Performance sobre afetividade e solidão marca Dia da Consciência Negra em BH

Danielle Anatólio encena hoje em BH a performance Lótus, em que busca refletir sobre as razões que levam a mulher negra brasileira a uma situação involuntária de "celibato definitivo"

por Márcia Maria Cruz 20/11/2016 11:24

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Lissandra Pedreira/Divulgação
Lótus estreou em Salvador, em julho, e hoje tem sua primeira apresentação na capital mineira (foto: Lissandra Pedreira/Divulgação)

Se a arte tem vocação para jogar luz sobre questões contemporâneas, fazendo provocações, a performance Lótus, com texto e direção de Danielle Anatólio, dialoga com tema dos mais prementes do nosso tempo. A atriz de 32 anos traz à cena o dilema das mulheres negras, grupo do qual faz parte, que vem conquistando visibilidade no debate público graças à sua atuação em redes sociais. “Falo da afetividade e da solidão de nós”, diz.

Embora a artista seja de Belo Horizonte, a performance estreou em Salvador e agora chega à capital mineira, na data dedicada à consciência negra. A estreia, em julho, aproveitou a efeméride do Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Danielle convida artistas dos locais onde se apresenta para participações especiais. A sessão desta noite, às 19h, no Tambor Mineiro, contará com a participação de Nívia Sabino e Benilda Brito.

Pela primeira vez escrevendo para o teatro, Danielle se inspirou no livro Mulher negra: afetividade e solidão, de Ana Cláudia Lemos Pacheco, e em poesias das escritoras Lívia Natália, Mel Adún e Cristiane Sobral. Se por um lado estabelece diálogo com outras artistas negras contemporâneas, Danielle tampouco se esquece da força da ancestralidade na cultura negra, propondo pontes com as yabás, que, nas religiões afrobrasileiras, são as orixás femininas. Iemanjá, que é a senhora das águas salgadas; Oxum, das águas doces; Iansã, dos ventos, e Nanã, das águas profundas.

Lótus é uma performance teatral que tem como ponto de partida a linguagem poética negra feminina, focando no fato de as mulheres negras serem “inviabilizadas pelo imaginário social”. “A performance trata de amor, superação, beleza e vida, isso dentro de um contexto de solidão. em que está inserida a mulher negra contemporânea, além de contar os caminhos que essas mulheres encontram para resistir e reexistir.”

INTERAÇÃO


A performance tem um momento de interação com o público, que é convocado a falar sobre essas representações. Durante o espetáculo, Danielle convida também os homens a refletir sobre a questão. Para construir a linguagem corporal, a performer recorre à escola do polonês Jerzy Grotowski (1933-1999) e aos movimentos de dança afro.

A artista quer chamar a atenção para estatísticas que mostram que as mulheres negras, embora tenham conquistado espaços em diferentes áreas da sociedade, ainda são as que menos efetivam as relações amorosas, permanecendo numa espécie de celibato definitivo. “Nos últimos anos, o número de mulheres negras solteiras tem crescido. Elas são graduadas, doutoras, inteligentes, bonitas, com independência financeira e de postura política declarada, mas, não diferentemente de suas ancestrais, continuam não sendo vistas como mulheres para casar.”

Para Danielle, é importante pensar o motivo de não haver ocorrido uma mudança nessa percepção, embora tenham sido ampliadas as posições das mulheres na sociedade.“Ser cortejada, amada, servida ou ser vista como rainha nunca foi um lugar ocupado pela mulher negra, que permanece sendo preterida”, pondera.

A intenção não é mostrar o casamento como ideal de realização da mulher, mas refletir acerca das razões pelas quais as mulheres negras são preteridas nos relacionamentos afetivos. Na avaliação de Danielle, há uma relação com a imagem de hipersexualização atribuída a elas em diferentes momentos da história do Brasil e perpetuada em representações midiáticas.

Lótus

Performance de Danielle Anatólio, com participação de Nívia Sabino e Benilda Brito. Hoje, às 19h, no Tambor Mineiro (Rua Ituiutaba, 339, Prado). Ingressos a R$ 20 (inteira) R$ 10 (meia, para mulheres negras).

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