Coletivo cubano Los Carpinteros ganha mostra no CCBB

Exposição, que será aberta quarta-feira (1), faz retrospectiva de 25 anos de trabalho do grupo. Obras propõe a subversão de objetos cotidianos e a ressignificação do espaço arquitetônico

por Pablo Pires Fernandes 30/01/2017 08:25
CCBB/divulgação
(foto: CCBB/divulgação)
A carpintaria não está presente apenas no nome. O ofício reflete as origens, as circunstâncias e ainda hoje é determinante nos trabalhos produzidos pelos artistas cubanos. Marco Castillo e Dagoberto Rodríguez formam o coletivo Los Carpinteros, que apresenta uma grande mostra dos 25 anos de sua obra a partir de quarta-feira (1), no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Belo Horizonte. O curador Rodolfo de Athayde reuniu um conjunto representativo da trajetória do grupo, representado em acervos das maiores instituições de arte do Ocidente. São mais de 70 peças, com trabalhos do início da carreira, na década de 1990, até obras inéditas realizadas para a exposição que circula pelo Brasil.


Apesar da inevitável associação à manufatura e ao artesanal, Los Carpinteros define seu trabalho como arte conceitual. “A formação do coletivo é, em si mesmo, um puro gesto conceitual”, afirma Marco Castillo, referindo-se à união de três estudantes do Instituto Superior de Artes (ISA) de Havana, no início da década de 1990. O grupo incluía ainda Alexandre Arrechea, em carreira individual desde 2003. “Nosso trabalho sempre foi conceitual de alguma maneira, embora os recursos para realizá-lo sempre foram os mais artesanais possíveis”, aponta.


No início da década de 1990, Cuba vivia o chamado “período especial”. Sem ajuda econômica da União Soviética, recém-extinta, a escassez era a regra. Na universidade, os jovens alunos tinham lições de alto nível sobre história da arte e filosofia, mas quase nenhum material para produzir trabalhos.


A falta de recursos foi decisiva para constituir o olhar artístico do grupo. “O modelo de produzir artesanalmente, em princípio, se devia ao fato de que não havia outra maneira de fazer algo em Cuba naquele momento que não passasse pelo artesanal. Nós abraçamos essa circunstância como uma decisão existencial e conceitual”, completa Dagoberto Rodríguez, ressaltando que, ainda hoje, o trabalho manual continua importante no processo de criação.

RECICLAGEM O gesto de criação de Los Carpinteros está impregnado pelo ato de subverter o pouco que eles têm a seu dispor. Daí vem o fato de a obra utilizar objetos cotidianos para ressignificá-los e boa parte das ideias ser materializada, primeiramente, a partir de desenhos, projetos ou aquarelas. “Nosso país foi um dos lugares onde mais se reciclaram e onde há mais fascínio por objetos industriais. Sempre fomos fascinados pelos objetos industriais, porque nunca os tivemos, sempre era algo novo para nós”, relata Dagoberto. “Nossa obra é uma espécie de realidade paralela de objetos fabricados por nós mesmos, mas que têm um sentido bem mais narrativo e simbólico.”


Outro notável elemento de linguagem é a arquitetura, por meio de proposições imaginárias e provocativas que dialogam com o espaço. Marco ressalva, porém, que a aparência das peças, cuidadosamente desenhadas e funcionais, carrega uma função simbólica maior. “Aparentemente, há uma fascinação pelo desenho no nosso trabalho que não corresponde à realidade. O desenho é um instrumento de linguagem que nos permite fazer comentários e transmitir uma mensagem. Não somos desenhistas nem arquitetos. E nem queremos ser. Apenas manejamos essas ferramentas”, defende Marco.
O diálogo com a arquitetura está impregnado do contexto histórico cubano. Dagoberto destaca que no último meio século, praticamente nada foi construído em Cuba. “A funcionalidade das construções foi redesenhada, mas o espaço ainda é o mesmo”, relata. Vem daí a fascinação pelo espaço, seus desenhos e pela ocupação que dá vida e redefine a funcionalidade das construções.


“Renomear os espaços e atribuir a eles novas utilidades se tornou um vício e uma curiosidade para nós”, diz Marco. “Nosso ponto de partida são objetos ou formas reais que manipulamos e levamos a outra dimensão, são produtos da nossa imaginação.”


POLÍTICA A subversão de sentido expressa formalmente nos objetos escultóricos e no deslocamento espacial feita pelo coletivo reflete, naturalmente, uma condição social e, sobretudo, política. Eles contam que, nos tempos de faculdade, eram claros os temas que se podiam ou não abordar. O viés político dos trabalhos, para Dagoberto, “não tem a ver com uma opinião política, está mais concentrado em uma sensação política”. Para ele, a vida dos integrantes do coletivo foi tão politizada que a presença desse elemento é natural. “Nesse sentido, não consideramos que estamos fazendo alguma transgressão”, observa.


Entretanto, a censura do governo socialista de Fidel Castro, inevitavelmente, influenciou a abordagem artística do Carpinteros. Como reação, o coletivo adotou uma “contraproposta” para não ser censurado. “Na nossa obra, o mais importante não é o que aparentemente se diz, mas o que se esconde”, conta Dagoberto, explicando que essa maneira de criar soluções para as obras se tornou uma forma de ver e fazer arte. “Há uma parte que tem a ver com nossa personalidade, mas há outra muito vinculada com nossa formação e nosso contexto.”


Marco aponta o diálogo inerente ao processo coletivo como determinante para a linguagem dos trabalhos. “As obras partem de uma série de ideias que manejamos, de conversações e pontos de vista que compartilhamos para encontrar soluções. Nessa troca há um ponto que não controlamos e tem a ver com o jogo e com o humor. A capacidade de rir dos próprios problemas é uma maneira de viver e transcender esses mesmos problemas”, relata Marco.

EMPATIA O caráter lúdico e muitas vezes humorístico das obras é apontado por muitos como responsável pela empatia que os cubanos despertam no público. Embora reconheça o toque de humor, a dupla afirma que isso não implica leveza. “Para falar de problemas complexos, políticos e sociais não é obrigatório nem mais efetivo fazer um discurso triste ou queixoso, isso são só clichês que a arte construiu”, argumenta Marco, defendendo que cada artista encontre seu caminho expressivo.
Os trabalhos criados por Los Carpinteros costumam provocar empatia devido ao aspecto formal intrigante e familiar. Isso torna esculturas e aquarelas obras de arte, porém, o que se destaca é a capacidade de criar deslocamentos a partir de questões formais com personalidade própria e múltiplas possibilidades de sentido.

 

 

EM SÃO PAULO

Um dos três fundadores do coletivo Los Carpinteros, Alexandre Arrechea partiu para a carreira individual em 2003. Realizou importante trabalho de intervenção urbana em Nova York em 2013 e, em 18 de fevereiro, abre exposição em São Paulo, na Galeria Nara Roesler. A mostra Refazer reúne cerca de 30 obras do artista, que discute a fragmentação a partir de mapas e da relação de ocupação do solo. “Meu objetivo é desenvolver os processos análogos com a pintura, a escultura e a instalação, mantendo as superfícies das obras abertas à possibilidade de serem transformadas outra vez, assim como ocorre com os terrenos arados”, diz.

 

 

LOS CARPINTEROS: OBJETO VITAL

Abertura na quarta-feira (1), das 9h às 21h. Centro Cultural Banco do Brasil. Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. O espaço funciona de terça-feira a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca. Até 3 de abril.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS