Literatura brasileira abre pouco espaço para trabalhadores suburbanos, diz o escritor Luiz Ruffato

Em entrevista o escritor mineiro, radicado em São Paulo, comenta a adaptação de uma de suas histórias e fala do lançamento do livro 'Inferno provisório'

por Carlos Marcelo 27/01/2017 09:37

Companhia das Letras/Divulgação
Mineiro de Cataguases, o escritor Luiz Ruffato conta a história de dois amigos de infância no livro Inferno Provisório (foto: Companhia das Letras/Divulgação)

Mineiro de Cataguases, radicado em São Paulo, o escritor comenta a adaptação de uma das histórias de sua obra para o cinema, o lançamento da antologia Inferno provisório e afirma que a literatura brasileira abre pouco espaço para trabalhadores suburbanos de classe média baixa: "Personagens assim são raríssimos."

 A história Amigos, incluída no volume Inferno provisório, foi utilizada como um dos pontos de partida para o roteiro de Redemoinho. Como surgiu a inspiração para a história? Como reagiu à proposta de adaptação?
Na verdade, o Inferno provisório pode ser resumido nessa história, a de dois amigos de infância que, quando se reencontram, tentam compreender como teria sido suas vidas se tivessem trocados os papéis: o que foi ganhar o mundo inveja o que ficou, enquanto o que ficou se arrepende de não ter ido embora. Essa é a questão que perpassa todas as histórias não só do Inferno provisório, mas de todos os meus livros. O desenraizamento provocado pela imigração. A sensação de não pertencer ao lugar para onde mudamos e ao mesmo tempo não pertencer mais ao lugar de onde partimos. A proposta de adaptação é quase uma história à parte, afinal, entre o primeiro contato e a estreia do filme contamos para mais de uma década. E, desde o começo, eu sabia que ia ser um casamento feliz, porque percebia o carinho pelo projeto de José Luiz Villamarim (diretor) e da Vania Cattani (produtora) e também o respeito de George Moura, o roteirista.

Como você vê a transposição da sua literatura para o cinema?
 
Redemoinho é a segunda adaptação de texto meu para longa-metragem (em curta-metragem, o Aleques Eiterer já fez dois, e está trabalhando para fazer um terceiro). No ano passado, Estive em Lisboa e lembrei de você chegou às telas pelas mãos do diretor português José Barahona, protagonizado pelo ator mineiro Paulo Azevedo. Não tenho qualquer apego aos meus livros quando eles vão ser adaptados. Adaptação é uma leitura – assim como são leituras as teses de doutoramento. Portanto, quando o Redemoinho estava sendo criado, a base da história e os personagens eram meus, mas o rosto deles, a forma de eles agirem e reagirem, a relação que eles têm entre eles e com o mundo são fruto da visão e dos sentimentos do Villamarim, do George Moura, e, por que não?, do Walter Carvalho, que fez a direção de fotografia, dos próprios atores, que levaram para o set suas memórias e lembranças. Literatura é literatura e cinema é cinema. São linguagens diferentes. Portanto, a rigor, assim como na tradução para outros idiomas, há apropriação do texto...

 Cataguases das suas palavras é a Cataguases que está nas imagens?
De certa forma sim, mas é também e principalmente a Cataguases do Villamarim. A realidade não existe objetivamente, ela não está lá fora, nós é que a criamos, nós recortamos o que nos interessa, tornando o todo o que é apenas parte. Quais as principais alterações na edição “revista, reescrita e reestruturada” de Inferno provisório? Houve várias alterações, de todos os níveis, mas as principais foram a reorganização cronológica das histórias (elas estão mais sucessivas, de alguma maneira), a limpeza das páginas (elas estavam muito poluídas com mudanças tipológicas excessivas, e muitas vezes desnecessárias) e uma maior clareza na relação parental das personagens. Todas as histórias que constam dos cinco volumes originais estão neste volume único, mas a sequência não é a mesma nem a divisão: agora há um prólogo, quatro partes e um epílogo. Penso que esta é a forma definitiva com que havia sonhado quando idealizei esse livro, que se arrasta comigo há bem uns 30 anos...

"Catálogo de histórias" é a definição que você escolheu para Inferno provisório. Quase duas décadas e cinco volumes depois, o projeto saiu como o planejado?
  
Pretende realizar outro “catálogo de histórias” nas próximas décadas ou lançar livros avulsos? Eu nunca me dou totalmente por satisfeito com meus trabalhos. Sempre penso que poderia ter dado um passo além. Por isso, todos eles, sem exceção, quando ganham novas edições são revisitados. Mas, claro, não posso ficar a vida inteira reescrevendo meus livros, porque senão não escreveria outros. Estou aproveitando o reposicionamento de todos os meus livros na Companhia das Letras para tentar dar uma forma definitiva a eles. Creio que fiz isso com Eles eram muitos cavalos, De mim já nem se lembra e agora com Inferno provisório. Flores artificiais é um livro que considero "definitivo", mas não Estive em Lisboa e lembrei de você, que ainda quero, em um momento propício, fazer algumas pequenas cirurgias reparadoras. Não sei como será o futuro, mas para mim cada livro é um livro – ele exige uma dedicação específica formal para um resultado singular.

Mesmo não morando mais no estado, como Minas Gerais está presente na sua vida e na sua obra?
O poeta mineiro Antonio Carlos de Brito, o Cacaso, escreveu, em um poema intitulado Lar, doce lar: "Minha pátria é minha infância / Por isso vivo no exílio". A vida, a vida que interessa, é aquela que vivemos na infância. E minha infância é o paraíso vivido entre um bairro operário em Cataguases e as férias passadas em uma colônia italiana, Rodeiro. Eu transitava entre um universo de classe média baixa que prosperava em uma cidade de forte tradição industrial (indústria têxtil) e um universo de pequenos agricultores praticando uma economia de subsistência, em plena decadência. Tive a sorte de experienciar esses dois polos, que, sem eu saber, eram microcosmos do Brasil sob a ditadura militar. Quando deixei Minas Gerais em definitivo, Minas Gerais já ocupava quase todo o meu corpo. E, só para citar mais alguém em meu auxílio, é a pura verdade o verso do poeta inglês William Wordsworth, que Machado de Assis usaria em Memórias póstumas de Brás Cubas, "o menino é o pai do homem".

 

A história Zezé & Dinim é dividida pelos títulos, traduzidos para o português, dos discos do Pink Floyd. A música é uma grande influência para a sua literatura?
A música sim, mas não prioritariamente. A minha maior influência, sem dúvida, é a literatura (tanto a ficção como a poesia, mas também a não ficção: sou um leitor inveterado de história e de crítica literária, por exemplo). Mas a música é importante sim, como também as artes plásticas (em março será inaugurada uma grande exposição no Sesc Ipiranga, em São Paulo, que tem como ponto de partida o diálogo do Eles eram muitos cavalos com uma instalação do amazonense Roberto Evangelista). Toda a arte de qualidade me interessa. E Pink Floyd está entre as maiores experiências estéticas da minha vida.

 

Quem são os brasileiros que aparecem em Inferno provisório? Por que a decisão de dar voz a eles?
Quando acabei de assistir o Redemoinho pela primeira vez, eu disse ao Villamarim: "Este é um filme necessário". Por quê? Por vários motivos. Por uma questão formal (o Villamarim filma de uma maneira muito particular), mas também por uma questão de conteúdo. Raras vezes o espectador vai ver nas telas o universo presente em Redemoinho: gente de classe média baixa, trabalhadores suburbanos. Esses personagens que estão presente em todos os meus livros, e não só no Inferno provisório, se são poucos no cinema, são raríssimos na literatura. Costumo brincar que, assim como a classe média brasileira tem desprezo pelo trabalho, assim também os escritores (que são oriundos em sua quase totalidade) também têm desprezo pelo trabalho. Por isso, a ausência do trabalho nas páginas dos livros. Como venho de família de classe média baixa, de trabalhadores urbanos, eu mesmo operário têxtil e torneiro-mecânico, achei que poderia dar uma contribuição, modesta, mas sincera, para retratar essa gente que representa a maioria da população brasileira.

Em um país que registra a queda do número de leitores e o fechamento de livrarias, por que você escreve?
Eu não penso nisso quando estou escrevendo. Só penso nisso quando não estou escrevendo... Como se dá o processo de transportar as lembranças para a literatura? Eu penso que meu corpo é um receptáculo de histórias. As coisas que vejo, ouço, cheiro, apalpo e provo provocam em mim associações com coisas que vi, ouvi, cheirei, apalpei e provei no passado, o que, de certa maneira, presentifica essa sensações. Quando escrevo, não me transporto para o passado, mas transporto o passado para o presente.

INFERNO PROVISÓRIO
• De Luiz Ruffato.
• Companhia das Letras 
• 408 páginas
• R$ 54,90

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