Biografia escrita pelo jornalista André Barcinski revela o lado B do cantor João Gordo

Lenda do punk, hoje ele comanda programa culinário e dá até receitinhas no YouTube

por Agência Estado 27/11/2016 10:50

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ACERVO
(foto: ACERVO )
Nem encrenqueiro nem imbecil. Assim se define João Gordo, um dos punks mais mais punks do Brasil. Ele acaba de “estrelar” a biografia Viva la vida tosca (Editora Darkside), escrita pelo jornalista André Barcinski. Aos 52 anos, João Francisco Benedan, vocalista da banda Ratos de Porão, é pai coruja dos pré-adolescentes Victoria e Prieto, casado com Viviana Torrico e defensor ferrenho da alimentação saudável. E apresenta o simpático programa culinário Panelaço no YouTube. Ali, conversou e cozinhou para o chef Alex Atala e os rappers Mano Brown e Criolo, a modelo Ellen Jabour e o publicitário Washington Olivetto, entre outras celebridades. Detalhe: dá dicas e até receitinhas para os fãs.

O livro fala de tudo um pouco: de sua “louca vida tosca” no mundo punk, de drogas, da violência do pai e do showbusiness. Para João, Kurt Cobain (1967-1994), viciado em cocaína, fez um dos piores shows de sua vida em São Paulo, em 1993. “Nunca vi alguém cheirar tanto. Vinha aquele prato de tecão e ele mandava nas duas narinas. Nunca vi nada igual. Até eu arreguei antes dele”, revela a respeito do líder da banda Nirvana.

João contesta a imagem de encrenqueiro, atribui esse estereótipo à televisão. Aliás, comandou vários programas na extinta MTV brasileira. O mais famoso era Gordo-a-go-go, de entrevistas. Em 2003, desentendeu-se – no ar – com o ator Dado Dolabella.

“Quem é meu fã sabe como eu sou. Agora, quem não é pensa que eu sou um completo imbecil. Só me viu lá brigando com o Dado Dolabella. Fiz tanta coisa na vida, mas a única coisa que se destaca é a treta que tive com aquele playboy. Muitos, inclusive, gostam de me chamar de traidor do movimento punk”, diz. João Gordo avisa: “Sou uma pessoa normal. Não gosto desse estereótipo que as pessoas construíram de mim”. (Estadão Conteúdo)



Fala, João!

ALIMENTAÇÃO

“Não sou vegano. Faço várias m** porque não tenho paciência Às vezes, quando saio à noite e a pizza com queijo demora para sair, como a que vem primeiro. Uso tênis com camurça e não tenho saco para ficar lendo todos os ingredientes de determinada comida. Não sou xiita, mas minhas atitudes afetam muita gente. Fui influenciado pelo Juninho (baixista do Ratos de Porão), vegano há bastante tempo. Todos os roadies da banda também são veganos. Daí você começa a perder espaço e começa a se adaptar à realidade dos caras, saca? O único old school do Ratos é o Jão (guitarrista). Não gosto de ficar colocando o dedo na cara de ninguém.”

DROGAS E FILHOS

“Meus filhos são pré-adolescentes. Peço a eles todos os dias para que não sigam meu mau exemplo. As drogas ferraram com tudo, não dá para negar isso. Nunca cheguei a ir para a Cracolândia, com crack na mão e cobertor nas costas, sabe? Mas cheguei, sim, ao fundo do poço. Nunca precisei me internar para parar de cheirar. No entanto, usei muito pó, muito mesmo. Me afetou? Lógico. Teve uma época em que era broxa, não conseguia fazer sexo. Estava gordo para caramba. Pó só combina com cigarro e álcool. Mais nada. Farinha não combina com mulher. São águas passadas. O período mais turbulento foi de 1986 a 2000. Há males, no entanto, que vêm para bem. Tive uma overdose em janeiro de 2000 e decidi parar. Logo na sequência, no entanto, saÍ para uma turnê mundial com o Ratos de Porão e enfiei o pé na jaca de novo. Pesava 200kg. Aliás, era uma jaca de tão gordo que estava. Tive outra overdose. Daí a Vivi (Viviana Torrico), que hoje é minha mulher, resolveu se declarar para mim quando estava no hospital. Nós nos casamos e hoje temos dois filhos: Victoria e Pietro. A partir daquele momento, as coisas começaram a entrar nos eixos.”

FAMÍLIA


“Meu pai era militar. Para completar, tomava remédios psiquiátricos. Ele não tinha controle das coisas que fazia. Então, a linha dura dele era triplicada. Pensa num sargento da Polícia Militar, tá ligado? Honesto pra caramba. Naquela época, na década de 1970, não tinha tanto policial corrupto como tem agora. A honestidade dele, portanto, doía na alma. Ele queria as coisas certas e nos devidos lugares. Levei muito tapa na cara. Era normal tomar tabefe dos pais. Cheguei a apanhar de fio de ferro. Hoje em dia, isso é inadmissível, não entra nas nossas cabeças. Se o pai espanca o filho, ele vai lá na delegacia e faz uma denúncia.”

GORDOFOBIA

“O rock me salvou de muitas coisas. Eu era o gordo tosco da rua, o gordo estranho da escola, o gordo babaca de casa. É f... ser gordo. O gordo é sempre o último a ser escolhido no futebol para ficar no gol. Nenhuma menina quer ficar com o gordo esquisito. A gordofobia está implícita em todos os lugares. Dentre todas as minorias, o gordo é o mais zoado. Eu tinha uns apelidos estranhos. Os caras me chamavam de Tomate Pelado, de Jarrão do Ki-Suco e até de Quina da Loto – um saco grande e gordo de um comercial da Caixa (Econômica Federal) que passava na televisão. O gordo é a escória da escória. O gordo foi institucionalizado como símbolo oficial do bullying. Todo mundo tem medo de dizer isso, mas é verdade.”

KURT COBAIN

“Mostrei uma montanha de drogas para o Kurt Cobain em São Paulo, quando o Nirvana veio tocar no Hollywood Rock, em 1993. Ele cheirava como um louco, cara. Mandava com as duas narinas como nunca vi ninguém fazendo na vida. Tem também uma outra história que não saiu no livro. Uma vez, os caras do Alice in Chains vieram fazer show aqui e fui com eles arrumar cocaína na casa de uma amiga, na Rua Pamplona, no Centro (de São Paulo). Quando a gente chegou lá, compramos baldes e mais baldes de coca. Eles pagaram em dólar.”

MTV

“Foi a melhor época da minha vida. Fiz vários programas. Tive a oportunidade de entrevistar gente legal no Gordo a go-go. Muita gente deu risada quando perguntei para o Padre Marcelo se ele acordava de p... duro. Problemas mesmo só com o Dado Dolabella e uma socialite de segunda categoria, de cujo nome nem me lembro. Ela fazia festas para cachorro. O clima esquentou antes do programa começar.”

VIVA LA VIDA TOSCA

.  De André Barcinski
.  Darkside
.  320 páginas
.  R$ 59,90

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