Conheça os espaços de encontro e exposição dos trabalhos coletivos de Belo Horizonte

A cada dia, artistas, designers, músicos e cozinheiros se unem em torno de projetos e locais híbridos para produzir coletivamente, rompendo fronteiras profissionais

por Márcia Maria Cruz 15/01/2017 10:00
Fotos: Beto Novaes/EM/D.A Press
Bárbara Andrade, Luciana Gallo e Mariza Machado, proprietárias da Amadoria: exposições, cursos e apresentações de jazz no quintal (foto: Fotos: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Belo Horizonte não é mais a mesma que abrigou Guimarães Rosa na década de 1930, que acolheu o Clube da Esquina na década de 1970, viu o surgimento do Grupo Corpo em 1975, o Galpão em 1982, e o Skank nos anos 1990. Nos anos 2000, aos poucos, sem alarde, a cidade ganha o jeitão das novas gerações. Por trás dessa revolução silenciosa, mas potente, estão algumas palavras-chave, como economia criativa, compartilhamento e colaboração.

Fora dos ateliês, cada vez mais, eles entendem as artes como campos híbridos sem fronteiras e têm visão própria de fazer e consumir arte. No século 21, eles se organizam em rede, querem, como nunca, colocar o bloco na rua e ocupar os espaços da cidade, têm preocupação com o patrimônio histórico, são adeptos do financiamento coletivo, organizam feiras, consomem apenas o que sabem de onde vem, quem fez e como.

Os realizadores – músicos, atores, designers e cozinheiros, entre outros artistas – fazem por si, buscam se fortalecer por meio da organização e criam jeitos criativos de produzir e mostrar sua produção. Para acompanhar esse movimento, a cidade ganhou espaços de encontro e exposição dos trabalhos: Casa Leopoldina, no Bairro Santo Antônio e Casa Guaja e Perestroika, no Funcionários, as três na Região Centro-Sul; e Amadoria, no Bairro Santa Tereza, na Região Leste.

Os artistas apontam que a pioneira foi a Benfeitoria, no Floresta, na Região Leste. Na Rua Sapucaí, que se desponta como corredor cultural com ascensão da Região do Baixo Centro, a Benfeitoria é um espaço para projetos culturais que questiona a ideia de curadoria. Como a Benfeitoria, os espaços são híbridos, funcionam em alguns casos como coworking, escolas de cursos livres e também lugares onde se pode tomar café ou chá da tarde. Outros são pontos de encontro para a cerveja do happy hour e até abrem para festas mais ousadas. Em meio a tudo isso, sempre é possível ver exposições, fotografias, produtos de moda, apresentação de bandas independentes.



Conexão Quem vai até a Amadoria pode ver os trabalhos do fotógrafo Lucas Halel ou as ilustrações de Lucas Álves. “Quando a gente fala de movimento artístico, só faz sentido se a gente fizer junto. O fazer artístico, além de criativo, é um processo colaborativo”, afirma Luciana Gallo, uma das fundadoras da Amadoria. Empresa de economia criativa, a Amadoria cria, planeja e realiza experiências de arte e conexão com foco em três pilares: arte, autoconhecimento e bem-estar. “O espaço tanto abriga o coworking como abre o quintal para apresentações culturais. Toda última quinta-feira do mês realizam o Quintal do Jazz. Um dos convidados é o músico Gil Costa. “Como experiências de arte e conexão, temos nossos happy hours, intervenções artísticas, oficinas de pintura, exposições de arte e fotografia, apresentações de filmes e documentários no nosso cine quintal”, afirma Luciana.

Beto Novaes/EM/D.A PRESS
Renata Andrade e Paola Carvalho são sócias da Casa Leopoldina, espaço multiuso no Bairro Santo Antonio (foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS)

Caçula dos espaços, aberto em dezembro, a Casa Leopoldina acolhe a exposição de artistas. “O movimento maker ganhou força na cidade. Muita gente quer viver daquilo que gosta de fazer”, diz a fundadora da casa e empresária, Paola Carvalho. Ela lembra que muitos realizadores ganharam visibilidade na internet, onde apresentam seus trabalhos. No entanto, com a abertura desses espaços na cidade, Paola identifica movimento inverso. “Neste segundo movimento, makers que têm trabalhos consolidados na internet procuram pontos físicos para ter o contato com o público”, acredita ela, que é sócia da nutricionista e cozinheira Renata Andrade.

Quem vai ao espaço pode degustar pratos criados por Renata e cafés gourmets, enquanto aprecia trabalhos como os da artista plástica Jade Liz. No momento, ela expõe a mostra Essentia, composta por cinco fotos que mostram a relação orgânica entre corpos humanos e as plantas. Na sala de artes plásticas podem ser vistos o Fachada frontal, projeto de José Marcos Vieira que valoriza construções antigas por meio de imagens feitas no Autocad, e os trabalhos do artista Ho-chich-min e do fotógrafo Ivan Araújo, que também traz fachadas de residências da cidade. Na sala BH Cool, são apresentadas obras de diversos artistas, como Sillas Maciel, Beto Urrick e Pedro Haruf.

Outra experiência é o Alfaiataria, espaço criado pela galeria Quarto Amado, Perestroika e Guaja que se instalou num casarão no Funcionários, de abril a junho de 2015. Quinzenalmente, eram realizadas vernissages para apresentação de artistas. Também eram realizadas feiras de produtos orgânicos, shows da bandas independentes e desfiles de moda. “Com o fazer compartilhado a gente ganha em inovação e criatividade. É uma resposta inteligente ao espírito do nosso tempo, o que para Belo Horizonte é incrível”, diz Nina Trevisan Guimarães, diretora de wherever (uma brincadeira para falar da atuação multidisciplinar) da Perestroika.

Com foco em formação livre, a Perestroika pretende realizar, este ano, o curso de expressão de rua por meio da dança em parceria com o Centro Cultural Lá da Favelinha, organização independente localizada no Cafezal, comunidade da Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Cada uma das casas tem um propósito, uma identidade, e se assemelha apenas nessa maneira criativa de gerenciar o negócio, na ideia de colocar as pessoas em contato e derrubar fronteiras.

Flerte Na maioria dos casos, esses espaços flertam com a gastronomia, moda e design. Percebendo esse potencial criativo, foi criado em 2014 a Beagá Cool. “Buscamos a valorização dos negócios locais”, diz Sérgio Souto sobre a iniciativa. A rede surgiu com o propósito de ressignificar o termo cool, que em inglês, numa tradução livre, quer dizer ‘legal’ ou ‘descolado’. “Para BH, cool é sigla de ‘criativo, original, ousado e local’”, pontua. A rede conta com 43 empresas do ramo da economia criativa, encampando artes, moda, gastronomia e outras atividades. “São projetos que olham para o local e valorizam a cidade”, diz.

Uma coisa que se pode afirmar com certeza é que os projetos não cabem em caixinhas. “Esse movimento nasce com a ocupação do espaço público em Belo Horizonte”, diz, em referência à Praia da Estação e ao carnaval. Sérgio ressalta que não há uma relação formal entre Beagá Cool e esses movimentos, mas acredita que essas iniciativas de ocupação do espaço público tornaram propício o surgimento de coletivos, propostas das mais diversas artes que saíram das caixinhas. Nesse sentido, o Beagá Cool ajuda no processo de profissionalização dessas empresas e negócios. Outro exemplo que cita dessa efervescência é o Toda Deseo, coletivo de artistas que realizam o Campeonato Interdrag de Gaymada, uma intervenção cênico-performática – o segundo trabalho do coletivo.


EM MOVIMENTO

Carol Abreu (foto), percussionista da banda Djalma Não Entende de Política, tomava café com amiga na Casa Leopoldina, no Bairro Santa Tereza, na tarde da última quarta-feira. Era a primeira vez que estava na Casa, aonde foi buscar a “recompensa” de um financiamento coletivo com o qual colaborou: a impressão do livro Casa e chão – arquitetura e histórias de Belo Horizonte, de Ivan Araujo, Paola Carvalho e Raíssa Pena. A banda que Carol integra também recorreu ao financiamento coletivo para a produção do último disco, Apesar da crise. Carol lembra que a banda aposta, cada vez mais, nessa forma de fazer e nos novos formatos para apresentação do trabalho. “Coletivamente, conseguimos sobreviver melhor. A opção é tocar em contextos em sintonia com a ideia de um fazer coletivo”, afirma. Ela lembra a importância da existência desses espaços para o trabalho da banda, que lançou o financiamento coletivo em evento na Benfeitoria.

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