'A tradutora': em romance de Cristovão Tezza, personagem central vive dilemas diante de escolhas decisivas

por Eduardo Murta 13/01/2017 12:06
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(foto: Record/Reprodução)
A personagem bem que encontraria paralelo na poética musical. Beatriz, canção de Chico Buarque e Edu Lobo, imortalizada na voz de Milton Nascimento, provoca: “Diz quantos desastres tem na minha mão/diz se é perigoso a gente ser feliz...”. A Beatriz de Cristovão Tezza, sem saber as respostas, prefere pagar a conta do risco, ainda que no modo pé ante pé. Em A tradutora, o escritor catarinense vai testá-la, ao mergulhá-la numa minitempestade pessoal – três dias que soam uma eternidade.

O livro só reafirma a capacidade literária do autor de O filho eterno e A suavidade do vento, entre outras obras. Ele confirma que escrever é mais que escolher cenários, personagens e roteiro. Escrever é, antes de tudo, saber a dose exata de ambientação dessa tríade e o peso de cada palavra. Tezza é mestre neste ofício. Começa com um texto que sugere um certo excesso, um empilhamento, com frases longas e, por meio de sua personagem central, logo dá o breque.

O bastante para que o leitor se prepare. Ele não vai tornar as coisas fáceis. A tradutora talvez não seja o tipo de história para ser lida numa poltrona de ônibus urbano, em que buzinas, campainhas e conversas paralelas vão invadir o palco a todo instante (peralá, não exagere ao se meter numa concha acústica...). Mostra que a missão de Tezza não é das mais simples. Ao intercalar tempo presente e tempo futuro (invadidos pelos fragmentos na tradução do fictício filósofo espanhol/catalão Felip T. Xaveste), exige razoável grau de concentração de quem lê.

O enredo traz uma Beatriz, ambientada em Curitiba, pendurada numa relação amorosa pelo fio. Os sinalizadores sentimentais e os da razão vão indicando que é tempo de dizer adeus ao velho amor, Donetti, escritor ególotra. É o momento em que se vê mergulhada na missão de traduzir Xaveste (uma espécie de blasfêmia agressiva a vários lugares-comuns do pensamento contemporâneo, na interpretação de Cristovão Tezza em uma de suas entrevistas) e recebe o convite para ser a intérprete de um alto executivo da Fifa em visita à capital paranaense: estamos ali a poucos meses da Copa do Mundo de 2014.

Pronto. O que virá a seguir é síntese de um timing próprio do conflito pessoal. Embora Beatriz seja uma mulher com poucas hesitações (pela faixa dos 30 anos), aqueles dias serão de provação. Um Donetti que ela não está mais disposta a digerir como namorado, um filósofo que, mesmo em clichês, passa a navalha no pensamento raso e cai entrecortando o texto, e a ansiedade pelo trabalho como tradutora da Fifa. O pano de fundo está lá e, a esta altura, tem importância residual: se o Brasil teria condições de promover o Mundial e o quanto os protestos imolariam a então presidente Dilma Rousseff, eleita e posteriormente deposta num golpe de Estado.

Beatriz é personagem que nasceu em outro romance de Tezza (Um erro emocional), mas forte o bastante para ganhar vida própria e inspirar outra obra. Ela convida para a trama a amiga Bernadete, que surge em flashes, como uma espécie de id e superego, em que valida ou põe em xeque suas escolhas, especialmente as do campo emocional. O alto executivo da Fifa Erik Howes vai entrar por uma destas frestas ao inspecionar as obras de um dos estádios do Mundial de 2014, em Curitiba.

Do encontro formal ao surpreendente pedido para que o guiasse a uma visita a um centro de umbanda e às conversas e gestos que sugeriam o jogo de conquista à mesa do almoço. Três dias que soariam uma eternidade. E Beatriz, metida num dilema entre ceder ou não ceder ao encantamento, entre ceder ou não ceder à vontade própria, deixa que o destino a guie. O desfecho talvez misture uma leve dose de moral cristã – sabe-se lá se por recaída da personagem, escolha do autor ou mero encaixe literário.

Verdade é que A tradutora é um livro que sobrevive com dignidade à propaganda da editora (“romance sofisticado, conduzido por um fio de leveza, humor fino e autoironia, em que encontramos um Cristovão Tezza em pleno vigor de seu domínio narrativo”). Mais do que isso, indica que Beatriz merece outras histórias. À inspiração, Tezza!

• A tradutora 
  
• De Cristovão Tezza 
• Record  
• 352 páginas  
• R$ 34

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