Quelé, a voz da cor: uma biografia de Clementina de Jesus

Iniciada como trabalho de conclusão de curso, pesquisa de quatro universitários reúne informações inéditas sobre uma das cantoras mais poderosas do Brasil

por Ângela Faria 10/02/2017 11:51

Carlos Piccino/Arquivo o cruzeiro/Em -29/9/69
Clementina de Jesus frequentava as rodas da Portela e da Mangueira, mas só começou a carreira profissional com mais de 60 anos (foto: Carlos Piccino/Arquivo o cruzeiro/Em -29/9/69)
Foi ela quem despertou em João Bosco a africanidade, marca registrada da obra do cantor e compositor mineiro. Martinho da Vila é mestre do samba e do partido-alto graças a ela. Ao vê-la cantar no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, o jovem Milton Nascimento pirou: "Era a África na minha frente".

Neta de escravos, ex-empregada doméstica, mulher do povo, Clementina de Jesus não foi apenas o elo do Brasil do século 20 com a África ancestral. A cantora sempre será a voz dos milhões de negros “desfeitos no fazimento do Brasil”, como tão bem definiu o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro. Para ele, vinha daquela artista “a poderosa voz anunciadora do brasileiro que, amanhã, se assumirá como povo mulato, mais africano que lusitano”.

E não é que quatro jovens universitários ouviram o chamado da “voz anunciadora” profetizada pelo professor? Seria apenas um trabalho de conclusão do curso de comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, mas Clementina conquistou Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz. Foi assim que a monografia virou livro – dos bons – assinado pelo quarteto. Quelé, a voz da cor – Biografia de Clementina de Jesus é mais do que oportuno. Chega no momento em que o Brasil questiona o próprio preconceito, escamoteado pelo mito da democracia racial.

DIAMANTINA Nascida em 1901 – data cravada pelos jovens biógrafos, que contestam a oficialização de 1902 como o ano em que Clementina veio ao mundo –, a neta de escravos que viviam em Minas Gerais era uma banto legítima. Amélia Laura e Paulo Baptista, pais dela, escaparam da escravidão devido à Lei do Ventre Livre. O casal se mudou para Valença, polo cafeeiro fluminense. Ela cuidava da casa, ele era pedreiro e carpinteiro. Clementina nasceu ali e aprendeu cantos de família – tesouros africanos.

Órfã de pai ainda pequena, mudou-se com a mãe para o Rio de Janeiro, onde lhe deram o apelido de Quelé. Clementina de Jesus se tornou cantora já sexagenária, descoberta pelo produtor cultural e compositor Hermínio Bello de Carvalho, em 1964, no bar carioca Taberna da Glória. Fez sucesso no Festival de Cannes (ganhou até flores de Sophia Loren), apresentou-se na África, onde foi ovacionada num estádio de futebol ao entoar suas curimas. No Brasil, era a estrela do show Rosa de ouro, resgate pós-bossa nova das tradições do samba. Era acompanhada pelo grupo Cinco Crioulos – Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho e Nelson Sargento. César Faria, pai de Paulinho, também se apresentava com ela – sabia como poucos acompanhar os tons daquela cantora ímpar, desacostumada com instrumentos de corda.

A partir da década de 1970, gravou com Milton Nascimento (em faixa censurada do disco Milagre dos peixes e no álbum Gerais), ganhou de Caetano Veloso Marinheiro só, e deslumbrou o percussionista pernambucano Naná Vasconcelos. Como destacam os biógrafos, estava ali a muluduri, encarregada de transmitir e perpetuar cantos ancestrais de matriz africana. Mestra da oralidade e do improviso.

CORPO FECHADO Porém, elo com a mãe África é pouco para definir Clementina. Os biógrafos informam que ela participou de cortejos de pastorinhas, conviveu com os fundadores da Portela, frequentou jongos. Católica fervorosa, sabia cantos de candomblé. “Tem muita macumba bonita”, dizia a devota de Nossa Senhora da Conceição e de Nossa Senhora da Glória. Corpo fechado, trazia a cruz “cravada” na pele do peito. Quelé frequentou a lendária casa de Tia Ciata, berço do samba carioca, assim como a mítica Praça Onze. Era amiga de Heitor dos Prazeres e de Paulo da Portela.

Na Mangueira, conheceu o amor de sua vida: Albino Pé Grande, com quem dividiu o teto de 1940 a 1977. Ela e Clotilde, mulher de Carlos Cachaça, eram craques no partido-alto – na época, aquilo não era coisa de mulher.
Quando Hermínio Bello de Carvalho (uma espécie de “voz guia” desta biografia) a encontrou, tinha diante de si o que o maestro Francisco Mignone batizou de “fenômeno telúrico exclusivamente brasileiro”. E bota energia telúrica nisso. O compositor e pesquisador Elton Medeiros contou aos biógrafos que a poderosa reza de Quelé, com palavras estranhas, era capaz de curar suas fortes dores de cabeça. Paulinho da Viola revelou: ao ouvi-la cantar, pessoas entravam em transe durante os shows.

MÃE SOLTEIRA As jovens militantes negras empoderadas deste século 21 vão encontrar aqui uma guerreira. Mãe solteira aos 20 e poucos anos, a moradora de bairros pobres do subúrbio criou a primogênita Laís sem o pai. Deu duro como doméstica, teve outra filha, Olga, já casada com Albino. Quando ele ficou desempregado, segurou a barra. Aliás, sempre viveu com o dinheiro contadíssimo. Num dia, hospedada em hotel chique em Paris; no outro, dando duro para fechar as contas no Engenho Novo.

Quelé, a voz da cor... mostra que a grande artista não escapou da sina do brasileiro pobre: custou a ter telefone em casa, sustentou o marido doente por vários anos, bancou a filha Olga e os netos. A aposentadoria minguada se juntava a cachês cada vez mais raros no fim da vida. É triste acompanhar os últimos anos da Rainha Quelé. Octogenária, lutava para pôr feijão e remédio em casa em meio a sucessivos derrames e isquemias. Fazia shows, apesar de a cabeça falhar e de esquecer as letras.

Clementina recebeu muitos tributos. O jornalista Artur da Távola atacou a forma como oportunistas se apropriavam de sua imagem. “Clementina é importante por ser uma deusa do Brasil real. Para o Brasil oficial, ela é comemorada como raridade folclórica, espécie de mito que serve aos propósitos propagandísticos ou justificadores da aparente paz social. Mas, para o Brasil real, ela é a própria capacidade de sobreviver do povo”, escreveu ele em O Globo.

MUNICIPAL Em 1983, Darcy Ribeiro, secretário de Cultura do governo fluminense, comprou briga por causa de Quelé. Decidiu homenageá-la com um show no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, reunindo no palco Gilberto Gil, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, João Nogueira, Paulinho da Viola, a ala das baianas e a bateria da Estação Primeira da Mangueira. Foi atacado, acusado de pôr sob risco o templo da música erudita, cuja acústica seria mais apropriada para espetáculos de dança, ópera e concerto.

Mineiro obstinado, Darcy venceu a parada. E contou, em sua autobiografia: “Ela, do palco, vestida como uma rainha, beliscava os braços e gritava: ‘É verdade, professor! Não estou sonhando!’”. E completou: “Frequentadores habituais do teatro se danaram, apoiados pela imprensa, contra a ousadia de levar uma cantora negra, pobre e favelada para cantar no seu reduto elitista. Esses idiotas se esbaldavam quando o teatro se abria para qualquer cantorzinho francês. Alienados.”

Em 1987, Clementina morreu no Rio de Janeiro, depois de sofrer o quinto derrame. Apenas 200 pessoas assinaram o livro de presença no velório, realizado no Teatro João Caetano. Entre os poucos famosos estavam Paulinho da Viola, Elymar Santos e Xangô da Mangueira. Porém, gente simples – transeuntes, cobradores e motoristas de ônibus – foi até lá lhe dar adeus. O enterro, no Cemitério São João Batista, reuniu menos gente ainda: 50 cidadãos.

Xangô da Mangueira revelou aos biógrafos um episódio que mostra bem a raça de Quelé. Enquanto andava na zona meretrícia paulistana, onde se hospedara, a dupla foi abordada por um policial. Durante a batida, a velha senhora começou a dançar. E avisou ao moço: “Sou Clementina de Jesus, meu filho. Meu documento está no pé”.

 

Leia entrevista com a autora Janaína Marquesini

 
A pesquisa sobre a vida de Clementina durou seis anos. O que foi mais difícil nesse projeto?
A principal dificuldade foi o abismo que havia entre o nascimento de Clementina e a estreia dela como cantora profissional: mais de 60 anos, sem uma única menção em jornais e revistas, que são normalmente o ponto de partida de um trabalho biográfico como esse. O que nos deu mais trabalho foi resgatar sua infância e associar ao que ela dizia em entrevistas. Variamos muito nosso trabalho, fomos atrás de depoimentos gravados no Museu da Imagem e do Som (MIS) e na Funarte. Fizemos entrevistas com pessoas que conviveram com ela nesse período, gente do samba e vizinhos. Também usamos uma bibliografia enorme para poder preencher o vácuo. Acho que conseguimos fazer isso com sucesso. Uma descoberta legal é que Clementina entoa canções de seus próprios ancestrais em O canto dos escravos. Outra coisa: embora não fosse compositora, mas intérprete, Clementina, podemos dizer, era, sim, compositora popular – isso foi algo em que nos aprofundamos. Por exemplo: contamos que ela era ativa no mundo do carnaval nos anos 1920, 1930, 1940, ora como diretora da escola Unidos do Riachuelo, ora participando de alguns momentos nos primeiros anos da Portela, ora se transformando em figura assídua da Mangueira. Encontramos pelo menos dois casos de músicas há muito tempo esquecidas que ela gravou, fazendo releituras de forma intuitiva, espontânea. Pegou canções que ouvia “de orelhada”, muitas décadas antes, e gravava de um jeito diferente, com letras algumas vezes diferentes também. A riqueza de patrimônio imaterial dela é um dos aspectos mais intrigantes de sua carreira.

O que você aprendeu com ela?
A imagem de Clementina traz de imediato um impacto estonteante, é a essência do nosso povo. Isso ensina muito. É como se ela nos colocasse diante da formação do brasileiro. O que mais me marca pessoalmente é o poder da resistência dessa cultura, que, por meio da oralidade, chegou até os dias de hoje, apesar de toda a repressão e violência vividas pelos negros em séculos de história do Brasil. Clementina foi exemplo vivo disso, com sua memória prodigiosa e sensibilidade para captar os ritmos e as coisas mais belas do nosso povo. Aos 63 anos, como magnífica obra do destino, ela teve a oportunidade de transbordar essa riqueza com seu canto. Todo esse conhecimento nos serviu de prova de que a África é a espinha dorsal da nossa cultura, como disse Naná Vasconcelos certa vez. A existência de Quelé foi uma dádiva a todos nós, brasileiros.

Como Clementina dialoga com o Brasil de hoje?
Tenho a sensação de que Clementina veio ao mundo para mostrar a todos nós a grande importância de nossas raízes, de nossa identidade e da formação cultural do nosso país, construído por mãos negras. Nosso livro dialoga com o Brasil do século 21 por esses motivos e tenho certeza de que esse diálogo nunca terá fim. Nunca é tarde para que o brasileiro, enfim, reconheça e valorize nossa cultura popular tão rica e intrínseca à nossa identidade como povo. Entender o passado e a nossa história é fundamental para entender o presente e desvendar o futuro. Seria fantástico se a moçada de hoje ganhasse essa consciência. Negros, mestiços, brancos, não importa. Quem é branco, por exemplo, mesmo não tendo hoje nenhuma culpa do nosso terrível passado escravagista, deve assumir a consciência de que nos beneficiamos desse passado de escravidão até hoje. Nada que façamos poderá reverter essa crueldade histórica. O que resta a todos nós é, pelo menos, cuidar da cultura herdada pelo povo que construiu e fez o Brasil.

Clementina morreu pobre, trabalhou até quase os 90 anos, já esquecendo as letras. Apesar de tanto enaltecerem a Rainha Quelé, havia pouquíssimas pessoas no enterro dela. Clementina foi esquecida por seu povo?
Sim. Tanto é que ela terminou a carreira se apresentando em churrascarias. Foi posta no ostracismo pela indústria cultural nos últimos cinco anos de carreira, no mínimo. Esquecida pelo povo eu não digo, pois o povo lhe deu o valor que merecia, inclusive indo ao velório e ao enterro dela, em 1987. Hermínio Bello de Carvalho, seu descobridor, disse o seguinte quando ela morreu: “Clementina de Jesus é um exemplo dessa ótica vesga e preconceituosa, que a tratava apenas como a preta velha alforriada pelos brancos bondosos que a encarceraram numa senzala menos desconfortável. Ela foi humilhada até o fim da vida por não se submeter às conveniências mercadológicas das gravadoras”. É isso. Ela não se submeteu ao jogo vil das gravadoras e da indústria cultural. Morreu pobre, longe dos estúdios.

O livro conta que os avós dela eram escravos em Minas. O estado faz parte de Clementina, não é?
Essa história é uma das mais marcantes do livro e nos ensina muito sobre o passado escravagista brasileiro. Quando falamos de Clementina de Jesus no disco O canto dos escravos, levantamos a hipótese de que ela teria gravado as cantigas de seus próprios ancestrais diretos. Isso porque o livro de Aires da Mata Machado Filho fala de um notável senhor de escravos chamado Felipe Mina, dono de mão de obra negra na região de Diamantina. De acordo com Clementina, sua avó paterna veio exatamente dali e se chamava Tereza Mina. Como os sobrenomes eram transmitidos do senhor aos escravos, Tereza pode ter sido escravizada na propriedade de Felipe. Além disso, temos indícios de uma grande população que migrou ao fim da era do garimpo, deixando aquela região de Minas para buscar trabalho nas lavouras de café no Sul fluminense, onde fica Valença, onde Clementina acabou nascendo. As informações todas batem. Ou seja: o que já seria por si só muito simbólico – uma das maiores representantes da cultura afro-brasileira interpretando cantos de escravos em um álbum – ficou ainda mais interessante com o novo elemento genealógico que levantamos. Essa é a importância de Minas para Clementina: ancestral.

Para comprovar isso, ela era ligada a Milton Nascimento...
Contamos os detalhes de um festival de que ela participou a convite de Milton Nascimento, em Três Pontas, em 1977, conhecido como “Woodstock mineiro”. Estavam lá Fafá de Belém, Chico Buarque e outros artistas, mas ela foi considerada o grande destaque do evento. Sem contar a própria relação de Clementina com Milton Nascimento, esse grande músico mineiro de quem sou completamente fã. Os dois se gostavam muito, Bituca chegou até a escrever o texto de encarte de um dos discos de Quelé, o Clementina de Jesus – convidado especial: Carlos Cachaça, lançado em 1976.

 

QUELÉ – A VOZ DA COR: BIOGRAFIA DE CLEMENTINA DE JESUS
De Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz
Civilização Brasileira
384 páginas
R$ 49,90

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