O legado de Bauman - (1925-2017) - O homem que pensou a liquidez do mundo atual

por Pablo Pires 13/01/2017 11:57
MICHAL CIZEK/AFP
(foto: MICHAL CIZEK/AFP)
A extensa obra de Zygmunt Bauman compreende mais de 50 livros, dos quais 35 foram lançados no Brasil, todos pela Editora Zahar. Uma grande parte de seu trabalho foi dedicado à análise das condições da classe trabalhadora e da lógica de exclusão social, destacando os excluídos sob um ponto de vista marxista, embora de um modo bem próprio. No entanto, sua teoria mais famosa e que lhe garantiu destaque como pensador da sociedade contemporânea começou a ser traçada em 1989, com Modernidade e Holocausto, e chegou a uma síntese em 1999 com Modernidade líquida.

É a partir de então, e até seus últimos dias, que Bauman desenvolve o conceito de “sociedade líquida” e segue aplicando esse diagnóstico a todas as esferas das relações contemporâneas. Em artigo e entrevista à revista Cult, em 2009, o professor Dennis de Oliveira, da USP, resume com precisão todos os aspectos da proposta do filósofo e sociólogo de origem polonesa:

“Bauman define modernidade líquida como um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incerteza; a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva do planejamento a longo prazo; e o divórcio e a iminente apartação total entre poder e política.”

Apesar de não ser afeito a revelar detalhes de sua vida pessoal, algumas entrevistas e trabalhos permitem entrever relações entre vida e obra. Nascido em Poznan, na Polônia, cresceu na comunidade judia. Fugiu dos nazistas para a União Soviética e se uniu ao Exército polaco para lutar na Segunda Guerra. No pós-guerra, em Varsóvia, encontrou ambiente fértil para desenvolver sua forma de pensar, pois os diversos campos estavam interligados. Ao travar contato com universidades estrangeiras, espantou-se com a divisão entre as áreas de conhecimento: “Em que lugar, senão em Varsóvia, as tradições marxista e positivista, sociologias cientificistas e humanistas, abordagens evolucionistas e estruturalistas, visões ‘naturalistas’ e ‘culturalistas’ da realidade social, estratégias estatísticas e hermenêuticas eram ensinadas lado a lado, como alternativas vivas, complementares e não excludentes, livres da camisa de força cronopolítica? A compreensão que meus professores em Varsóvia me inocularam era a de um discurso permanente e distante de uma conclusão, de autocrítica e recapitulação contínua”, escreveu em Bauman sobre Bauman: diálogos com Keith Tester  (2011).

Como o professor da Universidade Federal Fluminense também destaca (leia entrevista abaixo), as constantes mudanças e migrações na vida de Bauman também podem ter influenciado a guinada na obra do pensador e originado seu grande insight sobre a liquidez. Além disso, as duas experiências certamente lhe serviram para que ele fizesse o uso de conceitos de várias áreas e os aplicasse sem distinção de correntes de pensamento.

Ao detectar que o conceito de modernidade líquida poderia ser alpicado amplamente, Bauman segue aprofundando seu diagnóstico e relacionando-o a outras esferas. Sua crítica ao consumismo (“na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a ‘síndrome consumista’ destronou a duração, promoveu a transitoriedade e colocou o valor da novidade acima do valor da permanência”) e, mais recentemente, sua visão sobre o mundo virtual (“a diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você”) são bastante precisas, o que ressalta a capacidade de Bauman de analisar o presente em constante mutação. Bauman deixa um enorme legado ao evidenciar as transformações da sociedade e propor às pessoas um olhar crítico para que sejam capazes de interferir e conduzir seus rumos. A outra hipótese é ser eternamente vítima.


Ditos e escritos

da incerteza
A incerteza é o hábitat da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor de atividade de atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade genuína, adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele.

mais valia virtual
O velho limite sagrado entre o horário de trabalho e o tempo pessoal desapareceu. Estamos permanentemente disponíveis, sempre no posto de trabalho.

consumismo
Numa sociedade de consumo, compartilhar a dependência de consumidor – a dependência universal das compras é a condição sine qua non de toda a liberdade individual. Acima de tudo na liberdade de ser diferente, de “ter identidade”.

a bolha das redes sociais
O diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.

capitalismo 
O capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento.

duração e permanência
Na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a “síndrome consumista” destronou a duração, promoveu a transitoriedade e colocou o valor da novidade acima do valor da permanência.

luta de classes e inconformismo revolucionário
As desigualdades sempre existiram, mas de vários séculos para cá se acreditou que a educação podia restabelecer a igualdade de oportunidades. Agora, 51% dos jovens diplomados estão desempregados e aqueles que têm trabalho têm empregos muito abaixo das suas qualificações. As grandes mudanças na história nunca vieram dos pobres, mas da frustração das pessoas com grandes expectativas que nunca se cumpriram. Ninguém ficaria surpreso ou intrigado pela evidente escassez de pessoas que se disporiam a ser revolucionários: do tipo de pessoas que articulam o desejo de mudar seus planos individuais como projeto para mudar a ordem da sociedade.

Entrevista

Luis Carlos Fridman
(Professor de sociologia da Universidade Federal Fluminense)
Qual é a maior contribuição de Bauman para a contemporaneidade?
O diagnóstico da liquidez das relações contemporâneas,

Uma das características da obra de Bauman é a interdisciplinaridade. Qual a importância desse trânsito entre as diferentes áreas?
Embora a interdisciplinaridade não seja uma característica original de Bauman e seja uma tendência nas ciências humanas já há algum tempo, a obra dele tem uma originalidade de não ficar presa a conceitos de campos específicos. Como grande erudito, ele fez isso de forma original ao fazer um diagnóstico sobre a liquidez contemporânea e o aplicou a todas as esferas do mundo atual. Bauman viu essa liquidez no amor, na proteção social, na política. Cada livro dele é a aplicação dessa ideia de liquidez às diversas esferas da vida social humana.

Como a experiência da guerra e, sobretudo, do Holocausto marcou a construção da análise do autor polonês? E como sua vida pessoal está refletida em sua obra?
Inescapavelmente. A impressão que eu tenho é de que a experiência da guerra o marcou. Ele foi para a União Soviética e, depois, retorna à Polônia e é expulso da Universidade de Varsóvia pelo Partido Comunista. Vai então para Israel e só depois ele vai morar na Inglaterra. Acho que a ideia de imigração e de não pertencer a lugar nenhum despertou a sensibilidade dele para a fluidez dos laços.

Os livros de Bauman abordam a passagem da modernidade para a chamada pós-modernidade, destacando uma mudança de valores radical. Quais seriam as diferenças fundamentais entre um momento e outro? 
Primeiro, ele adotou a noção de pós-modernidade, depois ele a abandona. Bauman prefere a noção de modernidade líquida, que seria a modernidade em que as instituições são erigidas e desmontadas sucessivamente, gerando uma forte insegurança nos indivíduos modernos. Essa ideia de liquidez é mais forte do que a ideia de pós-modernidade, é conceitualmente mais precisa porque pode ser percebida em todas as esferas do convívio contemporãneo.

A perspectiva de valorizar os mais fracos, o combate à opressão e às distorções do capitalismo foram sempre objetos da reflexão do autor. Como o pensamento de Bauman dialoga ou se distingue em relação aos pensadores marxistas da Escola de Frankfurt, por exemplo?
Em certo momento, ele acha que é seguidor da Escola de Frankfurt, mas não é literal, porque os fenômenos que a Escola de Frankfurt analisava são diferentes dos que nos atingem contemporaneamente. Nesse aspecto, a principal preocupação de Bauman é mostrar o desmantelamento das redes de proteção social, o que tem a ver com globalização e a impossibilidade do Estado diante de uma economia regida totalmente pelo mercado. Para ele, interessa analisar quais são os dilemas intestinos da sociedade contemporânea, os processos correntes, o que é diferente de analisar uma outra sociedade do passado ou fazer um projeto de uma sociedade ideal. Ele busca fazer um diagnóstico de como funciona a sociedade atual.

Como é o tema do consumismo na obra de Bauman?
É riquíssima a análise. Ele diz que, no atual estágio do capitalismo, o consumismo permite a você até comprar maneiras de ser, o que é genial. Você pode comprar roupas, calçados, uma casa, mas também modos de existência, terapias, estilos. Você acredita que está comprando uma forma de ser ou de viver.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS