Michel Laub analisa linchamento virtual no romance 'O tribunal da quinta-feira'

Um dos nomes de destaque da literatura contemporânea nacional, o escritor aborda a questão da tolerância do ponto de vista da sexualidade

por Carlos Marcelo 09/12/2016 10:53
Michel Laub dá o veredito sobre O tribunal:
(foto: Michel Laub dá o veredito sobre O tribunal: "Eu não teria escrito este livro, ao menos na forma que ele tem e nas questões que ele aborda, antes do surgimento das redes sociais")

Um clique, um juízo. Uma frase, uma condenação. A rapidez dos julgamentos morais realizados por meio de redes sociais e a desproporcionalidade das sentenças atribuídas via internet são um dos temas de O tribunal da quinta-feira, o mais novo romance de Michel Laub. “Os linchamentos virtuais ficam gravados para sempre, ou num tempo suficientemente longo da nossa vida, por estar a dois cliques de distância nos mecanismos de busca”, lembra o escritor e jornalista, nascido em 1973, em Porto Alegre. Uma das vozes mais expressivas da literatura contemporânea nacional, Laub tem sete romances publicados, todos pela Companhia das Letras, entre eles Diário da queda (2011), traduzido para 11 países, e seu livro de maior repercussão. Assim como em Diário, Laub demonstra pleno domínio narrativo em O tribunal da quinta-feira. O tom distanciado, levemente irônico e propositalmente ambíguo do narrador acentua os desdobramentos quase kafkianos da divulgação de uma troca de e-mails entre um publicitário e um amigo mais velho, portador do vírus HIV. A seguir, a entrevista que Laub concedeu por e-mail ao Pensar sobre o novo livro:


Qual o ponto de partida de O tribunal da quinta-feira?


Eu queria falar de tolerância sob o ponto de vista da sexualidade. Pareceu-me que a Aids poderia ser um mote para fazer essa ponte, porque as discussões morais e culturais que ela despertou nos anos 80 em vários aspectos continuam as mesmas. A doença mudou nesse período, mas a sociedade continua parecida quando trata de determinados tabus.

“Um bolo de ressentimento e vingança crescendo sem controle, os efeitos no mundo concreto para além do posts e comentários.” Esse é um dos aspectos da realidade contemporânea que o impulsionaram a escrever O tribunal da quinta-feira?

Sempre houve linchamentos, esse é um tema clássico inclusive na literatura, mas talvez haja uma mudança de natureza na forma como eles são feitos hoje, a partir de uma mudança de intensidade. Uns 15 anos atrás, digamos, um garoto que sofresse bullying poderia mudar de escola e começar uma vida nova. Hoje não é mais possível, porque os linchamentos virtuais ficam gravados para sempre, ou num tempo suficientemente longo da nossa vida, por estar a dois cliques de distância nos mecanismos de busca. Na perspectiva oposta, tomar parte nessas campanhas ficou muito mais fácil. Basta compartilhar uma matéria difamatória, o que é feito instantaneamente (sem nenhuma reflexão maior) e de forma praticamente anônima (sem precisar se confrontar com o sofrimento posterior da vítima). O Tribunal fala mais dessa desproporcionalidade, talvez, do que de hipocrisia. O enredo não se baseia num escândalo do tipo Escola Base, que por sua vez se baseava numa mentira, e sim na desproporcionalidade da pena em relação a atos que são ou podem ser condenáveis.

Por que a escolha de um publicitário como protagonista? Está relacionado com o fato de a profissão trabalhar com uma versão da realidade como matéria-prima?

O livro trata (e imita) uma série de discursos – o publicitário, o corporativo, o feminista, o conservador etc. Achei que ficaria interessante que o narrador, por trabalhar com manipulação de informações (como todo publicitário), também estivesse manipulando os fatos quando se dirige ao público (ou ao leitor) fazendo a sua defesa. Essa ambiguidade, que faz o leitor desconfiar também do que é dito no romance, é algo que sempre me chamou a atenção na literatura. É uma particularidade do discurso literário, ou do discurso artístico em geral, essencial numa época em que todas as outras esferas da vida estão cheias de certezas.

“Você pode escapar de uma época, mas não de todas as épocas.” Essa frase de O tribunal também vale para um escritor? Como as épocas influenciam a sua literatura?

Sempre influenciam. Eu não teria escrito este livro, ao menos na forma que ele tem e nas questões que ele aborda, antes do surgimento das redes sociais. Foram elas, a partir de sua lógica própria e seus mecanismos específicos, que atualizaram e até mudaram discussões já antigas. Uma delas, não por acaso, é a discussão sobre sexualidade.

É possível estabelecer relação entre o seu livro e grandes romances contemporâneos – Reparação (Ian McEwan), A marca humana (Philip Roth) e Desonra (J. M. Coetzee) – que também são impulsionados por ações que têm consequências irremediáveis para os seus protagonistas, “uma tempestade que se abate sobre os envolvidos”?

No enredo, sim, especialmente com os dois últimos – dois romances excelentes, por sinal. São histórias de queda de personagens que fizeram algo de errado de acordo com regras indissociáveis do seu ambiente e da sua época, que não seriam moralmente condenáveis em ambientes e épocas próximas. A diferença, além da qualidade de cada livro, claro, é que meu protagonista é mais ambíguo, não é um inocente injustiçado pela Grande História. E a forma como narro é menos realista, no sentido do realismo psicológico tradicional, que a forma do Roth e do Coetzee.

O “Gre-nal do Século” (O segundo tempo), um show do Nirvana em São Paulo em 1993 (A maçã envenenada). Agora, em O Tribunal da quinta-feira, o pano de fundo é a disseminação da Aids e do preconceito contra os homossexuais nos anos 1980. A recriação de um passado próximo, que ainda ecoa no presente, é desafio adicional para um escritor? Por este aspecto poderia se dizer que a sua literatura carrega traços memorialistas?

Não vejo a recriação do passado como algo tão difícil, ao menos para um escritor com alguma experiência, porque estamos falando de um nível em geral mais descritivo do que dramático/meditativo. O difícil é pegar esse passado e fazer literatura a partir dele, ou seja, criar personagens, tramas e reflexões que se articulem com o presente a partir dele. Falar do passado em si não me interessa. Meu conceito de memorialismo está mais ligado ao que é contemporâneo do que a qualquer modalidade de nostalgia.

Parece-me proposital em O tribunal da quinta-feira a utilização de forma narrativa que aparece em seus outros romances: capítulos curtos e parágrafos longos. Esse estilo está consolidado ou você pretende explorar outras estruturas?

É uma forma estrita, que exige de mim uma disciplina narrativa que, contraditoriamente, me dá liberdade para explorar questões temporais, espaciais e dramáticas mais interessantes para aquilo que quero dizer. Mas é curioso, porque não acho que os capítulos curtos desse livro sejam parecidos com os do Diário da queda, por exemplo. No Tribunal, são capítulos estanques, que fazem tudo recomeçar na seção seguinte, enquanto no Diário a separação dos parágrafos (que seriam minicapítulos) forma um fluxo contínuo, como é o fluxo da Bíblia (que separa seus parágrafos por números, como se sabe). Isso tudo pode soar como uma tecnicalidade, mas para quem está escrevendo faz uma grande diferença ter ou não de arrematar cada capítulo do jeito a ou b. Isso acaba mudando a forma – e, portanto, o conteúdo – da narrativa como um todo.


Tanto em A maçã envenenada quanto em Diário da queda, e agora novamente em O tribunal da quinta-feira, a morte é uma presença próxima aos protagonistas. Como a morte pode estimular a criação? Poderia citar outros romances marcantes que têm a morte por perto?


A morte é um mote literário clássico, talvez o mais clássico de todos. Até ao falar de amor estamos falando da morte, de certa maneira, porque estamos falando do tempo, do início e fim dos afetos, da memória. Esses são temas de todos os meus livros – seja quando falo de uma doença, como no Tribunal, seja quando falo de um mundo que acabou, como o da infância/adolescência no Longe da água ou no Segundo tempo. Exemplos disso na literatura universal são infinitos, de várias das narrativas bíblicas a A morte de Ivan Ilich (Tolstói) ou Extinção (Thomas Bernhard).

“O que essas pessoas não entendem é que você não pode revelar o que elas realmente gostariam de saber.” Esse trecho de Longe da água, de 2004, tornou-se anacrônico diante da devassa da intimidade promovida pelas redes sociais? As mudanças no período em que você escreveu os dois livros foram tão significativas assim?

Para a minha geração, certamente. Para quem já cresceu sob os padrões de privacidade (ou falta de privacidade) da internet, talvez seja diferente. Mas acredito que ainda haja um espaço para o que não pode ser dito, mesmo que ele seja menor ou diferente do que era décadas atrás. É esse o espaço onde a literatura deve entrar, o espaço onde nenhuma outra linguagem – a linguagem política, por exemplo – consegue. É o que faz a literatura continuar sendo única e relevante, ao menos para quem está disposto a prestar atenção nela.

Qual dos seus romances você escolheria para um leitor que nunca leu os seus livros começar a conhecer a sua obra?


Talvez o Diário da queda, que sintetiza as questões dos meus primeiros quatro ou cinco livros numa narrativa com elementos autobiográficos. Em geral, é o livro meu mais gostado pelos leitores. Mas gosto do Tribunal também, pelos motivos opostos: é um livro totalmente fictício, que fala menos da minha vida do que de questões maiores do nosso tempo. E talvez seja um livro mais antipático, o que considero uma qualidade.

De onde vem a sua literatura? Observação, experiência ou lembranças?


O escritor sempre trabalha com três elementos: observação, experiência e técnica. Você pode ser deficiente em um ou dois deles, mas aí precisa compensar no(s) atributo(s) que sobra(ram). As lembranças (ou a memória, de modo mais amplo) permeiam tudo. Nada pode ser feito sem ela – inclusive o aprendizado e manejo da técnica.



TRECHO

Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que erra como qualquer indivíduo, em meia dúzia de atos entre os milhares praticados ao longo de quarenta e três anos, para se tornar o sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis. Nesse sentido, os quatro dias desde o último domingo têm sido gloriosos para Teca: aqui temos o homem com quem ela foi casada, exposto em público em sua indiscrição e covardia, e cada pedra jogada nele é uma declaração pública de que não praticamos nem toleramos nada parecido com o que ele fez. O que, evidentemente, não inclui a indiscrição de entrar numa conta de e-mail alheia. Nem a escolha de encaminhar as mensagens para outras pessoas. Nem a consciência de que essas outras pessoas acabarão vazando as mensagens. Nem que o vazamento mudará a vida de todos os envolvidos, e para sempre eles carregarão o peso da reação que você sabe que esse tipo de mensagem acarretará em 2016, e nem por um segundo você pensou que em alguns casos essa reação possa ser injusta, ou desproporcional, e que no instante seguinte a isso tudo não haverá mais chance de voltar atrás. Teca selecionou os trechos mais chocantes dos textos, na ordem 73 que mais fazia sentido e mais potencializava o escândalo, a tarde toda do domingo para montar esse dossiê com método, e depois me ligou para falar em maturidade, em respeito, em empatia, em boa vontade.


O TRIBUNAL DA QUINTA-FEIRA

De Michel Laub
Companhia das Letras
184 páginas
R$ 34,90

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