Chega ao Brasil O túmulo de Lênin, livro sobre a Revolução Russa e o fim da União Soviética

Stalin ainda é popular em seu país, revela o autor David Remnick

por Estado de Minas 28/02/2017 11:37

AFP / Natalia KOLESNIKOVA
Membros do Partido Comunista depositam flores no túmulo de Joseph Stalin, em Moscou (foto: AFP / Natalia KOLESNIKOVA)
David Remnick, diretor de redação da revista norte-americana New Yorker, era correspondente do jornal Washington Post na União Soviética quando aquele país se desintegrou espetacularmente, em 1991. Ciente de que testemunhava um momento histórico, “de um tipo colossal”, em suas palavras, Remnick tratou de fazer a crônica dos últimos dias do império soviético. O resultado, o livro O túmulo de Lênin, que ganhou o Prêmio Pulitzer em 1994 e que finalmente está sendo publicado no Brasil, merece figurar entre as obras clássicas do jornalismo.


Em perspectiva, O túmulo de Lênin é uma espécie de fecho para a história relatada pelo jornalista John Reed no livro Os dez dias que abalaram o mundo, tido como referência da tomada de poder pelos bolcheviques em outubro de 1917. Mas Reed era militante comunista, e seu livro foi prefaciado pelo próprio Lênin, o principal líder da revolução, que recomendou a obra escrita por alguém que, a despeito de não falar russo nem conhecer os hábitos e a cultura da Rússia, “compreendia o sentido dos acontecimentos, o sentido da luta”. Já Remnick – que fala russo e viveu na Rússia por alguns anos – não estava lá para militar em favor de uma causa, e sim para exercer seu ofício.


As mais de 700 páginas de O túmulo de Lênin conduzem o leitor ao emocionante processo de ruptura experimentado pelos soviéticos, comentado em sua maior parte pelos próprios personagens, tanto os famosos quanto os anônimos. O quadro que Remnick oferece em detalhes muitas vezes escabrosos dizima as ilusões sobre o regime comunista, “o mais duradouro e colossal equívoco do mundo”, segundo sua definição.

PARTO Mas o parto democrático iniciado pelo então secretário-geral do Partido Comunista da URSS Mikhail Gorbachev não se deu sem dores. Gorbachev fracassou na tentativa de controlar o processo e preservar o partido, gerando toda sorte de reações no antigo centro do poder e também entre os saudosos da ditadura de Josef Stalin, sucessor de Lênin. Como demonstra fartamente Remnick, nem todo o país almejava a democracia – uma parte substancial entendia que Stalin não podia ser difamado, porque, como lembrou um entrevistado no livro, ele “pegou a Rússia, que tinha nas mãos um arado de madeira, e a deixou com a bomba atômica”. Pouco importa se nessa trajetória milhões de pessoas tenham sido assassinadas, e a economia do país, destruída.


Ainda hoje, 100 anos depois da revolução, ainda há no país quem aceite Stalin como necessidade histórica. “A popularidade de Stalin segue em alta na Rússia”, explica Remnick. “Há duas razões para isso. A primeira é que ele ainda é visto como um grande herói daquilo que os russos chamam de ‘Grande Guerra Patriótica’, que é a Segunda Guerra Mundial. A outra razão é a propaganda. Quando estava escrevendo meu livro, a propaganda de inspiração soviética ainda existia. Começou a diminuir nos anos subsequentes, mas agora ela está de volta”, diz Remnick, em referência aos métodos autoritários do governo de Vladimir Putin. “Mais de 80% dos russos tomam conhecimento das notícias pela TV, e o noticiário de TV é completamente censurado. Portanto, de muitas maneiras, as coisas infelizmente voltaram ao que eram antes”, afirma o jornalista.

‘pureza’ Quando tentou promover a abertura política e econômica na União Soviética por meio de uma espécie de retorno à “pureza” leninista, Gorbachev denunciou Stalin como um equívoco. Mas Remnick deixa claro que Lênin, em essência, não difere de Stalin – talvez apenas “no modo como se pronunciam os nomes”, brinca ele. O erro de Gorbachev foi julgar que, uma vez convocadas a desfrutar da liberdade, as pessoas continuariam a se submeter à utopia que as havia condenado à desgraça. Entre os mais jovens, que não se sentiam conectados nem a Lênin nem a Stalin, o termo “soviético”, mostra Remnick no livro, tornou-se um insulto. Passou a designar quem é tacanho, preguiçoso, servil e hipócrita.


A revolta dos russos contra o Estado que nada mais era do que uma organização mafiosa tornou sem efeito o discurso sobre a “decadência do Ocidente”. Para quem vivia no suplício das filas e à mercê do mercado paralelo para conseguir comida, o Ocidente, mesmo “decadente”, era o paraíso. O socialismo havia se mostrado incapaz de entregar até mesmo uma barra de sabão para que os trabalhadores nas minas pudessem limpar o rosto – essa escassez deflagrou as greves que emparedaram o regime e empurraram Gorbachev para a perestroika e a glasnost, nomes pelos quais se consagraram, respectivamente, as reformas econômicas e a abertura política.

falência “O que precipitou o colapso do comunismo foi basicamente o fator econômico”, pondera Remnick. “Foi um grande sentimento, entre os líderes soviéticos, de que o país estava ficando muito para trás, em tudo. As pessoas começaram a discutir a União Soviética como um país falido.”

 

REVOLUÇÃO PELO ALTO David Remnick está convicto de que o fator central da revolução que extinguiu a União Soviética foi, simplesmente, Mikhail Gorbachev, de 85 anos. “Se ele não tivesse iniciado as reformas políticas, o sistema teria prosseguido por tempo indeterminado. Foi uma revolução pelo alto”, defende o jornalista. “Não sei o que teria ocorrido 10 anos depois, 20 anos depois, 50 anos depois. Mas se o Partido Comunista tivesse decidido continuar com o modelo de Leonid Brejnev, dirigente que defendia o stalinismo, tudo teria sido diferente.”


No livro, Remnick deixa claro que Gorbachev, embora fundamental, não conseguiu administrar os desdobramentos de seus atos. Pondera que não era possível esperar que Gorbachev tivesse poder efetivo sobre um processo tão dramático, mas o mérito dele foi aceitar deflagrar a revolução, abrindo o sistema a tal ponto “que todo o processo se transformou naquilo que nós chamamos de política”, algo que “não havia dentro da URSS”. Assim, “uma vez que ele começou tudo, uma vez que ele rompeu a represa, que ele abriu a porta, a política invadiu tudo, a história invadiu tudo, as ideias invadiram tudo, o nacionalismo que estava represado em várias partes do império soviético invadiu tudo”, explica Remnick. (Marcos Guterman/Estadão Conteúdo)

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