Recorte da Bienal de SP, em cartaz em BH, propõe reflexão sobre os impasses da sociedade contemporânea

Mostra fica em exposição até 23 de abril no Palácio das Artes

por 02/03/2017 20:03

A multiplicidade de vozes e linguagens é comum às grandes exposições e bienais. Afinal, são dezenas de artistas refletindo sobre suas culturas e inquietações em uma grande mostra.

Fundação Bienal de SP/Divulgação
O projeto Vídeo nas aldeias é um dos destaques (foto: Fundação Bienal de SP/Divulgação)

 

O que distingue a 32ª Bienal de Arte de São Paulo, que exibiu 340 obras de 81 artistas na capital paulista em 2016, foi a capacidade de diálogo e coexistência entre os trabalhos, por mais que eles utilizem elementos tão díspares quanto a argila ou uma complexa projeção audiovisual. O tema “Incerteza viva” é o elo que alinhava essas obras, sob a proposta de sugerir possíveis caminhos de investigação – políticos e estéticos – para a reflexão sobre o evidente mal-estar da civilização contemporânea.

 

A partir de hoje, as quatro galerias do Palácio das Artes expõem um recorte da Bienal, com trabalhos de 19 artistas – 12 estrangeiros e sete brasileiros; 12 mulheres. A proposta da equipe de curadores já deixa clara a ideia de colaboração e diversidade em sua própria representação. Formado por Jochen Volz (Alemanha), Gabi Ngcobo (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca) e Sofia Olascoaga (México), o grupo trabalhou em estreita colaboração com os autores, criando seminários que precederam e orientaram a criação de muitas das obras expostas. Agora, além das atividades educativas, a itinerância explicita a ideia de diálogo, expandindo-a para outras cidades, instituições e público.

BRASIL O curador Jochen Volz destaca que a exposição em BH é a maior do programa de circulação do evento. “É extremamente importante a ideia de descentralizar a Bienal e entender que a mostra não é apenas para São Paulo, mas para o Brasil”, defende. “Pensamos num recorte para dar foco a aspectos importantes para o projeto, não como uma versão reduzida”, afirma Volz. Ele explica que o evento mineiro se propõe a pensar “quais são os pontos urgentes a serem discutidos em Belo Horizonte, que tipo de discussão artística existe na cidade”.

Por isso, há trabalhos em vídeo, por exemplo, dialogando com a forte tradição da videoarte e do cinema locais. É o caso das criações da portuguesa de origem africana Grada Kilomba, questionando narrativas silenciadas sobre a colonização; da portuguesa Priscila Fernandes, mesclando objetos, fotografias e filme; e da americana Rachel Rose, cujos filmes questionam a relação mediada entre natureza, tecnologia e os sentidos.

Entre os brasileiros, além de fotos, Bárbara Wagner mostra um filme sobre jovens do universo do funk de São Paulo e do brega de Pernambuco, documentando o processo de construção de identidade desses movimentos. O alagoano Jonathas de Andrade exibe o belo vídeo em que pescadores do Nordeste abraçam os peixes no momento de sua morte. Há ainda uma grande mostra do projeto Vídeo nas Aldeias, com trabalhos de cineastas indígenas.

A curadoria também optou por não mostrar artistas mineiros, para possibilitar o contato com obras de acesso mais difícil ao público local. A única exceção é Wilma Martins, belo-horizontina radicada há muitos anos no Rio de Janeiro. A artista exibe uma grande série de desenhos em que animais e florestas se inserem em cenas bem cotidianas e caseiras. “Ficamos interessados na ideia de um minicosmos e na forma muito particular dela de ver o mundo. É extremamente bonito”, aponta o curador.

Volz conta que a opção de destacar a incerteza como tema da Bienal se deu por ser um conceito frequente na arte e, ao mesmo tempo, um sentimento comum entre as pessoas, embora pouco debatido e exposto. “A arte é um campo que se alimenta da incerteza, no qual o incerto e o desconhecido não estão ligados a algo que dá medo, mas que promove algo novo”, explica. A ideia foi sendo desdobrada com a equipe até chegar ao tema “Incerteza viva”, que traz a proposta de “abraçar a incerteza” como celebração.

EIXOS O curador relata que, ao longo do projeto, houve discussões com gente de diversas áreas: historiadores, professores, artistas, antropólogos e índios. Estabeleceram-se quatro pilares conceituais: conhecimento/educação, cosmovisões, ecologia e narrativas.

Desde a concepção inicial, no fim de 2014, até a abertura da Bienal, em 2016, o Brasil e o mundo presenciaram diversos fatos políticos – a crise em Brasília, a guerra na Síria, o Brexit na Europa e, agora, a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA – que aumentaram ainda mais o sentimento de incerteza. Jochen Volz afirma que tudo isso reforça os pontos de partida do projeto e os tornam ainda mais urgentes: o papel da educação, as questões ecológicas e indígenas, outras formas de conhecimento e a exaustão do capitalismo diante das diferenças sociais insustentavelmente crescentes. “Ficou mais claro que são essas as questões em jogo no Brasil e no mundo”, diz.

Volz argumenta que a arte pode contribuir para apontar direções e soluções para questões fundamentais da atualidade. “Os artistas estão pesquisando e procurando outras formas de conhecimento, outros saberes. Essa pesquisa transdisciplinar que eles fazem é bem pertinente frente aos problemas que enfrentamos, sejam políticos, ecológicos ou sociais. Uma forma de conhecimento não é suficiente, precisamos entender que as diversas formas do saber – esotéricos, indígenas, do corpo – podem ser entendidas como complementares. Na prática dos artistas, isso é bem evidente. E está presente na Bienal”, conclui.

32ª BIENAL DE ARTE DE SÃO PAULO: INCERTEZA VIVA
Várias linguagens. Galerias do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. De terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h; domingo, das 16h às 21h. Entrada franca. Até 23 de abril.

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