velhas rotas de aprendizagem. Não seguiram embora com ele, porque a distância considerável desta derradeira viagem não suportaria o seu peso e, na verdade, o viajor não careceria mais de seus serviços. A poeta volta a cantar o seu amor perpetuo: “Meus olhos te perderam/ e como te vejo!”.

Se um dia Deus deliberasse refazer o ato de criação, e repetisse a frase primeira; e para o que, em gesto largo, atirasse aos espaços a menor semente que guardara entre os dedos – o grão de arroz – nela estaria contido todo o fruto de Sua obra divina, a partir do verde das primeiras folhas, ao alimento para a humanidade que viria a ser criada, e por muito amor, a poesia.

A inspiração na alegoria poética, buscada no livro Grão de arroz, de Yeda Prates Bernis, junta-se à profundidade da palavra do apresentador Oswaldino Marques, quando diz no haycayedas: “O cultivo do haicai reclama a modulação do espírito com a natureza, com as estações, com a fugacidade da paisagem, com a abismalidade do firmamento, com o infinitésimo dos grãos de areia, a humildade dos caramujos...”.

Nada mais será necessário em acréscimo: “Imóvel,/ o barco. No entanto, viaja”.

 

CERCANIAS
De Yeda Prates Bernis
Edição da autora
76 páginas

 

* Escritora e integrante da Academia Mineira de Letras

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