Pesquisadora investiga relatos bíblicos sobre o apóstolo Judas

Dissertação relaciona relatos da Bíblia a obras literárias e o próprio papel dos autores, que se apropriam de textos alheios

por Márcia Maria Cruz 25/02/2017 18:07
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(foto: AP)
Quem nunca traiu que atire a primeira pedra. Com o carnaval, muitos casais fazem, inclusive, acordos para curtirem a folia sem quebrar os pactos de fidelidade. O ato não tira o sono apenas dos casais, perpassa todas as relações humanas. Talvez por isso seja um dos temas mais recorrentes da literatura, teatro, artes plásticas e música. Das histórias bíblicas à literatura grega, passando pela história, são inúmeros os traidores.


O mais famoso deles, porém, é Judas, que traiu Jesus com um beijo. O apóstolo é tão controverso e inquietante que muitos artistas tentaram compreendê-lo por meio de suas obras. Sob esse universo se debruça a dissertação Sob o signo de Judas: reescritas literárias da traição, defendida por Késia Oliveira no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. “A traição envolve paixões, medos, encenações, por isso, desperta grande interesse. Talvez, por ser algo característico da condição humana, constituindo-se motivo recorrente na literatura, na música, no cinema.”

Késia destaca o potencial narrativo da traição. Ela exemplifica citando uma das obras mais consagradas da literatura brasileira, Dom Casmurro, de Machado de Assis, que foi estruturada sobre o signo da dúvida: Capitu traiu ou não Bentinho?

O foco da pesquisa é como a traição de Judas aparece nos textos bíblicos. Do episódio envolvendo Jesus e Judas derivam vários textos, que costumam seguir duas estratégias literárias: a paráfrase, na qual as narrativas tentam dar certa continuidade aos evangelhos; e a paródia, em que se nota um desvio com alteração de sentido do texto bíblico. Késia procura evidenciar que a traição aparece como signo duplo, como tema literário e procedimento narrativo.

A pesquisadora lembra que, ao reescrever a história, se desviando da mensagem bíblica, alguns escritores relativizam a condição de traidor do discípulo de Jesus, ora desmitificam o carácter maligno de Judas, atribuído em alguns relatos dos evangelistas ora apontam para alguma forma de redenção do personagem. Na literatura brasileira, a figura de Judas aparece na peça O Judas em sábado de aleluia (1846), de Martins Pena, as crônicas Judas (1921,) de Graciliano Ramos, e Malhação do Judas carioca (1975), de João Antonio.

Na Bíblia, existem várias diferenças na descrição de Judas pelos quatro evangelistas. “No que se refere à Bíblia, não há um relato unificado, mas versões”, pontua. São variações interessantes sobre o perfil e a morte do discípulo. No Evangelho segundo Marcos, ele aparece como um traidor. No Evangelho segundo João, é descrito como ladrão. No Evangelho segundo Mateus, por exemplo, o personagem sente remorsos e tenta devolver as 30 moedas de prata recebidas pela traição. Já em Atos dos apóstolos, relata-se que ele adquiriu um terreno, onde foi se enforcar. “A motivação da traição também apresenta algumas diferenças. Em alguns escritos, a cobiça aparece como motor dessa atitude; em outros, há referência explícita de uma influência ou força demoníaca.”

FICÇÃO

A traição de Judas é usada como metáfora para a escrita literária. Nesse sentido, a pesquisadora lembra que a escrita ficcional se configura como forma de traição à medida que se constitui também como uma colcha de retalhos, fios e reescritas de outros textos. “O escritor, nesse sentido, pode ser visto, assim como Judas, como um traidor, pois como lembra o autor e crítico argentino Ricardo Piglia, o escritor trai o que lê, desvia ao escrever uma nova história.” Para a pesquisadora, o tema desvela o ofício do escritor que pode, como Judas, ser visto como traidor de um ou vários textos dos quais se apropriou para construir o seu.

Késia lembra ainda que a apropriação literária é parte constitutiva do ofício do escritor, uma estratégia de construção textual que se configura a partir de reescritas. “A escrita literária é sempre um trabalho de citação, ou seja, um exercício de intertextualidade. A traição, nessa perspectiva, pode ser vista como um procedimento de escrita em que há vários intertextos e reescritas”, diz, em referência ao crítico francês Antoine Compagnon,

A pesquisadora constatou que toda estratégia intertextual é citação, mas também é uma forma de traição, uma vez que o novo texto se estabelece em relação ao texto precursor por semelhança ou diferença, ou por paráfrase e paródia. A pesquisadora decidiu aprofundar os estudos sobre Judas depois de ler o Evangelho de Judas, testamento considerado apócrifo. Antes de chegar à ficção, ela fez levantamento de obras de arte que retratavam Judas e o episódio da traição. “O tema da traição é universal e tem um considerável potencial narrativo. Na dissertação, houve um foco na reescrita como estratégia literária. Espero ampliar a pesquisa feita no doutorado.”

SIMBOLISMO RECORRENTE


A literatura encena traidores históricos, como Silvério dos Reis, acusado de entregar para a Coroa portuguesa Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e Calabar, português que cooperou com os holandeses no período colonial. Por isso, foi acusado de ser “o grande traidor”. A traição é tema também recorrente no teatro, nas artes plásticas e na música. Vale lembrar o nome Judas Priest, da banda britânica de heavy metal, formada no fim de 1969. Ainda sobre o tema, há o documentário sobre Judas realizado pela National Geographic Society, que publicou, em 2006, o Evangelho de Judas, manuscrito egípcio atribuído a autores gnósticos.

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