Histórias do Brasil recontadas por Marcelo Rubens Paiva no Sempre um Papo

Livros do autor sobre a coragem dos punks e da mulher que enfrentou a ditadura militar ensinam sobre momentos cruciais da trajetória do povo brasileiro

por Ângela Faria 07/02/2017 08:00

Daniel Teixeira/AE
O músico Clemente e o escritor Marcelo Rubens Paiva mostram que punks fizeram política ao denunciar a exclusão social (foto: Daniel Teixeira/AE)

“Pátria amada, de quem você é afinal?/ É do povo nas ruas?/ Ou do Congresso Nacional?/ Pátria amada, idolatrada, salve!/ Salve-se quem puder.” Não poderia ser mais atual esse desabafo punk, faixa do disco Adeus carne, da banda Inocentes, que completa 30 anos em 2017. Em 2016, completaram-se 20 anos da entrega do atestado de óbito do deputado federal Rubens Paiva à família. Torturado e assassinado pela ditadura militar em 1971, seu corpo jamais foi encontrado.


A fúria dos punks oitentistas e a coragem dos Paiva têm muito a ensinar a este país mergulhado em crise, às voltas com tribunais da internet, escândalos de corrupção, instituições em frangalhos e gente nas ruas defendendo a volta do regime militar. Ainda estou aqui e Meninos em fúria: o som que mudou a música para sempre, livros de Marcelo Rubens Paiva, contam essas histórias do Brasil. O primeiro deveria até ser adotado nas escolas e lido por jovens internautas que não fazem a menor ideia do que é uma ditadura. Marcelo nos leva para dentro de sua casa: o desaparecimento do pai, Rubens Paiva, nos anos de chumbo, a luta da mãe, a saga de uma família que não se deixou destroçar pelo terrorismo de Estado.

O outro livro fala do Inocentes – grupo paulistano liderado pelo baixista e compositor Clemente Tadeu Nascimento – e da cena punk, formada por jovens pobres e negros da periferia, que, nos anos 1980, enfrentaram a exclusão social e o preconceito racial com poucos acordes de guitarra e muita atitude. A seu modo, aqueles meninos de cabelos espetados faziam política, desafiando a polícia e questionando um país cuja redemocratização lhes reservava “palavras vazias e promessas soltas no ar”, como diz o verso da canção Pátria amada. Em meio a violentas brigas de gangues e dezenas de prisões (não havia papai para tirar ninguém da cadeia), garotos que se diziam anarquistas denunciavam o sistema que os excluía.

“Nos anos 1960, a juventude combateu com pedras, coquetéis molotov, pichações, negou-se a se enquadrar no padrão do adulto-pai, anunciou que era proibido proibir. Parte dela pegou em armas. Nos anos 1980, outra juventude viu que a luta armada que acabou no terrorismo não dava em nada. O futuro não tinha solução. O desecanto virou cultura. O rock, uma arma”, escreveu Paiva.

BATE-PAPO Hoje, o escritor, dramaturgo e jornalista vem a BH participar do Projeto Sempre um Papo. Vai conversar com o público sobre Ainda estou aqui (2015) – romance premiado com o Jabuti na categoria escolha do leitor – e Meninos em fúria... (2016), que tem coautoria de Clemente, que atualmente se divide entre as bandas Inocentes e Plebe Rude.

Os dois livros dialogam entre si e, principalmente, com o Brasil pós-impeachment de Dilma Rousseff. Ambos surgiram depois dos protestos realizados em junho de 2013, diz Marcelo. “Percebi a desinformação das pessoas a respeito da ditadura militar, das descobertas da Comissão da Verdade, do golpe, da atuação dos DOI-Codis, da luta pela anistia e da Constituinte”, conta, lembrando que sua família viveu momentos emblemáticos da história brasileira, vítima das atrocidades cometidas por representantes do Estado. Por outro lado, os punks expuseram a violência, sobretudo policial, imposta – até hoje, a bem da verdade – à periferia sob a indiferença e até cumplicidade da sociedade.

“Vivemos hoje um retrocesso gigantesco”, constata o escritor. No setor cultural, ele chama de “lixo” as canções mais tocadas atualmente no Brasil. O rock, tão aguerrido e politizado outrora, “acabou”, lamenta. Na política, a instabilidade se agrava diante dos desdobramentos de sucessivas operações envolvendo falcatruas de autoridades.

“O Brasil está bastante confuso, houve uma interferência abrupta, um gesto antidemocrático (a deposição de Dilma Rousseff) em meio a muita corrupção, com partidos envolvidos em tramoias. A população questiona o papel da própria política, voltando-se apenas para uma única figura, o Judiciário, pois não confia no Executivo e no Legislativo”, analisa Paiva.

DEMOCRACIA
Para ele, o momento é de repensar a democracia brasileira. Desafio e tanto no contexto marcado pela baixa escolaridade da população, desinteresse pelo estudo da história, a confusão a respeito de esquerda e direita disseminada no chamado tribunal da internet.

“Direitos humanos estão em segundo plano, prefeitos se recusam a dialogar com o povo, homossexuais são perseguidos e a população rejeita os movimentos sociais. O retrocesso está aí”, resume Marcelo, destacando o avanço de correntes da direita nos Estados Unidos e na Europa.

Diante do colapso do diálogo e da política, o que fazer? “Não tenho a menor ideia”, responde o escritor, de 57 anos, pai de duas crianças. “Meu papel é escrever”, afirma o autor de 15 livros. A estreia se deu com Feliz ano velho (1982), em que ele narra como reagiu ao acidente que o deixou paraplégico aos 20 anos. “Devorado” pela moçada na década de 1980, esse romance biográfico ficou quatro anos na lista de best-sellers, virou filme e bateu a marca dos 700 mil exemplares vendidos.

Mãe coragem


Eunice Paiva não aparece na letra de O bêbado e a equilibrista, canção de João Bosco e Aldir Blanc lançada em 1979. Mas merecia estar no “Hino da Anistia” junto de Marias e Clarices. Ainda estou aqui é um tributo ao empoderamento feminino, praticado muito antes de essa palavra virar moda.

O deputado Rubens Paiva (PTB) foi assassinado em 1971, depois de ser levado para o DOI-Codi da Tijuca, no Rio de Janeiro. Eunice e a primogênita, a adolescente Eliana, ficaram presas lá. Aos 41 anos e mãe de cinco filhos, a paulista de classe média alta teve de se reinventar para dar conta de criá-los. Não havia atestado de óbito, os bens de Paiva não podiam ser vendidos.

Viúva de marido “nem morto nem vivo”, ela só chorou uma vez diante dos filhos: em 1996, quando finalmente conseguiu a certidão de óbito de Rubens. Havia voltado a estudar, formou-se advogada e se tornou respeitada especialista em direitos indígenas. Tocou a vida adiante. Quando preparava para se aposentar, veio o diagnóstico: Alzheimer.

O título do livro, frase de Eunice, refere-se a um momento de lucidez em meio aos lapsos de memória. Sensível, aborda uma doença que ainda é alvo de preconceito. “Não tem por que ser tabu, esconder, ter vergonha. O número de pessoas com esse tipo de demência vem aumentando”, diz Marcelo Rubens Paiva, citando parentes, vizinhos e amigos de sua família que também receberam o diagnóstico. É preciso trocar experiências, esclarecer famílias e os próprios pacientes, defende ele.


SEMPRE UM PAPO
Com Marcelo Rubens Paiva. Hoje, às 19h30. Auditório da Cemig, Avenida Barbacena 1.200, Santo Agostinho. Informações: (31) 3261-1501 e www.sempreumpapo.com.br

DOIS MOMENTOS

ANOS 1960
O deputado Rubens Paiva (C), com Eunice (E) e o filho Marcelo a seus pés, posa com a família



ANOS 1980
Clemente (D) e a banda Inocentes no lançamento do disco Adeus carne, clássico do punk nacional

AINDA ESTOU AQUI

De Marcelo Rubens Paiva
Alfaguara    
295 páginas

MENINOS EM FÚRIA

De Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento
Alfaguara
248 páginas

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