Análise: ensaísta e professor Antônio Sérgio Bueno comenta o livro 'Sobre voo'

O ator e dramaturgo Léo Kildare Louback lança 26 narrativas curtas que evidenciam cuidadoso trabalho de linguagem

por Estado de Minas 10/02/2017 15:46
Facebook/Reprodução
O ator e escritor Leo Kildare Louback durante evento literário em BH (foto: Facebook/Reprodução)

Por Antônio Sérgio Bueno

 

Quando comecei a ler Sobre voo ou a literatura nasce com a morte de um pássaro, narrativas de espécie indefinida entre o conto e a crônica, não tinha nenhuma expectativa de encontrar textos que provocassem em mim qualquer adesão emocional. Por isso compartilho com meus eventuais leitores minha satisfação em experimentar um gostoso susto diante destas narrativas nada convencionais. Talvez porque esta escrita nasça de uma personalidade multifacetada do autor que é também ator, dramaturgo, tradutor e professor de alemão, entre outras atividades. Estes textos encenam, através de uma luta dramática com a palavra, um jeito muito pessoal de estar no mundo e que me atrevo a resumir numa palavra: intensidade. Quanto à aventura verbal desta coletânea, preciso de duas palavras para tentar caracterizá-la: necessidade e experimentação.


Procuro agora, sem pretensões de aprofundamento, dar uma notícia metonímica dessa obra, ou seja, curtos comentários sobre cinco narrativas, selecionadas por meu gosto pessoal, para, em seguida, tentar alguma síntese, à guisa de conclusão.

SOBRE ELA () O título deste primeiro conto intriga por causa dos parênteses tão próximos um do outro, que podem figurar um vazio, uma fenda e até uma genitália feminina (o texto autoriza esta interpretação). A voz do narrador não é unívoca: apresenta-se como feminina e na primeira pessoa: “Quando eu estiver velha...”, mas na página seguinte esta feminilidade é posta em questão: “Já me fantasiei de mulher...”. As frases são, quase todas, curtas ou curtíssimas.. Mas, às vezes, as vírgulas desaparecem e tudo se atropela numa longa sequência simultaneísta. Palavras como cena, gravando, filmar e plano apontam para o cinema como arte de referência.

SODA CÁUSTICA O narrador delimita um tempo – final de semana –, propício ao exercício da solidão: “Estou só.” Uma câmera outra vez parece passear pelo ambiente (uma cozinha). Algumas palavras de sentido escatológico, como cagar e bosta reverberam na frase “o papel higiênico foi inventado em Chicago” e na expressão “Grande Boston!”. Note-se ainda a ambiguidade em palito (ó), em que se pode ler palito e paletó, a bela sinestesia em “Pit Bull ...fica me olhando com esse tom de voz” e a assonância da vogal aberta “ó” na sequência “E gosto. E gozo”. E esta narrativa termina com uma forma verbal transitiva usada intransitivamente, tão solitária quanto o próprio narrador e que traduz seu sentimento de desforra: “Esmaguei”.

MARIA, O BOLO E EU Representação de um desejo espelhado, o desejo de um desejo do outro. O narrador deseja o desejo de Maria pelo bolo, como se vê nesta frase ambígua: “Passei a desejar o bolo muito mais que a própria Maria”. Ambiguidade que, para meu pesar, o narrador se apressa em desfazer: “Não que eu desejasse Maria”. Estamos diante de uma alegoria da paixão amorosa: “Minha paixão pelo bolo...”, “... quase um tremor de terra". Há uma reflexão metalinguística sobre as vozes ativa e passiva dos verbos: a frase de abertura do texto é “Maria comeu o bolo”, que evoca antigas cartilhas de alfabetização, com frases como “vovô viu a uva”. A frase “o bolo foi comido por Maria” aparece em destaque na página e, segundo o próprio narrador, essa passividade desperta suas fantasias (necessário dizer "sexuais"?). O bolo parece-me óbvia metáfora de um objeto de desejo. Daí o brilhante achado da ambígua frase final: “E como ele...”.

SOBRE VOO Conto que dá título à coletânea. Referindo-se a um pássaro morto, ficou ótima a ambiguidade da frase “tanta pena”. Bom também o neologismo “ofeguei-me” para traduzir o cansaço da narradora. O final é de notável delicadeza lírica: “...repousar, um dia sequer (devia ser 'pelo menos') naquela nuvem com formato de urso de pelúcia que ganhei da minha avó”. Por isso, acho que se aplica à narradora esta frase (creio que de Rimbaud), que cito de memória: “Par délicatesse, j'ai perdu ma vie”.

SOBRADINHO Apresenta pequenas e intensas experiências humanas (não importa se reais ou imaginárias) vividas pelo narrador, compondo a tragédia demasiadamente humana da cidade (que dá título a esta narrativa) no sertão da Bahia. Impõem-se algumas observações de ordem técnica: o belo ritmo desta frase, na qual reponta um pertinente neologismo: “Galhos e mais galhos nordestinam minha paisagem curiosa de turista desinformado”; como em outras narrativas, aqui também aparecem algumas indagações essenciais: “Onde fica minha casa? Aqui? No Peru? Em Düsseldorf? Ou em mim?”.
“Preciso escrever.” Essa frase que abre o conto Capítulo um é a grande chave de leitura deste livro. É como se dissesse: “Se você puder não escrever, então não escreva!”. A página branca tanto pode gritar pela palavra, quando ser sedução do silêncio. Outra frase que traz água para o mesmo moinho: “Precisava falar”. Léo Kildare Louback tem uma relação visceral com a palavra.
Eis algumas linhas de força na escrita deste autor:
- sintaxe inusitada: “matar aquela que me à vida trouxe”, “dez infinitos talvez mais minutos depois...”, “nada haver sozinho”. O que está sendo dito é contorcido também por esta sintaxe;
- exercício de outrar-se: basta lembrar a constante variação interna do narrador, uma desidentificação permanente, ou, para falar como Raul Seixas, uma metamorfose ambulante. Num mesmo parágrafo, um narrador em terceira pessoa convive com um narrador em primeira pessoa: "Ele foi para o quarto e se despiu (...) Pensando bem, eu tenho muito mais pelos...” O narrador pode ser até um animal: “Mas ele, de muito tentar e pouco entender, conseguiu cortar meu rabo...” Dessa tendência a nublar a identidade faz parte a mistura do discurso indireto livre no discurso direto: “Ela continuava com movimentos constantes das antenas o que sentem?” ou “ele se assustou e perguntou se eu está bem meu filho?” Essa paixão de ser o outro se mostra ainda na mistura de idiomas presente em várias narrativas: Em Jota Jota, os nomes dos pais do protagonista Ed são World e Welta (Mundo e Munda, já que Welt é “mundo”, em alemão);
- os paradoxos: o paradoxo é uma figura de pensamento acessada para traduzir o intraduzível, expressar o inexprimível: "Muito barulho ecoando nos corpos mudos e atônitos”, “tão pouco me conhece tanto”, ou “palpável ao extremo para inexistir”;
- alteração na grafia das palavras para sugerir sensações: “...sentir os espasmos da irmã quannnnndo ela os tinha”, as palavras oco e pedaço aparecem esgarçadas e as letras da frase “minha ilusão arco-íris” espalham-se por toda a página;
- neologismos funcionais: "Adeuse-se de mim para sempre”, “ele deve amargar o peso de deixar as coisas tomarem o desrumo que tomaram e “fazer essas pessoas falarem de si através dos próprios corpos...”;
- frases elípticas como signo de falta: “Ed adoraria a surpresa, pensou o zeloso”, no caso, o zeloso pai; “a gente morre por querer demais o que.”, ou “mas.”;
- linguagem poética: tal linguagem é, ao mesmo tempo, o único caminho e um obstáculo para revelar a substância do que urge ser dito: “...a vida não brisa”, “...aquele branco banco daquela praça”; ou “um amor recente e não obstante crescente. só quis mesmo tomar chuva.”.
O texto que encerra este livro enseja também o final destes comentários. O título é , Frustrante. (iniciado mesmo por uma vírgula e com ponto final) e dá conta da insatisfação do narrador por não ter conseguido contar “o que ainda não foi contado”. A meu ver, tal frustração não se justifica porque, do jeito que a vida foi contada aqui, ninguém jamais a contou. O conto e o livro se encerram com um poema concreto de um único verso abissalmente vertical, composto por estas palavras: “Estamos todos à beira da morte”. Esta verticalidade vertiginosa sintetiza, a meu ver, no espaço branco (quase vazio) de uma página, uma figuração da existência humana nestes tempos travestidos e performáticos que estamos vivendo.

 

  • Antônio Sérgio Bueno foi professor de literatura brasileira na UFMG por 30 anos. É mestre em literatura brasileira pela UFMG, doutor em literatura comparada pela UFMG e autor dos livros 'O modernismo em Belo Horizonte' (1982), 'Affonso Ávila' (1993) e 'Vísceras da memória: uma leitura da obra de Pedro Nava' (1997), todos pela Editora UFMG.


SOBRE VOO OU A LITERATURA NASCE COM A MORTE DE UM PÁSSARO
De Léo Kildare Louback
Scriptum
96 páginas
R$ 40

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS