Sérgio Rodrigues lança 'Viva a língua brasileira' no Sempre um papo

O pesquisador diz que o politicamente correto deu contribuições interessante no campo da linguagem, mas comenta os excessos

por Carlos Marcelo 14/03/2017 08:00
Bel Pedrosa/Divulgação
O jornalista e escritor Sérgio Rodrigues defende o equilíbrio entre o purismo da norma curta e a sociolinguística (foto: Bel Pedrosa/Divulgação)

Mineiro de Muriaé, Sérgio Rodrigues mora no Rio de Janeiro e tem ao menos um grande amor que ultrapassa divisas e fronteiras: a língua. Não necessariamente a língua portuguesa, mas a brasileira, como escancara no título do livro lançado em 2016. Viva a língua brasileira! (Companhia das Letras) é exatamente o que promete ser: “Uma viagem amorosa, sem caretice e sem vale-tudo, pelo sexto idioma mais falado do mundo”. A argúcia do autor, sempre acompanhada de bom humor, faz a diferença e nos leva a descobertas improváveis a respeito, por exemplo, “da origem mentirosa das palavras” – um dos capítulos mais reveladores. “Gringo não vem de ‘green, go home’”, destaca. Jornalista, crítico literário, escritor de contos e romances consagrados como o notável O drible (2013), Sérgio Rodrigues escreve com regularidade sobre o nosso idioma desde 2001. Esse é um dos temas do bate-papo de hoje em BH, no auditório da Cemig, pelo projeto Sempre um Papo. Mas a ficção também pode estar na ponta da língua – e dos dedos. Rodrigues revela que o sucessor de O drible está a caminho: “Estou escrevendo um novo romance, que espero concluir este ano, mas não há um mísero escanteio nele”.

Você nasceu em Muriaé, mas mora no Rio de Janeiro. O seu primeiro contato com a literatura veio por meio dos escritores mineiros ou dos cariocas?

Por meio de escritores de todo o país e também do exterior. Tive a sorte de nascer numa casa que tinha muitos livros na estante. Quando comecei a devorá-los, bem cedo, não fazia ideia de sua origem nem estava preocupado com isso. Mais tarde, a importância de Minas Gerais na literatura brasileira acabou funcionando, sim, como incentivo. Eu achava que, sendo mineiro, já tinha meio caminho andado.

Viva a língua brasileira!, além de uma declaração de amor à “língua portuguesa brasileira”, é também um brado aos puristas? Como surgiu o livro?
O livro é fruto do meu trabalho como colunista linguístico e consultor gramatical em diversos órgãos da imprensa, ao longo de 15 anos. Pode ser considerado um brado contra os puristas, sem dúvida, porque deixa claro que a língua imaculada defendida por eles é uma falácia, nunca existiu. Mas o livro também combate quem ouviu cantar ao longe o galo da sociolinguística e saiu dizendo que a norma culta é fascista, que trabalhar com a ideia de apuro estilístico é uma coisa retrógrada. Busco uma posição equilibrada entre esses extremos. Um pouco de conhecimento histórico sobre a língua costuma ser ótimo antídoto contra radicalismos.

Você cita no livro a “mania nacional de adotar termos estrangeiros para enfeitar a linguagem”. Quais exemplos mais recentes desta mania?
São muitos. O que mais tem me incomodado ultimamente – e isso é tão recente que nem deu tempo de incluir no livro – é um estrangeirismo de construção, o “ser sobre”. Está na moda dizer, por exemplo, que “democracia é sobre tolerância”. Isso é inglês mal traduzido: “Democracy is about tolerance”. Em bom português dizemos que a democracia tem a ver com tolerância, é baseada na tolerância, ou mesmo esta pérola de simplicidade: “Democracia é tolerância”.

Qual o maior drible que os brasileiros deram na língua portuguesa?
A descoberta das vogais. Os portugueses sempre esconderam as vogais no fundo da garganta. Nós as libertamos e vivemos um caso de amor quentíssimo com elas, uma coisa até meio escandalosa, cheia de ahs e ohs.

Quais escritores mineiros fizeram as viagens mais amorosas pela língua brasileira?
Minhas melhores viagens mineiras foram feitas na companhia de poetas como Drummond e Murilo Mendes, de contistas como Murilo Rubião e Luiz Vilela, de cronistas como Sabino e Paulo Mendes Campos. E tem Guimarães Rosa, claro, mas aquilo que ele inventou já nem pode ser chamado de língua brasileira. É um mundo à parte.

O brasileiro nunca escreveu tanto (ao menos no WhatsApp) e nunca leu tão pouco (ao menos literatura brasileira contemporânea). Estamos diante de uma geração de escritores que não leem?

O mundo digital trouxe uma revalorização da palavra escrita, de forma até surpreendente: na minha infância todo mundo via televisão e quase ninguém escrevia nem lista de compras. Ainda precisamos encontrar formas de traduzir esse novo interesse em leitura. O problema é que nossa educação é uma tristeza, uma calamidade.

O lusocentrismo ainda resiste? Poderia citar exemplos?
E como resiste. Os casos são inúmeros. Basta citar a preferência que a maior parte dos nossos dicionários ainda tem pela terminação em “a” para certas palavras de origem francesa, como “cabina” e “vitrina”. Ora, a imensa maioria dos brasileiros fala “cabine” e “vitrine”, o lusocentrismo é ululante. É até vergonhoso que os dicionários façam isso a esta altura do século 21.

É possível dar boas-vindas aos estrangeirismos sem perder o senso do ridículo? Poderia citar exemplos de apropriação bem-vinda e também de exageros?
Possível e necessário, porque estrangeirismos são uma realidade inevitável e até desejável, um fator de enriquecimento da língua. “Deletar” me parece um acréscimo bem-vindo: é um verbo mais preciso, significa não apenas “apagar”, mas “apagar no computador”. Já outros verbos informáticos, como “estartar”, “downloadar” e “frizar” são pura bobagem.

Quando a língua vira um campo de batalha?
O tempo todo. No uso que cada um faz da sua língua, nas suas escolhas conscientes ou não, há sempre uma dimensão política e uma dimensão ética, entre outras. Decidir entre “presidente” e “presidenta”, por exemplo, não é algo que se resolva só com argumentos técnicos, a menos que se fique num nível bem raso de análise. Aprofundando um pouco, descobrimos que as duas formas são defensáveis, e agora? Este talvez nem seja o exemplo ideal porque, nesse caso, a decisão acabou sendo quase sempre partidária mesmo. Em geral, não é tão simples. Mas políticas, num sentido mais amplo, nossas escolhas sempre acabam sendo.


Qual a sua opinião sobre “linguagem inclusiva”, citada no capítulo “A guerra dos sexos”?

O pensamento politicamente correto deu contribuições interessantes ao campo da linguagem, mas há claros excessos. Vejo a briga contra o gênero masculino neutro com reserva. Acho que a energia gasta nesse tipo de luta simbólica daria resultados incomparavelmente melhores se fosse empregada nas lutas reais das mulheres por igualdade de salários, de oportunidades, contra o estupro, contra a violência e assim por diante. Sim, tudo indica que há um machismo ancestral embutido na gramática, como há um machismo ancestral no gênero masculino de Deus. O problema é que interferir nesse tipo de coisa é tão difícil quanto apanhar vento em rede. A língua, que é um organismo vivo, imenso e complexo, pode ser considerada ingovernável, nos antecede em muitos séculos e vai sobreviver a nós. O “x” que algumas pessoas usam no lugar do “o” tem seu lugar como arma de luta, como forma de chamar a atenção para um problema, mas nunca vai ser gramaticalizado. Nem pronunciável ele é, e toda língua é oral antes de ser escrita.

Em recente entrevista à Folha de S.Paulo, a professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés criticou a tendência dos estudos culturais de “tratar a obra literária apenas como documento e, pior do que isso, como panfleto”. “Esses estudos podem ter algum valor, mas acho que não são estudos de literatura”, ela afirmou. Qual a sua opinião?

A professora Leyla está certíssima e prestou um grande serviço à cultura brasileira com essa entrevista. Literatura não é depoimento, não é tratado sociológico, não é intervenção política. Pode até ter essas leituras, mas de forma secundária. O seu valor está em outro lugar, está no que ela tem de irredutivelmente literário. Na minha opinião, é óbvio que um escritor negro pode escrever sobre um personagem branco, assim como uma escritora gay albina pode imaginar um personagem marciano hétero. Pode tudo. O texto, e só o texto, vai dizer se aquilo funciona ou não. Grande parte da crítica acadêmica perdeu isso de vista, o que, no limite, é uma forma de negação da arte. Filistinismo puro e simples.

O que o ficcionista Sérgio Rodrigues aprendeu com as pesquisas e análises do jornalista e crítico Sérgio Rodrigues sobre o nosso idioma?
Não sei. O ficcionista nasceu primeiro, já estava lá quando eu era adolescente e me trancava no quarto dias a fio para tentar pegar carona no chamado “boom” do conto mineiro, nos anos 1970. Como todo irmão mais velho, ele não vai querer admitir que aprendeu com o mais novo. Mas deve ter aprendido uma meia dúzia de palavras, sim.

O que o encanta e o intriga na prosódia mineira?
É a minha língua de berço, de infância, difícil ter distanciamento para falar disso. Mas, pensando agora, acho que o que mais me encanta no português mineiro é a possibilidade muito clara de que ele abre uma linha direta com o universal. O regionalismo propriamente dito nunca me entusiasmou muito. A língua elegante e estilizada do Fernando Sabino, sim. E no fim das contas somos todos – mineiros ou não – devedores de Carlos Drummond de Andrade, o escritor brasileiro mais universal do século 20.


VIVA A LÍNGUA BRASILEIRA!
• De Sérgio Rodrigues
• Companhia das Letras
• 384 páginas
• R$ 49,90 (livro) e R$ 34,90 (e-book)


SEMPRE UM PAPO
Lançamento do livro Viva a língua brasileira!, de Sérgio Rodrigues. Hoje, às 19h30, no auditório da Cemig. (Rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho.) Entrada franca.

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