Piglia - (1941-2017) O homem que amava ler, escrever e conversar

por Carlos Marcelo 13/01/2017 11:54

Quinho
(foto: Quinho)
A clareza e o tom incisivo marcam o início do texto “Teses sobre o conto”, de Ricardo Piglia, na coletânea de ensaios Formas breves (lançada no Brasil em 2004): “Um conto sempre conta duas histórias”. Nos livros, em entrevistas e conferências, Piglia também teve o cuidado de alternar dois pontos de vista: do escritor e do leitor. Sem pedantismo e com generosidade, como destacaram os que tiveram a chance de conhecê-lo pessoalmente. “Ele merecia ter escrito muito mais”, lamentou o editor Luiz Schwarcz, ao comentar a morte do escritor, vítima de complicações da esclerose lateral amiotrófica (ELA), em post no blog da Companhia das Letras: “O último leitor é um dos meus livros preferidos. Tê-lo publicado valeu por toda uma vida”. Schwarcz se refere ao lançamento de 2005, definido no prólogo por Piglia como “o livro mais pessoal e íntimo que já escrevi”: “O que podemos imaginar sempre existe, em outra escala, em outro tempo, nítido e distante, como num sonho”.

O professor universitário Sérgio de Sá, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, esteve com o escritor e ensaísta em Buenos Aires, em 2006, quando entrevistou Piglia para a sua tese de doutorado: “Encontrar Piglia-Renzi em sua morada no Bairro de Palermo foi a certeza de não haver diferença entre literatura e realidade”, conta Sá, referindo-se ao alterego do escritor. “Ricardo Piglia me interessou porque ele é também Emilio Renzi, o narrador-personagem-escritor que existe desde o primeiro livro do autor argentino, A invasão, volume de contos publicado originalmente há exatos 50 anos. Ter encontrado Piglia-Renzi na ficção foi a certeza de estar em caminho teórico fértil. O que faz o escritor com e contra a história, o Estado e a mídia?.”

Para Sérgio de Sá, Ricardo Piglia soube estabelecer diálogo constante entre as atividades de crítico e escritor, “nunca se ressentindo para qualquer um dos lados”. “Sem medo da teoria, pensou e fez literatura. Saiu-se mais prazeroso quando apostou menos na metanarrativa. Tornou-se literariamente imprescindível, entre outros motivos, porque criou novos enigmas para o formato policial. Não é preciso ir muito longe, basta ler o fluente Dinheiro queimado”. Sá se refere ao thriller que Piglia, grande admirador do gênero policial, escreveu a partir de fatos reais e foi adaptado para o cinema em 2000 pelo diretor Marcelo Piñeyro.

Dinheiro queimado, bem como outros livros de ficção (O caminho de Ida, Alvo noturno, Respiração artificial), foram lançados no Brasil pela Companhia das Letras, que passou a publicar o autor no país depois das edições da Iluminuras – esta foi a responsável pelas primeiras publicações nacionais de Respiração artificial, Nome falso, Prisão perpétua, A cidade ausente e O laboratório do escritor.

Mas há lacunas no mercado brasileiro: “É urgente a publicação aqui de Crítica e ficção, de 1986, e das aulas sobre Rodolfo Walsh, Manuel Puig e Juan José Saer reunidas em Las tres vanguardias, editado na Argentina no ano passado”, afirma Sérgio de Sá, que incluiu sua entrevista com Piglia no livro A reinvenção do escritor, lançado pela coleção Humanitas, da UFMG, em 2010. Também continuam inéditos no Brasil os dois primeiros volumes dos diários de Emilio Renzi: Años de formación e Los años felices (ainda falta ser lançado lá fora Un día en la vida).

“Nas muitas entrevistas que concedeu ao longo da vida, ele trabalhou em nome do leitor, com bastante generosidade. O leitor Ricardo Piglia fez da entrevista sua forma mais evidente de ação pública. Traduziu com clareza e, como muito poucos, o desejo humano pela ficção”, ressalta Sá, que cedeu trechos de sua entrevista de 2006 para publicação na edição de hoje do Pensar (leia abaixo).

O escritor Ricardo Piglia, de 75 anos, morreu em 7 de janeiro de 2017. Dia do Leitor.

Entrevista

RICARDO PIGLIA
(Ao professor Sérgio de Sá, em 2006)


Como descobriu o leitor Che Guevara (tema de um dos ensaios no livro O último leitor)?
A origem dessa narração vem de um seminário que dei várias vezes em Princeton, sobre a presença de Guevara na cultura da América Latina. E esse curso é uma leitura e uma releitura de muitos textos dele e sobre ele. Ao longo do tempo surgiu essa imagem, e sobre ela foi se armando essa maneira de ver Guevara. Por outro lado, essa construção está ligada a uma preocupação minha que está nesse livro e em outros, que é o passo à ação. A leitura como um passo à ação. Madame Bovary, Quixote. Nesse caso, o passo à ação de um político, que tem muito a ver com uma tradição que conhecemos bem, não? Muitos acontecimentos da vida política e histórica, muitos crimes se devem a leituras de textos, a debates por meio de textos.

Ao mesmo tempo, é a “não-ação” de alguém que queria ser escritor.

Claro. Creio que esse é o ponto central da leitura. O nó que aparece aí é o fato de que, até os meses anteriores à expedição do Granma com Fidel Castro, ele ainda se define como alguém que quer escrever e que, em suas cartas, diz “este ano não pude escrever”, como muitos outros que conhecemos, aspirantes a escritores na América Latina. Por esse lado, aparece a conexão com a beat generation, no sentido de que, mais do que pensar na Europa, se põem a caminho, viajam. Por outro lado, há essa figura do escritor que, em determinado momento, passa à ação a partir dessa relação com a escritura e a leitura, que é o que acontece com Guevara.

Hoje, ler já não seria um ato de rebeldia? Seríamos todos “guevaras”?

(risos) Poderia ser uma boa metáfora, no sentido de resistência a um tipo de saber ou de informação que circula hoje. A tensão entre experiência e informação é o que me parece importante. São dois sistemas completamente diferentes e que, frequentemente, aparecem como contraditórios e em forte contraste. Uma coisa é estar informado. Outra coisa é ter experiência. Às vezes, a falta de informação é vista como um modo de desconhecimento do mundo, e não necessariamente é assim. Que coisas conhecemos por experiência pessoal? Que coisas conhecemos pela informação geral diante da qual somos, antes, alheios e mais testemunhas? De que maneira elaboramos a informação com relação à nossa própria experiência? Esse, me parece, é o nó da crise atual.

Alguns teóricos dizem que a experiência vem da informação.
Pode ser que aconteça isso. Mas acho que temos de nos opor a isso. Quem seria Guevara? Alguém que busca a experiência, como Quixote, como Madame Bovary, que lê uma série de textos e pensa que ela também tem de viver isso. Alguém que incorpora o que lê em sua vida privada e trata de ver se está à altura disso. Então não é a informação o que importa. A leitura não está ligada à informação, pelo menos a leitura que trabalho aí. Está ligada a um tipo de relação do sujeito, que tento insinuar no livro, não de maneira sistemática. Esta resistência poderia ser entendida justamente como a resistência da experiência frente à homogeneização da informação difundida. Venho trabalhando muito sobre isso. Acredito que o que chamo de ficção paranoica, a noção de complô, são modos de enfrentar a crise da experiência e uma forma para que o sujeito se conecte com esse conjunto um tanto indecifrável. Penso que há um complô que organiza um pouco o universo, que me permite entender o que na verdade me determina e que não termina nunca de saber como funciona. A noção de complô, muitas vezes, dá ao sujeito a possibilidade de incorporar essa experiência como uma experiência personalizada. Os romances falam muito disso. Essas são as questões que, me parece, estão atreladas não só ao meu trabalho como à literatura contemporânea.

Em diálogo com Juan José Saer na década de 1980, você apontou três posições dentro do romance contemporâneo. Uma oposição radical à cultura de massa, como a do próprio Saer, uma tomada e rearranjo total dos estereótipos dessa mesma cultura, como o que faz Manuel Puig, e uma atitude de equilíbrio, como parece ser o caso do seu trabalho.
Correto. Entendo bem a posição de Saer, uma posição que tem uma grande tradição: quem resiste é o poeta, que está completamente alheio e antagônico. No meu caso, tendo a pensar a questão de uma maneira mais fluida. Vejo a contradição, mas penso nas relações estabelecidas e começo a levar em conta certos gêneros que tentaram resolver o problema. O policial é um modo de articular um espaço com o outro. Penso mais neste tipo de coisas: onde se produz a relação que intensifica o contraste. O que me interessa no romance contemporâneo passa por esse tipo de cruzamentos, por esse tipo de tensão. (Thomas) Pynchon e Puig, por exemplo. E apesar de Saer tomar a decisão de se opor, a tensão está muito presente em seus romances. No momento em que Tomatis (personagem saeriano) está numa espécie de crise por conta da ditadura, fica o tempo todo vendo televisão. Podem-se encontrar rastros dessa questão em Saer, com um sentido mais temático do que em Puig, em que o sentido é mais formal. Em Saer, aparece às vezes como anedota em suas histórias.


Reflexões breves

Imagem de quem lê

“Sempre existe algo de inquietante, ao mesmo tempo estranho e familiar, na imagem concentrada de alguém que lê, uma misteriosa intensidade que a literatura fixou inúmeras vezes. O sujeito se isolou, parece separado do real.”

Invenção do gênero policial

“(Sobre Os assassinatos da rua Morgue, de Edgar Allan Poe) Quando a história da rua Morgue está por começar, parece que vamos encontrar uma narrativa de fantasmas. Mas o que aparece é uma coisa totalmente diferente. Um novo gênero. Uma história da luz, da reflexão, da investigação, do triunfo da razão. Uma passagem do universo sombrio do terror gótico para o universo da pura compreensão intelectual do gênero policial. Continuamos discutindo sobre os mortos e a morte, mas o criminoso substitui os fantasmas (…). A chave é que Poe inventou uma nova figura e assim inventou um gênero. A invenção do detetive é a chave do gênero.”

Diferença entre mistério e thriller
“A partir de (Dashiell) Hammett, a narrativa policial se estrutura sobre o mistério da riqueza; ou melhor, da corrupção, da relação entre dinheiro e poder. E muitas vezes são as mulheres que encarnam esse mundo de maneira visível (…). A relação com o dinheiro marca a diferença essencial entre o relato de mistério e o thriller. Todo o sistema formal da narrativa policial se define a partir disso (…). E há uma coisa que percorre a história do gênero policial: a tensão entre a cultura de massas e a alta cultura.”

Música
“Ninguém encarna melhor do que os músicos a dupla relação da arte com o presente e com a tradição.”

Psicanálise e natação
“A psicanálise é em certo sentido uma arte da natação, uma arte de manter à tona no mar da linguagem pessoas que estão sempre fazendo força para afundar. E um artista é aquele que nunca sabe se vai poder nadar: pôde nadar antes, mas não sabe se vai poder nadar da próxima vez que entrar na linguagem.”

Cultura de massa
“A cultura de massa (ou melhor seria dizer a política de massa) foi vista com toda a clareza por Borges como uma máquina de produzir lembranças falsas e experiências impessoais. Todos sentem a mesma coisa e recordam a mesma coisa, e o que sentem e recordam não é o que viveram.”

Realidade e ilusão
“Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler”.

(Trechos dos livros Formas breves e O último leitor, lançados no Brasil pela Editora Companhia das Letras)

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