Livro reúne seleção de charges da revista New Yorker sobre economia

Publicadas entre 1925 e 2009, caricaturas criam um painel bem-humorado da relação dos americanos com o dinheiro

por Nahima Maciel 23/01/2017 20:03
Um senhor muito bem vestido, provavelmente com casaco de pele, vende maçãs em uma rua de Nova York e acena para um amigo de passagem, igualmente bem vestido, enquanto se despede: “Bem, até logo. Vejo você no almoço do Clube dos Banqueiros”.

Fotos: Zahar/Reprodução
Trabalho de Dana Fradon da década de 1970 mantém a atualidade e poderia ser publicada hoje (foto: Fotos: Zahar/Reprodução)

A charge foi publicada na revista The New Yorker nos anos 1920, quando a depressão atingiu os Estados Unidos com uma crise econômica de proporções catastróficas. Em outra charge, já dos anos 1950, um homem se joga da janela enquanto dois conhecidos o observam e se perguntam se ele sabe de algo que os outros não sabem. Sim, um suicídio foi parar nas páginas de humor da mais prestigiada revista norte-americana em um momento em que não havia outro assunto possível. Mais recentemente, em um desenho da década de 2000, outro assunto urgente: um sujeito confessa para um garçom que se sente “um homem preso num salário de mulher”.

Não há tabus para os cartuns da New Yorker e é com esse pensamento em mente, mas também com a certeza de que o humor é uma “escolha” e uma “recompensa por ver o mundo de um jeito peculiar”, que Malcolm Gladwell, escritor que publica na revista, e Robert Mankoff, seu editor de charges, organizaram A graça do dinheiro. O livro reúne o que a dupla considera as melhores ilustrações da revista sobre dinheiro e economia publicadas entre 1925 e 2009.

A história da New Yorker com os cartuns é uma tradição que dura mais de sete décadas. Desde a primeira edição, publicada em 1925, o projeto gráfico confere tanta importância aos desenhos quanto aos textos. Assim como as páginas da revista foram responsáveis por revelar nomes fundamentais da literatura norte-americana, como Gay Talese, Norman Mailer, Truman Capote, Phillip Roth, J. D. Salinger e Vladimir Nabokov, também foi o palco de grandes ilustradores. Art Spiegelman, Saul Steinberg e Jean-Jacques Sempé passaram por lá em algum momento de suas carreiras.

DINHEIRO A relação da revista com o humor é tão séria quanto a seriedade do jornalismo que pratica. Já a intimidade com o mercado de ações e os engravatados de Wall Street é mínima. Como lembra Gladwell no prefácio do livro, enquanto os especuladores se gabavam de ter resgatado suas ações às vésperas da crise de 2008, o staff da New Yorker provavelmente relia Middlemarch (um clássico da literatura britânica) em casa. Por isso, a reunião de charges sobre economia pode parecer estranha ao perfil da revista. “Somos uma revista para quem o dinheiro é uma preocupação secundária”, escreve.

Claro que é difícil de acreditar, sobretudo diante do fato de a New Yorker pertencer ao conglomerado Condé Nast, um dos maiores no ramo da edição de revistas no mundo. Mas talvez seja uma maneira de dizer que os cartunistas são tão distantes das tramas do mercado financeiro quanto o leitor comum. Mesmo assim, fazer charges sobre dinheiro, Robert Mankoff garante, não tem tantos mistérios. “Não é tão difícil quanto fazer dinheiro em uma economia difícil”, avisa.
O chargista sabe que a Era Trump vai ser um tempo de boas charges. O presidente eleito tropeça em tantas falhas que não vai ser difícil encontrar material semanal para as piadas da revista. Será uma era promissora para os chargistas. “Mas só para isso e para mais nada”, lamenta o editor. Obama, ele garante, não rendia boas charges porque era bonzinho demais. Ao lado, Mankoff fala sobre os desafios da charge e sua atemporalidade.

A GRAÇA DO DINHEIRO  
AS MELHORES CHARGES DA NEW YORKER SOBRE ECONOMIA (1925-2009)
Organização: Robert Mankoff
Tradução: Rodrigo Lacerda
Zahar, 254 páginas. R$ 69,90


Entrevista

Robert Mankoff


EDITOR DE CHARGES DA NEW YORKER
‘‘O humor é sobre erros’’


O tema do dinheiro é um desafio? Em que aspectos?
O desafio é sempre ser engraçado e evitar ser didático e pedante. Em geral, você tem apenas um conhecimento geral sobre um certo tópico sobre o qual tem que ser engraçado. Você só precisa saber um pouquinho mais que sua audiência, assim eles podem se identificar com a piada e se sentir espertos por terem compreendido.

O que, na sua opinião, mais mudou nos cartuns da New Yorker desde os anos 1920?
Eles são hoje 1.60743... por cento mais divertidos, de acordo com nossos últimos modelos de computadores que pegamos emprestado de todos os economistas que não conseguiram prever o crash de 2008.

Alguns dos cartuns mais antigos compilados no livro são muito atuais. Às vezes, podemos imaginar que falam do presente. Os cartuns têm a capacidade superar o tempo e a história?
Isso não surpreende. Como dizemos na América, “você colhe o que você planta”. Isso certamente é verdade para os ciclos econômicos. Acho que foi o filósofo George Santayana quem disse: “Os que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”. E agora, com a memória de longo prazo de todo mundo comprometida pela nossa época de atenção de curto prazo, isso é mais verdade do que nunca. Logo, os erros do passado são apenas prólogos para os erros do futuro. E o humor é sobre erros. Não existem cartuns sobre bons casamentos, bom sexo ou boas decisões econômicas.

Qual é, na sua opinião, o futuro dos cartuns em um tempo em que a tecnologia está mudando a maneira como as pessoas leem as notícias?
Na minha opinião, os cartuns vão, eventualmente, curar todos os males do mundo, mas isso pode ser uma opinião enviesada.

A Era Trump é promissora para os cartuns? Como será diferente em relação a Obama?

Obama era ruim para os cartunistas porque ele era bom e Trump será bom, basicamente, porque é muito ruim.

Trump é um personagem mais fácil de desenhar?

Sim. Você poderia colocar o cabelo em uma bola de boliche e saberia que é Trump.

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