Tem medo de palhaço? Coletivo Boca do Inferno lança livro sobre o tema

Publicação faz mergulho em obras da cultura pop que tratam o clown como figura assustadora

por Fellipe Torres 07/01/2017 13:04

GULLANE FILMES/DIVULGAÇÃO
Vladimir Brichta substituiu Wagner Moura e assumiu o papel principal em Bingo, o rei das manhãs (foto: GULLANE FILMES/DIVULGAÇÃO)
A repulsa por palhaços – geralmente acompanhada de ataques de pânico, perda de fôlego, arritmia cardíaca, suores e náusea – não é facilmente explicada, e pesquisadores do assunto divergem sobre sua origem. Para alguns, o medo se baseia em uma experiência pessoal com algum palhaço na infância, como um constrangimento durante espetáculo. Outros acreditam na forte influência da mídia e da cultura pop, sobretudo diante da associação da figura caricata a filmes de horror e a obras da literatura e dos quadrinhos. Esse primeiro contato geraria uma pré-disposição ao medo.

Pesquisa realizada em 2014 pelo instituto YouGov, na Inglaterra, apontou o palhaço como o décimo colocado em um ranking de elementos com maior potencial para despertar fobia. Participaram da pesquisa 2 mil pessoas. Outro estudo publicado pela revista New Ideas in Psychology apontou o fator da imprevisibilidade como algo fundamental para despertar a desconfiança do público em relação aos palhaços. Cerca de 1,3 mil voluntários com mais de 18 anos listaram características consideradas por eles assustadoras e fizeram um ranking das profissões mais arrepiantes. Os palhaços lideraram com folga.

Cientes do fascínio pela figura do palhaço assassino em várias mídias, o coletivo Boca do Inferno  – formado por Marcelo Milici, Filipe Falcão, Gabriel Paixão, o mineiro Matheus Ferraz e Rodrigo Ramos – lançou Medo de palhaço: a enciclopédia definitiva sobre palhaços assustadores na cultura pop (Generale).

Para o pesquisador e jornalista Filipe Falcão, coautor da obra, o palhaço é uma figura facilmente identificável e com potencial para despertar o interesse do público. “No cinema, por ter ganho essa importância, tornou-se parte de uma receita fácil. É como um filme de zumbi. Não precisa ter roteiros mirabolantes, diferentemente de produções de drama e aventura, cuja audiência é mais exigente”, opina. Segundo Falcão, os longas-metragens protagonizados por palhaços têm grande variedade, indo desde filmes muito bem produzidos até alguns de baixíssimo orçamento.

A COISA Um divisor de águas, segundo ele, foi a adaptação, no fim dos anos 1980, do livro It - A coisa, de Stephen King. Isso porque o palhaço deixou de ser coadjuvante – em produções “trash” – para se tornar um dos principais vilões da época. Sobre a recente onda de “palhaços assassinos” em espaços públicos vista em partes da Europa e dos Estados Unidos, Falcão diz ter sido uma “feliz coincidência”, pois se tornou a “melhor divulgação possível” para o livro recém-lançado. “A brincadeira é válida, mas é preciso ter uma série de cuidados, principalmente com pessoas mal-intencionadas. O problema do palhaço, assim como todo personagem mascarado, é não saber quem está lá”, finaliza.

Palhaços já foram descritos como criaturas desajustadas em obras como As aventuras do Sr. Pickwick (1836), de Charles Dickens, considerado o criador do palhaço assustador. No livro, um ator decadente, doente e enlouquecido vaga pelas ruas de Londres com trajes circenses. No conto Hop-Frog of the eight chained ourang-outangs (1849), de Edgard Allan Poe, um bobo da corte arma situação para queimar o rei vivo e escapar da tragédia como inocente. Mas o personagem do gênero com maior destaque na literatura foi criado por um autor contemporâneo: Stephen King.

O livro It (1986) introduziu a figura conhecida como “A Coisa”, combinando elementos como lembranças, traumas de infância e horror em pequenas cidades. A história foi adaptada para o cinema em 1990 e vai ganhar uma nova versão em setembro de 2017.  Já nos quadrinhos, um dos vilões do Batman, o Coringa, é um caso à parte, conhecido como Príncipe Palhaço do Crime.


Bozo inspira longa de Daniel Rezende

Está previsto para agosto o lançamento nos cinemas brasileiros de Bingo, o rei das manhãs, baseado na história de Arlindo Barreto, que interpretava o palhaço Bozo, de enorme sucesso na TV nos anos 1980. Fora da telinha, Barreto lidava com o drama da dependência de drogas.

O título marca a primeira direção de longas do montador Daniel Rezende. Responsável pela edição de megassucessos nacionais como Cidade de Deus e Tropa de elite, Rezende já assinou também a edição de grandes produções internacionais, como A árvore da vida, de Terrence Malick.

Rezende já estreou na direção, com o curta Blackout (2008), que tem Wagner Moura como protagonista. Era Moura a escolha do diretor para dar vida a Bingo. No entanto, por causa de seus compromissos com a série Narcos (Netflix), em que interpreta o narcotraficante Pablo Escobar, Moura teve de desistir do filme e aconselhou Rezende a dar o papel a  Vladimir Brichta. O diretor aceitou a sugestão e não se arrepende. “Ele arrebenta”, garante.

QUATRO PERGUNTAS PARA...


Daniel Rezende 
diretor de Bingo, o rei das manhãs


De onde surgiu a ideia do filme?

Antes de tudo, fui uma criança nos anos 1980. Certo dia, um dos produtores do longa me procurou, disse que leu uma matéria e que a gente deveria fazer um filme sobre a vida do Arlindo Barreto. Ele me mandou o texto, eu li e telefonei dizendo para a gente fazer o filme. Tem muito a ver com o país, com os bastidores da TV nos anos 1980, com a megalomania, a cultura pop. É uma história surreal, incrível. Com Bingo, o desafio é tentar fazer com que as pessoas acreditem naquela magia, naquele personagem.

Como a história é contada?
Trazemos para as telas os bastidores da TV dos anos 1980, uma época de excessos, bem kitsch. O filme é sobre um artista que quer encontrar seu lugar sob o holofote. A gente passa pelo universo da pornochanchada, das novelas, até chegar à programação infantil. Em busca do reconhecimento, ele acaba encontrando esse palhaço. E, por uma cláusula de contrato, ele não pode revelar a identidade por trás daquela máscara. Então se torna alguém muito famoso, mas anônimo. Isso tem grande efeito em sua vida.

Como a fama o prejudicou?

O Arlindo tinha um filho pequeno, na época. Quando ele vira esse palhaço famoso, começa a se distanciar do filho. Tem uma frase na entrevista que li quando resolvi fazer o longa... O Arlindo chega em casa e vai dar ao filho um carrinho de controle remoto de presente. O filho fala: “Você é o único pai que brinca com todas as crianças, menos comigo”. Isso me pegou. Eu era uma das crianças que assistia. E também sou pai. Há uma questão muito humana nisso tudo.

Como chegou no Vladimir Brichta para o papel principal?
Quando o filme começou, lá trás, ia ser feito pelo Wagner Moura. Com o tempo, ele não pôde fazer, pois estava falando espanhol, matando uma galera, produzindo conteúdo para o Bingo usar (ele ri com a referência à série Narcos, sobre Pablo Escobar). Quando as agendas não bateram, o Wagner me disse que só uma pessoa poderia fazer esse filme, o Vladimir. A gente não se conhecia, se encontrou e foi demais. Ele arrebenta.

Medo de palhaço: 
A enciclopédia definitiva sobre palhaços assustadores na cultura pop

De Marcelo Milici, Filipe Falcão, Gabriel Paixão, Matheus Ferraz, Rodrigo Ramos
Editora: Generale
288 páginas
Preço sugerido: R$ 59,90

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