Depois da passarela da SPFW, Emicida 'ocupa' eventos literários em Minas

Ao lado do escritor Ferréz, o rapper Emicida fala sobre as prosas periféricas no Sesc Palladium, em BH, e no Fórum das Letras, em Ouro Preto

por Márcia Maria Cruz 09/11/2016 09:20

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Montagem Estado de Minas/Reprodução Instagram
Emicida e Ferrez falam das prosas periféricas (foto: Montagem Estado de Minas/Reprodução Instagram)

Emicida colocou na passarela da São Paulo Fashion Week (SPFW) negros, mulheres gordas, homem com vitiligo e de black power. O desfile levou a internet à loucura diante da representatividade tão pouco usual no maior evento da moda brasileira. Com a mesma estratégia de trazer a periferia para o centro, o músico vem a Minas para dois eventos de literatura: hoje, às 20h, divide o Prosas Periféricas com escritor Ferréz, com a medição de Érica Peçanha, especialista em literatura marginal, e na quinta, às 19h30, o trio faz a abertura do Fórum das Letras em Ouro Preto, no Cine Teatro Vila Rica. “Se a história é nossa, deixa que ‘nóiz’ escreve”, diz, parafraseando o rapper Renan Inquérito.

Apesar de conquistar espaços, como a passarela do SPFW e eventos literários, Emicida considera que a visibilidade dada à produção da periferia ainda não é ideal. “Carolina Maria de Jesus deu alguns passos, outras pessoas deram outros. Acredito que todos eles olham lá de cima com muita alegria o que vem sendo construído”, diz. Ele lista alguns desbravadores: Sérgio Vaz, Lewis Barbosa, Luz Ribeiro, Renan Inquérito, Mel Duarte, Marcelino Freire, Ni Brisant e Rodrigo Círiaco. “Eles têm feito com que novos olhares recaiam sobre a produção intelectual que acontece fora da bolha do que é considerado relevante em nossa literatura.”

O corre, como pode ser dito na linguagem das ruas, possibilita que “as pessoas, principalmente pelas margens da cidade, se encontrem na leitura, sintam que a literatura é delas e para elas também e ainda compreendam que a história oficial precisa trazer mais de nós.”


As meninas e meninos da periferia encontraram possibilidade de ter voz no hip-hop, nos saraus e nas batalhas de MCs. “Num país onde o que é considerado arte e cultura está condenado à prisão perpétua dos teatros municipais e galerias, sem direito à visita, principalmente dos pobres, essas pessoas, nos saraus e nas batalhas de MCs, estão resolvendo um problema que não foram elas que criaram, que é anistiar essa indefesa refém dos medíocres: a arte.”

Zé Takahashi/Divulgação
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)

Moda
Dentro da lógica de ocupar, ter voz e fazer por si, a experiência de Emicida com o irmão Fióti possiblitou a criação da LAB, marca que se apresentou no SPFW. “Toda a nossa história gira em torno de criar uma atmosfera em que todos se sintam parte daquilo, esse é o significado de “ubuntu”, é o que queremos fazer em todos os lugares por onde passamos. Então, essa ideia começou muito antes de pensarmos em ocupar o SPFW esse ano.”

Nas redes sociais, o desfile foi muitíssimo elogiado e festejado. No entanto, algumas pessoas levantaram questionamento em relação aos preços das peças, que não estariam de acordo com o padrão de consumo dos moradores de favelas. “A coleção tem tido uma aceitação incrível, foi um golaço, e a gente nem colocou a campanha na rua direito ainda, tudo isso é só mídia espontânea do desfile, acho possível termos um soldout (venda de todo o estoque) ainda em dezembro se Oxalá permitir. Seria um ótimo presente de Natal.”

Ele avalia que as críticas na redes sociais venham de trolls que desconhecem o trabalho. “É importante que as pessoas se lembrem de que preto e pobre não são sinônimos. Essa é a primeira coisa que eu gostaria de lembrar a todos. A segunda é: o fluxo está fervendo na quebrada e os meninos estão com Mizuno de R$ 1 mil no pé. Sério que esse questionamento da exclusão deve começar pela LAB, que tem como produto mais caro uma peça de R$ 329?”, provoca.


Emicida também pondera que os preços das peças são colocados levando em conta a remuneração justa de toda a cadeia produtiva. “Acredito e me esforço junto com toda a Laboratório Fantasma para fazer com que o comércio seja mais equitativo, ou seja, que a tiazinha que está costurando lá na Brasilândia esteja recebendo algo satisfatório para participar disso.” Ele ressalta que muitas dessas pessoas que argumentam em prol do “preço baixo”, como único ponto a se observar, “nem percebem que são financiadoras do lado mais obscuro da indústria, que são os trabalhadores em condições análogas à escravidão.” “Se essas pessoas conseguem colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente quando pagam R$ 9,90 em uma peça de qualidade questionável, sabendo da probabilidade de algo estar errado nesta cadeia para o lado dos trabalhadores, eu não consigo.”


Literaturas: questões do nosso tempo - Prosas Periféricas
Bate-papo com Ferréz e Emicida. Hoje, às 20h, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Entrada franca, com retirada de ingresso 2h antes do evento.

Abertura oficial do Fórum das Letras - Prosas Periféricas
Amanhã, às 19h30, no Cine Vila Rica (Praça Reinaldo Alves de Brito, 47, Centro, Ouro Preto). Entrada franca.

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