Ganhador do Jabuti com uma adaptação de 'Hamlet', escritor Rodrigo Lacerda apresenta uma prosa leve para um clima pesado

Autor utiliza a leveza e o humor ao escrever romance para os jovens sobre os efeitos das mudanças climáticas no mundo

por Carlos Marcelo 25/11/2016 09:12

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As imagens e os relatos da destruição em Nova Orleans depois da passagem do furacão Katrina ganharam o mundo em 2005. Um aspecto chamou a atenção do escritor Rodrigo Lacerda: a explosão de violência quando milhares de desabrigados foram reunidos em um estádio.

Rodrigo Lacerda/Divulgação
Rodrigo Lacerda, autor de Todo dia é dia de apocalipse: "Quando escrevo para jovens, tento fazê-lo de maneira menos rebuscada" (foto: Rodrigo Lacerda/Divulgação)

“Lá, sem luz, com pouca água e comida, em poucos dias grupos se formaram, assaltando, agredindo e violentando as pessoas”, lembra Lacerda. “Fiquei muito impressionado com a velocidade com que nós humanos regredimos quando privados das condições de vida que conhecemos.”

O escritor carioca conta que, desde aquele episódio, passou a avaliar as ameaças climáticas no planeta em uma nova dimensão, “não apenas a de sobrevivência da espécie, mas a de preservação da própria humanidade”.

 

Lacerda, então, pesquisou sobre os riscos provocados pelas alterações no meio ambiente até considerar o tema adequado para um romance direcionado aos jovens. Todo dia é dia de apocalipse é um lançamento da editora FTD.

 

Com leitura prioritariamente voltada para estudantes, o livro dribla o ranço didático graças às ilustrações criativas de Mariana Valente e à prosa fluente e bem-humorada de Lacerda, autor de outro bem-sucedido romance juvenil, o poético O fazedor de velhos (2008).

 

Também tradutor e editor, Rodrigo Lacerda acaba de ganhar o Jabuti de melhor adaptação por Hamlet ou Amleto? (Zahar), forma sagaz de apresentar uma das obras mais conhecidas de Shakespeare às novas gerações. Confira, a seguir, uma entrevista por e-mail com o escritor.

“Há uma estranha beleza, e um senso de justiça, em ver que mesmo a espécie mais prodigiosa da natureza não tem sua sobrevivência garantida.” Esse trecho de Todo dia é dia de apocalipse ajuda a compreender sua motivação para escrevê-lo? Acho que minha consciência ecológica passa por uma destituição da humanidade como espécie acima das demais. Somos tão frágeis como todas as outras, e igualmente “animalescos”, muito embora nos sintamos capazes não só de alterar as condições de vida no planeta e de extinguir ou salvar essa ou aquela espécie. Temos programações biológicas, além de condicionantes históricas e econômicas, que nos fazem explorar os recursos naturais de forma desordenada. Precisamos combater isso, mas a melhor forma de fazê-lo não é ignorando-o, a meu ver, e sim admitindo-o. Somos animais, e nossa razão não basta para negar essa condição. Nesse sentido, sim, acho que a frase resume um pouco o que penso.

As mudanças climáticas não entram na lista dos temas discutidos diariamente pelos brasileiros. Levar o assunto aos jovens, por meio da literatura, pode ser um caminho para trazer à tona a discussão, ainda mais quando os EUA elegem como presidente Donald Trump, que chama de “farsa” o aquecimento global?

 

Precisamos exigir que nossos líderes levem em conta a questão ecológica em seus planos de desenvolvimento, em seus projetos de país. Crescer como fez a China, de forma tão ecologicamente irresponsável que agora tem o ar de suas maiores cidades irrespirável, é resolver apenas metade do problema. Ou como fez o Brasil nos últimos anos, que também cuidou muito mal do assunto. A eleição de Donald Trump é um desastre nesse sentido. Espero que o livro ajude os jovens a ver isso. Mas não podemos imaginar que iremos resolver o problema lutando contra o desenvolvimento científico e tecnológico, pelo contrário, precisaremos de mais tecnologia e de muita ciência para resolvê-lo, e nesse sentido precisaremos do capital e das grandes empresas. Temos de atraí-los para a causa, e não combatê-los, com ou sem Trump e equivalentes.

Você consegue traçar uma comparação entre o novo livro e seu outro romance juvenil, O fazedor de velhos?

Acho que os dois protagonistas – Pedro, de O fazedor de velhos, e Ziggy, do novo livro –, têm uma inquietação que é semelhante. Ambos sentem-se incompletos e buscam respostas para questões relacionadas ao que eu poderia chamar de uma ética humanista. E para ambos, o amor que leva duas pessoas a unirem seus destinos, uma espécie de evangelho da gentileza em relação aos semelhantes (embora não necessariamente de base religiosa), a comunicação entre os diferentes, são valores a serem resgatados e preservados contra todas as ameaças que o mundo contemporâneo lhes impõe.

O que muda na sua linguagem quando escreve um romance juvenil?

Na verdade, quando escrevo para jovens uso a minha linguagem mais natural, a que uso no meu dia a dia. Não simplifico o que quero dizer, mas tento fazê-lo de maneira menos rebuscada, mais espontânea, sem grandes pretensões formais. Além disso, procuro tratar de temas sérios com leveza, com humor, aproximando meu leitor da história e dos personagens, sem colocar obstáculos desnecessários. Até porque, eu, quando jovem, já era tão angustiado que não gostaria de me ver aumentando na vida dos outros o peso deste momento tão difícil da vida que é a adolescência.

Acredita que os defensores do meio ambiente ainda são tratados como avis rara no ecossistema nacional ou isso começa a mudar?
O Brasil é, como de hábito, estranho nesse ponto. O nosso Partido Verde não está na dianteira da luta pela inclusão da causa ecológica nos grandes projetos nacionais. Nas duas últimas eleições tivemos a Marina Silva, diretamente ligada à causa ecológica, como candidata à Presidência, mas a questão religiosa pesa contra ela justamente perante o eleitorado mais progressista. Então, as forças pró-ecologia brasileiras apresentam contradições. E realmente não vejo uma parcela do eleitorado colocando a questão acima de todas as outras, o que acho uma pena. Num país politicamente tão dividido e polarizado como o Brasil, a ecologia poderia muito bem servir de ponte, de objetivo comum a todas as forças, por mais que elas se enfrentem nos outros pontos em aberto da nossa sociedade.

Você acaba de ganhar o Jabuti pela adaptação Hamlet ou Amleto? (Zahar). O que foi mais difícil nesse trabalho? Como a obra de Shakespeare pode se comunicar com os jovens do século 21?

Sempre que me convidavam para fazer uma adaptação de alguma peça do Shakespeare, eu não me animava muito. Adaptar, no caso, seria contar a história com outras palavras, ou seja, não colocar o leitor em contato com a poesia dramática do Shakespeare, que é o que ele tem de melhor. Para piorar, não podemos esquecer que o Shakespeare usava histórias que já existiam antes dele, como a do Hamlet, que é uma lenda dinamarquesa do século 13. Em resumo, nas adaptações que existiam por aí, de Shakespeare mesmo não sobrava nada, ele era apenas o gancho comercial. Só me animei a fazer um Shakespeare para jovens quando vislumbrei esse livro meio híbrido, que combina um narrador ficcional, um diretor de elenco orientando um ator que irá interpretar o papel de Hamlet, uma tradução da peça fiel mas numa linguagem acessível, e um guia de leitura, que dê os subsídios históricos necessários para que as falas mais obscuras dos personagens se tornassem perfeitamente compreensíveis. Assim, aproximei o leitor jovem do texto original sem perder a força da poesia shakespeariana.

Todo dia é dia de apocalipse, mesmo tratando de um tema de grande seriedade, é pontuado pela leveza. Acredita que falta um pouco mais de humor na ficção contemporânea brasileira, ainda mais diante de tempos tão amargos?
Acho que senso de humor nunca é demais. Meus dois grandes autores da adolescência, Eça de Queiroz e João Ubaldo Ribeiro, são escritores maravilhosos, que tiveram todas as glórias da carreira, respeitados pelos críticos mais exigentes, e que nem por isso abriam mão do humor.

E na vida de um escritor no Brasil? Todo dia é dia de apocalipse?

Todo minuto é de apocalipse! Ao longo do dia, portanto, são 1.440 apocalipses.



“Num país politicamente tão dividido e polarizado como o Brasil, a ecologia poderia muito bem servir de ponte, de objetivo comum a todas as forças, por mais que elas se enfrentem nos outros pontos em aberto da nossa sociedade”


“Procuro tratar de temas sérios com leveza e com humor, sem obstáculos desnecessários. Quando eu era jovem, já era tão angustiado, que não gostaria de me ver aumentando na vida dos outros o peso deste momento tão difícil da vida que é a adolescência”


Todo dia é dia de apocalipse
De Rodrigo Lacerda
FTD Educação
80 páginas
R$ 40
Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos
Editora Zahar/Divulgação
(foto: Editora Zahar/Divulgação)
   

Adaptação da obra de Shakespeare
De Rodrigo Lacerda
Editora Zahar
296 páginas
R$ 44,90

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