Livro 'Preconceito social na internet' analisa disputa de classes entre usuários

O autor Ruleandson do Carmo Cruz, doutor em ciência da informação pela UFMG, iniciou o estudo das redes sociais em 2009, 'na época do Orkut'

por Cecília Emiliana 15/02/2017 08:00


Você sabe que dia é hoje no calendário das redes sociais? Vale “colar” para responder à pergunta. Quem, neste momento, acessar o Facebook e correr o olho na própria linha do tempo certamente vai gabaritar. É bem provável que, desde a noite de 23 janeiro, quando estreou a 17ª edição do Big brother Brasil – ela esteja recheada de memes, fofocas, mas, sobretudo, daquele que nunca tarda nem falha: o textão anti-BBB.

Hoje, portanto, é dia de #BBB17 na litúrgica folhinha da internet. Assim como serão os próximos dois meses, já que o assunto só vence com o término do programa, em abril.

Ao contrário da sala de TV, o cenário virtual soa libertário e sem fronteiras. Ali se acolhem, afinal, adeptos de tantos gostos e tribos, sem exigência de “autorização” ou “passaporte”.

Só que não.

Para o jornalista Ruleandson do Carmo Cruz, autor do livro Preconceito social na internet, as aparências enganam. Após cinco anos se debruçando sobre o tema, o doutor em ciência da informação pela UFMG constatou que as redes sociais são espaços cuja ocupação é permeada por disputas simbólicas de classe, assim como qualquer outro do mundo físico. Trocando em miúdos: das longas postagens contra o BBB que terminam com exortações à leitura, aos anúncios de #PartiuBBB17 no #Payperview, o que os usuários querem, no fundo, é estabelecer uma diferenciação que os separe de grupos que consideram socialmente inferiores e, assim, mandar um recado claro: “Não curtimos a presença de vocês aqui”.

“As tecnologias começam sempre utilizadas por classes privilegiadas. Iniciei esse estudo em 2009, quando o Orkut ainda era popular no Brasil. Quando essa rede surgiu, em 2004, o acesso era restrito. Para entrar, a pessoa tinha que ser convidada. Só que, pouco depois, o alcance à internet foi ampliado, muita gente ascendeu à classe média e o Orkut se abriu a quem quisesse fazer parte. Os novos usuários, naturalmente, entraram na rede com seu repertório. Além disso, essa classe média emergente passou a usar a web como vitrine de suas conquistas, possibilitadas graças à inclusão social que experimentaram. A partir daí, quem já navegava pelo Orkut antes começou a ridicularizar esse grupo, debochando dos seus costumes, gostos e comportamentos. E o que essa atitude denota? Na verdade, ela quer estabelecer uma barreira simbólica para demarcar: pobres e outros oprimidos não são dignos de frequentar esse lugar. Estava tudo ótimo até eles aparecerem por aqui”, afirma o pesquisador.

ORKUTIZAÇÃO Extensa análise documental sustenta as descobertas expostas pelo estudioso em sua obra. Entre o fim do mestrado, em 2009, e o término do doutorado, em 2014, ele investigou publicações hospedadas em 100 sites; 909 posts feitos no Facebook, Twitter e no finado Orkut; bem como 907 fotos exibidas no tumblr e Pobregram. Este último faz piadas sobre imagens publicadas no Instagram sem o filtro glamouroso que os colonizadores da rede – em seus primórdios exclusiva para usuários de iPhone – sabem empregar aos seus cliques.

O curioso é que as elites já não dominam as redes sociais há pelo menos sete anos. Um levantamento realizado pelo Data Popular no Brasil – citado no livro de Ruleandson – aponta que só até 2009 a classe AB ainda era franca maioria nas comunidades virtuais. Em 2015, o mesmo instituto, em parceria com o Google, detectou que 54% dos 48,3 milhões de usuários brasileiros pertencem à classe C. Entre estes, 47% declararam possuir smartphone. E quase todos os donos de aparelho (97%) o usam como seu principal meio de acesso às redes.

“Perdeu, playboy”, diz a nova classe média empoderada. “Recalcadas” – para usar um termo da moda –, as elites respondem dando à popularização das redes um apelido: “orkutização”. “Esse termo pejorativo é usado para definir um suposto esvaziamento intelectual ou empobrecimento cultural das informações que circulam nas comunidades virtuais. Começou a ser usado com muita força na época em que o Twitter foi traduzido para o português, em 2009. Os usuários então diziam que, agora que compreendiam a língua das conversas, os pobres entrariam em peso no site, baixando o nível das interações”, diz Ruleandson. “O mesmo ocorreu em 2012, quando o Instagram foi lançado para Android. Os usuários demonstravam pavor de ver a rede, antes povoada pelo seleto grupo de donos de iPhone, invadida por fotos de gente no transporte público ou se refrescando na piscina de plástico, por exemplo”, cita.

FACHADA
Mas, por que tanto desprezo por quem anda de ônibus, se este é justamente o meio de locomoção mais usado no país? Ou ainda por uma maneira tão frequentemente usada para enfrentar o calor? Em entrevistas realizadas para sua pesquisa, aliás, Ruleandson observou que os que zombam desses atos cotidianos não têm piscina no quintal nem circulam pela cidade em carrões do ano.

O pesquisador explica, contudo, que as disputas de classe que se dão na web são justamente no campo simbólico. “Cada ato do sujeito na rede carrega um sentido ou intenção. Isso é inerente à cultura informacional. Curtir a página de uma determinada grife importada, por exemplo, é uma ação que diz sobre o grupo ao qual o sujeito quer estar inserido, ainda que ele não tenha dinheiro para consumir aquilo. A ridicularização de determinadas práticas também se encaixa nisso. Ela diferencia o sujeito. Diz ‘quem ele é’ para um público selecionado”, analisa.

Todo o jogo é certamente velho conhecido da humanidade desde os tempos da manivela. O pesquisador pontua, contudo, que a internet – pela força do registro – torna preconceitos e a representação de papéis sociais mais evidentes, assim como as contradições entre prática e discurso. “No mais, ela é um ambiente como qualquer outro, por isso tão segregador como qualquer outro. O que existe não é uma oposição entre virtual e real, mas tão somente entre o virtual e o físico. Os dois mundos são reais, onde as pessoas habitam e interagem em toda a sua complexidade, desejo de ser amado e de pertencer a algum grupo”, conclui.

INTERNET PREMIUM Para a “high society” que deseja conviver apenas com seus pares bem-nascidos no espaço virtual, existe a rede ELQT. Financiada por grifes de luxo, como Prada, Ferrari e Diesel, a comunidade é direcionada exclusivamente a pessoas endinheiradas. Segundo o diretor do ELEQT no Brasil, Loy Wanderley, 64% dos usuários do seleto clube têm renda anual de US$ 250 mil. Criado em 2008, o site desembarcou no Brasil em março de 2012. Informações divulgadas em 2015 pela Efactor, empresa que mantém o projeto, dão conta de que o coletivo reúne cerca de 2 milhões de perfis, em 196 países. Apenas membros convidados podem acessar a rede. Cada usuário tem direito a três convites e é orientado a distribuí-los com prudência e rigor. Um convidado que apresente comportamento inadequado ou destoe do “perfil-padrão” é convidado a se retirar do site. Junto com ele, todo o grupo a que ele estiver associado.

 

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