Livro 'Voo cego' se debruça sobre o acidente com o Boeing da Avianca em 1990

Obra elucida uma tragédia semelhante à da Chapecoense

por Ana Clara Brant 21/02/2017 07:00

Janey Costa
(foto: Janey Costa)
Um voo comercial parte da Colômbia para Nova York. Na chegada, enfrenta condições climáticas extremamente desfavoráveis. Os pilotos não avisam aos controladores sobre a situação de emergência. A pane seca (falta de combustível) foi uma das causas da queda do avião, com 73 vítimas fatais e 85 sobreviventes.


As semelhanças entre essa tragédia e a que atingiu o time da Chapecoense, em novembro do ano passado, matando 71 pessoas e deixando apenas seis sobreviventes, impressionam. O voo 52 da Avianca decolou do aeroporto El Dorado, em Bogotá, com destino a Nova York em 25 de janeiro de 1990. Na hora do pouso, havia chuva, nevoeiro e fortes ventos, o que tornava a aterrissagem uma manobra perigosa.

Junte-se a isso o intenso tráfego aéreo do aeroporto JFK e a dificuldade de comunicação dos pilotos colombianos – que não falavam bem o inglês – com os controladores de voo norte-americanos. O resultado é que, depois de uma tentativa frustrada de pouso, a aeronave caiu em Long Island.

Essa história é reconstituída em Voo cego (Editora Objetiva), de Ivan Sant’Anna, que já publicou três livros sobre aviação (Caixa-preta, Plano de ataque e Perda total). O piloto Luciano Mangoni é parceiro do escritor nesse novo trabalho. “O livro já estava pronto quando ocorreu o episódio da Chapecoense. Tanto que decidi dedicá-lo aos colombianos, não só pelo que fizeram com relação a essa tragédia, mas por tudo que passei lá durante minha pesquisa para Voo cego. É o povo de que mais gostei entre todos que conheci”, revela Ivan.

A tragédia da Avianca se tornou matéria obrigatória nas escolas de aviação e intriga especialistas até hoje. O livro recupera, a partir de gravações da caixa-preta, a movimentação na cabine de comando e o diálogo dos pilotos com os controladores. “É um acidente bem emblemático para os pilotos de todo o mundo. Foi tão absurdo que é difícil acreditar como aquilo ocorreu”, afirma Ivan.

Os autores conseguem dar ao leitor a sensação de estar dentro do Boeing. Com riqueza de detalhes, eles descrevem o que alguns passageiros fizeram antes e durante o embarque. Ivan se baseou em depoimentos de sobreviventes, reportagens e no livro escrito por um dos passageiros. “Com essa coisa da internet, as distâncias diminuíram e fica mais fácil colher depoimentos. Quando escrevi Caixa-preta (que reconstitui três desastres ocorridos no Brasil), cheguei a viajar muito para as minhas pesquisas. Deta vez, fui à Colômbia só uma vez e, mesmo assim, para entender como funcionavam os aeroportos de Bogotá e Medellín”, explica.

PARCERIA Comandante de Boeing 777 da Turkish Airlines, Luciano Mangoni ficou responsável pelos capítulos com detalhes técnicos e fatos relativos ao voo, explicando o ponto de vista de quem está no cockpit. Ivan se encarregou dos capítulos relativos a passageiros, tripulantes, sobreviventes e da atuação das equipes de salvamento.

Para o piloto, a interação do homem com a máquina e falhas geralmente intrínsecas quase sempre são determinantes para situações anormais ou perigosas. “O manejo de equipamentos supercomplexos como os modernos aviões, que cada vez mais incorporam inovações tecnológicas e dispositivos para evitar acidentes ocorridos no passado, não dá a garantia de termos operação imune às tragédias, em que pese as melhorias científicas, o progresso da automação, a elaboração de materiais mais resistentes e os melhores treinamentos das tripulações. O aviador, ou seja, o homem, nunca evolui na velocidade da tecnologia. Pode cometer aleatoriamente os mesmos erros e outros não previstos ou não estudados nos acidentes prévios”, analisa.

Formado em engenharia e direito, Mangoni explica que, no caso do acidente nos EUA, chamaram a atenção as graves falhas de comunicação entre a tripulação e os controladores de tráfego aéreo (leia entrevista nesta página). No epílogo, os autores traçam um breve paralelo entre as tragédias da Avianca e da Chapecoense e fazem pequena homenagem aos colombianos. “Foi um povo que se envolveu emotivamente nos dois casos. Por isso esse singelo tributo”, conclui Ivan Sant’Anna.


VOO CEGO
•  De Ivan Sant’Anna e Luciano Mangoni
•  Editora Objetiva
•  200 páginas
•  R$ 44,90
•  R$ 29,90 (e-book)


BATEAU MOUCHE

A tragédia do Bateau Mouche, que naufragou a caminho de Copacabana no réveillon de 1989, matando 55 pessoas, vai virar filme inspirado no livro Bateau mouche – Uma tragédia brasileira, de Ivan Sant’Anna. O longa, que começa a ser rodado este ano, deve ser lançado em 2018. A direção é de Afonso Poyart.


Três perguntas para...
Luciano Mangoni
Piloto e coautor de Voo cego

Por que os pilotos da Avianca titubearam para declarar emergência, já que o combustível estava acabando?
Nós, pilotos, sabemos que a filosofia e a regulamentação dos órgãos de investigação dos acidentes aéreos nos impedem de “achar” ou “apostar” em causas para os fatos que determinaram um acidente. Portanto, às vezes esperamos anos para poder acessar o relatório final emitido pelas autoridades competentes e transmitir uma opinião abalizada em dados técnicos. Sabemos que as causas de acidentes ou de ações que os determinaram ocorridas em um voo condenado nunca são singulares, nem poucas. Da análise minuciosa do relatório emitido pelo NTSB americano (Conselho Nacional de Segurança em Transportes) pode-se dizer que os motivos principais foram, por parte dos pilotos, as dificuldades de expressão na língua inglesa; a timidez e o receio de repreensão em solicitar que se repetissem mensagens não completamente entendidas; a falta de clareza; e não terem sido incisivos quando deveriam. E, principalmente, não terem simplesmente pedido ajuda ou protestado quando a situação ficou realmente crítica. Prova é que os três tripulantes, nos momentos finais que antecederam o acidente por falta de combustível, já realizavam a lista de check de emergência. Porém, nunca declararam estar em situação crítica ou pediram claramente a prioridade para pousar antes das outras aeronaves.

E os controladores de voo?
Faltou o cuidado de avaliar a real situação por que passava o avião de nacionalidade colombiana, negligenciando as potenciais falhas de comunicação que poderiam ocorrer em virtude da língua nativa dos tripulantes não ser o inglês.

Que lições o acidente da Avianca deixou?
A principal delas é que por mais segura que a aviação seja, e mesmo que se voe num avião supermoderno e de último padrão tecnológico, nunca se pode relaxar quanto à sua operação. Os pilotos devem seguir fielmente os manuais de voo e operacionais, o mesmo ocorrendo com o controle do fluxo dos voos ou com a manutenção das aeronaves e dos sistemas aeronáuticos. Aviação é, sem dúvida, o transporte mais seguro e em constante evolução. Todavia, acidentes sempre serão passíveis de acontecer.

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