Diário proibido de rapper preso em Angola deve ser publicado no Brasil

Escritos de Luaty Beirão burlaram a segurança do sistema prisional angolano em meio a jornais levados por visitas

19/11/2016 07:27

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Prisão de Luaty Beirão promoveu onda de solidariedade em diversos países; no Brasil, artistas como Mano Brown e Emicida aderiram aos pedidos pela libertação do rapper, que foi anistiado em junho

Há cerca de um ano, um músico angolano foi preso em Luanda por ler um livro. Detido pela polícia do regime do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) junto a outros 16 amigos que discutiam em grupo a obra Da democracia à ditadura, do cientista político americano Gene Sharp, o rapper Luaty Beirão deu início a uma greve de fome na cadeia, em protesto à condenação por "atos preparatórios para rebelião" e "associação criminosa". Durante 36 dias, tempo que resistiu sem comer, sua história correu o mundo em manifestações de solidariedade.

Foram petições, vigílias e manifestos de apoio – no Brasil, artistas como Mano Brown (um dos ídolos de Luaty), Emicida, Chico César, Maria Gadu, Gaby Amarantos, Negra Li, MC Marechal, Rincon Sapiência e Kamau aderiram à causa. Luaty ficou confinado até junho deste ano, quando o governo decretou anistia aos presos políticos.

Ao longo de todo este tempo, o rapper conseguiu burlar a vigília e escrever um diário, que ocupou dois cadernos. O primeiro ele conseguiu fazer sair do presídio em meio aos jornais levados pelas visitas. O segundo foi interceptado e perdeu-se. As 125 páginas do material que resistiu foram recém-lançadas em Portugal com o título Sou eu mais livre, então: diário de um preso político angolano (Tinta da China), que deverá chegar em breve ao Brasil.

SHOW
“A mente não gosta de estar desocupada”, comenta Luaty, por telefone, de Luanda, pouco antes de sair para o ensaio do primeiro show que faria depois da soltura. “Todo este caderno escrito abrange apenas poucos dias da prisão. Eu teria escrito muito mais, se deixassem.”

Neste Memórias do cárcere angolano, Luaty conta em detalhes o momento em que foi preso, a rotina na cadeia, as conquistas para si mesmo e os outros detidos, como o aumento da frequência dos banhos de sol e da ração de água semanal (quando chegou, tinha direito a apenas 1,5 litro de água a cada dois dias, para tomar banho, lavar pratos, talheres e roupas).

"Fui transportado de uma forma que me fez sentir como uma espécie de Hannibal Lecter meets David Copperfield: de noite, num minibus, dentro de um cubículo de metal que parecia um caixão na vertical, algemado e com meus parcos pertences amontoados aos meus pés", escreve ele.

Isolado na ''mombaka'', a solitária, no mesmo bloco dos homicidas e violadores, convivendo com ratos e baratas, Luaty conta que começou a greve de fome quase espontaneamente, ao recusar o "matabicho" (café da manhã) servido na prisão, com medo de ser envenenado. Até decidir interromper de vez a alimentação para chamar a atenção para as reivindicações do grupo. A um custo emocional arriscado, a tática deu certo.

Questionado sobre os perigos de expor num livro o sistema prisional do país, Luaty reflete: “Fomos anistiados sendo inocentes. Vamos continuar a expor o nosso sistema judicial. Não acho que seja mais perigoso o que tenho feito do que o que já fizemos antes. Quanto mais expomos, mais me sinto protegido, pois mais gente sabe o que ocorre em Angola. Vários países pressionaram pela nossa anistia”.

AVENIDA BRASIL
No diário, o rapper também compartilha as leituras feitas na prisão (devorou obras do conterrâneo José Eduardo Agualusa), faz reflexões existenciais e comentários musicais (há até um set inteiro de rap montado para uma futura mixtape), rascunha letras de rap e esboça um romance. Num trecho, comenta que, quando ouvia de longe o som da TV, sabia que era noite, pois os carcereiros assistiam à novela Avenida Brasil. Era o irônico som do kuduro da abertura que dava as horas a ele.

Também registra as músicas dos presos ("Já nos comeram a carne, estão a nos comer também os ossos/ queremos o dinheiro do petróleo/ é nosso"), e os "louvores de cadeia", estrofes cantadas em uníssono por um coro de mais de cem presos, o que o emocionava bastante.

“Todo angolano é artista. A falta de emprego, a necessidade de sobrevivência, a criatividade aqui é genética. Tudo virava kuduro. Eu pensei até em pedir as letras dos louvores, e assim as punha alinhadas em versos, e publicar este livro com um CD. Mas pá, os caras estão ali a sonhar em ser livres, não estão pensando nisso. Mas ainda quero voltar lá e fazer um documentário.” (Mariana Filgueiras; Agência Globo)

TRECHO

“Todas as manhãs, depois do matabicho, é hora das orações, normalmente girando em torno do tema do arrependimento. Parecem atribuir ao cigarro uma característica demoníaca da qual se devem afastar. Parecem muito engajados na sua reconversão... Até acabar a missa. Imediatamente a seguir voltam ao mercado de cigarros e entregam-se a animadas sessões de batucadas que em qualquer outra prisão do mundo seriam consideradas um ato de rebelião e travadas pela força. Acho isso bonito mesmo. É o momento em que se desfazem as desavenças”

Do livro Sou eu mais livre, então, de Luaty Beirão

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