Revista 'A estrela' publica trabalhos de presidiárias; confira

Internas da Associação de Proteção ao Condenado (Apac) de Rio Piracicaba, em Minas, produzem fotos e poemas sobre seu cotidiano

por Redação EM Cultura 10/03/2017 12:27

A estrela/Divulgação
(foto: A estrela/Divulgação)

A estrela/Divulgação
(foto: A estrela/Divulgação)

A estrela/Divulgação
(foto: A estrela/Divulgação)
 

As fotografias e o poema foram criados por 20 mulheres internas da Associação de Proteção ao Condenado (Apac) de Rio Piracicaba, em Minas Gerais. Nas palavras delas: “Diariamente, presídios, penitenciárias e delegacias são cenários de agressões físicas e psicológicas. Aqui, cenas vividas por algumas de nós”. As palavras e as imagens são um contundente testemunho sobre a realidade carcerária no país. No início do ano, a população, atônita, assistiu a rebeliões e chacinas. Superlotação e fugas expuseram a crise do sistema prisional brasileiro.


Além de ser comumente negligenciada e violentada, a população carcerária tem que lidar com seus próprios traumas pessoais. No momento em que essa ferida era exposta nos noticiários em horário nobre, esse grupo de 20 mulheres abraçava o projeto da revista A Estrela, criado pela Nitro Editorial e coordenado pela jornalista Natália Martino e o fotógrafo Leo Drumond.

 

A terceira edição da revista é a primeira totalmente elaborada por mulheres, que participaram de aulas e discussões para colocar em prática a publicação de 32 páginas. Nela, estão registradas as impressões das próprias detentas sobre a realidade prisional: histórias de abandono, agressões, torturas, coragem, resignação e, sobretudo, um testemunho da força dessas mulheres.

 

O novo número de A Estrela, que será lançada nesta sexta (10), na sede da Apac de Rio Piracicaba.Confira trechos:

 

A estrela/Divulgação
(foto: A estrela/Divulgação)
 

Sementes de ódio

Corredor de celas.
Revista, procedimento.
70 presas.
Agentes masculinos e femininos.
A ordem é tirar a roupa e agachar.
Não, não tiro.
Spray de pimenta. Cassetete.
Não tiro.
Algemas. Segue pro pátio.

Sol escaldante.
Comida? Não.
Água? Não.
Spray de pimenta? Sim.

Chega a noite, cela de castigo.
Roupas arrancadas.
Pés e mãos algemados para trás.
Colchão retirado.

Fome, sede, dores.
Ódio.

*
Interrogatório.
A delegada loira, bonita.
Saltos altíssimos.
“Onde eles estão?”
Sem resposta.

“Pendurem!”, ordena.
O corpo suspenso pelas algemas. Nu.
Na cabeça, uma sacola.
Os pés tentando tocar o chão.
Banho de água gelada. Choque.

Raiva, humilhação.
Ódio.

*
Socos nas costas.
Palavras de humilhação.
Empurrões, puxões nos cabelos.

Ódio.

Comida? Estragada.
Água? Suja.
Visita? Humilhada.
Nome? Virou número.
Espaço? Não tem.

Ódio.

Poema de Sarah Jordana Andrade com a colaboração de Amanda Gualberto e Jhenifer Graciele Silva. As imagens foram realizadas em conjunto por Angellys Carla Pavione, Débora Camila de Andrade, Franciele, Aparecida Moreira, Marileia Periera da Cruz, Sara Amorim, Sarah Jordana Andrade e Shirlene de Fátima Soares.



 

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