'Literatura brasileira ainda não está no digital', diz vencedora do Prêmio Kindle

Premiado em concurso da Amazon, livro da mineira Gisele Mirabai faz ponte entre o passado e o presente, o tradicional e o contemporâneo e o digital e o impresso

por Pedro Galvão 29/01/2017 07:00
Júlio Vilela/Divulgação
Júlio Vilela/Divulgação (foto: Júlio Vilela/Divulgação)

O tradicional e o moderno podem ser antagônicos em vários contextos, mas, através da criatividade da mineira Gisele Mirabai, os dois se misturaram e deram origem a uma obra premiada. Gisele venceu o Prêmio Kindle de Literatura, organizado pela Amazon em parceria com a editora Nova Fronteira. O título premiado no formato digital foi Machamba, uma história sobre memórias e lugares.

O termo estranho tem origem africana. “Na linguagem banto, machamba significa fazenda, sítio ou chácara”, explica a autora, radicada em São Paulo há três anos. Embora o significado designe lugar, Machamba é, na verdade, a personagem principal, que recebe o apelido de um amigo ainda na infância, na fazenda onde cresceu.

Reflexões
A narrativa se passa anos depois do fato, quando a garota, já adulta, vive em Londres e, durante viagens por lugares históricos do continente europeu, acaba se reconectando com seu passado no interior de Minas e construindo reflexões sobre o sentido da própria vida. “Ela passa pela Grécia, Turquia, Israel e Egito e, ao ver as ruínas nesses locais, vai vendo seu passado e descobre o que aconteceu na sua vida para dividi-la em dois, como se fosse um elo perdido”, define Gisele.

As regressões proporcionadas pelo passeio levam a personagem de volta à infância na Fazenda Enfiandeiras, próxima a Itabirito, na Região Central de Minas. Por lá, a menina alternava os momentos de lazer entre as leituras sobre civilizações antigas ao lado do pai e as brincadeiras fantasiosas com o filho do caseiro, o menino que lhe dera o apelido.

Apesar de tudo soar como uma história real e quase biográfica, Gisele garante que ela e a protagonista não são a mesma pessoa, mesmo havendo fortes relações entre as duas. “Eu já morei em Londres, os lugares que descrevo são lugares por onde passei, a viagem que ela faz eu também fiz e a fazenda de sua infância existe e pertence a uma tia minha, é um lugar onde passei minha infância, mas a personagem, sua personalidade e os acontecimentos são totalmente fictícios”, garante.

“O livro trabalha muito no simbólico, não é uma narrativa clássica, a história pega um momento e o abre ao máximo possível, não segue uma ordem cronológica. O passado vai pra frente o presente vai indo ao encontro dele.” A descrição da escritora sobre seu próprio texto ilustra também o processo pelo qual a obra passou ao vencer o concurso.

Plataforma
Machamba foi escolhido como o melhor entre 2 mil livros postados na plataforma digital Kindle Direct Publishing (KDP) da Amazon. Graças à parceria com a Nova Fronteira, ele deve ser publicado em versão impressa em breve. O caminho inverso ao que normalmente é praticado, com os títulos originalmente lançados em papel e indo para o digital em seguida.

Gisele, que começou a escrever Machamba em 2009, se sente feliz com o reconhecimento. “Ainda está caindo a ficha, queria muito que ele se tornasse uma leitura de qualidade e uma boa publicação, me dediquei muito à linguagem, tentei fazer algo bem original. É uma sensação muito boa de reconhecimento do trabalho”, declara.

Além da premiação da Amazon, acompanhada da publicação impressa e de uma quantia em dinheiro, a autora pode acompanhar de perto o reconhecimento dos leitores, graças ao formato digital em que o livro foi lançado. ”Tem sido uma ótima surpresa, é muito bom ter o contato com as avaliações de quem lê e já posta o que achou, além de ser possível ver quantas páginas as pessoas estão lendo do seu livro e em quais dias. No impresso, não temos ideia disso”, argumenta Gisele.

O formato moderno de publicação e leitura, além de ter sido o caminho para esse reconhecimento na carreira como escritora, também despertou na belo-horizontina o interesse por ampliar o acervo da literatura nacional no formato: “Estudando a plataforma da Amazon, vi que a literatura brasileira ainda não está lá em formato digital. Essa união da Amazon com a Nova Fronteira, que é especialista em publicar clássicos, pode ser ótimo para a nossa leitura”.

Premiada no digital e com a proposta de lançar seu livro no papel, ela não faz escolha por um deles e engrossa o coro de quem entende que os dois formatos são totalmente possíveis juntos e que quem ganha é o leitor. “Um não exclui o outro, é uma soma, o livro digital é para você levar para a viagem, ler no metrô, no ônibus, ou para fazer uma consulta rápida a um tema, enquanto o físico é para estar lá, usufruir dos outros sentidos, o papel sempre vai continuar”, defende a escritora e roteirista de 36 anos, que já havia publicado outros três livros antes de Machamba: os infantojuvenis Guerreira de Gaia e Nasci pra ser Madonna, além de Homem livre: ao redor do mundo sobre uma bicicleta, em que descreve a jornada ciclística do marido por 59 países.

MACHAMBA
. De Gisele Mirabai
. Amazon/Nova Fronteira
. 153 páginas
. R$ 8,90 (e-book)

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