Marcelo Gleiser lança 'A simples beleza do inesperado' no Sempre um papo em BH e Araxá

Em novo livro, físico recorreu ao seus tempos de menino para abordar complexas questões existenciais

por Pedro Galvão 26/10/2016 20:03

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"Para a truta que não peguei e a equação que não resolvi.” A esses dois elementos o físico Marcelo Gleiser dedica A simples beleza do inesperado, que terá lançamento hoje, em Belo Horizonte, e amanhã, em Araxá, no projeto Sempre Um Papo.

Eli Burakian/Divulgação
Marcelo Gleiser é um dos físicos mais respeitados do país (foto: Eli Burakian/Divulgação )
 

Com gabaritada carreira internacional na área do conhecimento, o carioca de 57 anos é referência em física, com trabalhos desenvolvidos na Universidade Darthmouth College (EUA) e em filosofia, sendo membro da Academia Brasileira de Filosofia desde 2007. Além disso, é famoso por suas participações no Fantástico (Globo) e pelos artigos de divulgação científica publicados em grandes jornais e revistas brasileiros.


Mesmo diante de uma trajetória tão rica na ciência, que já havia rendido outros oito livros publicados, nessa última obra o físico recorreu ao Marcelo ainda menino para abordar complexas questões existenciais cujas respostas não puderam ser encontradas apenas com a exatidão dos cálculos e teorias sobre a matéria.

Quando criança, o autor costumava ir pescar nas águas de Copacabana para suprir o que define como uma necessidade de solidão que tinha. Já adulto, no exterior, conheceu a pesca fly, técnica com iscas artificiais rara por aqui, mas comum nos Estados Unidos para a captura do salmão e da truta. A prática é justamente a metáfora usada por Gleiser na construção do livro recém-publicado.

“O Marcelo criança é um símbolo para o leitor do resgate da nossa essência, de quem somos no nível mais profundo, o que costumamos esquecer diante dos compromissos e cobranças da vida adulta”, afirma. A caminhada filosófica de autoconhecimento está diretamente ligada a uma reinterpretação da natureza. Nesse processo, a pesca entra como figura de linguagem perfeita na visão do autor, por ser uma ligação objetiva e elementar do homem com o meio ambiente na descoberta do novo, através do instrumento que é o conjunto formado por vara, linha, anzol e isca.

“Que fique claro que não é um livro sobre pesca! É sobre o nosso resgate do tempo, nossa relação com nós mesmos e com a natureza. A pesca é um portal para o mundo natural, uma maneira de obter momentos atemporais, quando você vai pro rio e a água corre, a vida meio que para, tudo se transforma naquele momento, pouca gente abre esse espaço na vida moderna”, diz.

ANZOL A conexão criada pela linha e o anzol serve, na verdade, para o autor fisgar ideias, valendo-se de todo o arcabouço astrofísico que domina. Kepler, Copérnico, teorias que explicam a gravidade, a velocidade da luz e o Big Bang estão presentes no discurso de Gleiser, entre pescarias e trabalhos científicos, na busca por uma percepção mais apurada da magnitude do mundo ao redor.

Conhecido por sua postura naturalista, Gleiser levanta novamente questionamentos sobre as barreiras que as religiões representam para a compreensão da mecânica do universo e da natureza. Ao fim de tantas reflexões, ele arremata o conjunto de ideias com um manifesto sobre os danos que nosso estilo de vida, distante da simples beleza do inesperado, trazem para o meio ambiente e, consequentemente, para nós mesmos, dentro desse modelo destrutivo de exploração da Terra e de consumo exacerbado.

Como sugere o título, o livro é “um convite ao leitor a celebrar esses momentos que deixamos passar por achar que é tudo uma obra de Deus, ou mesmo por questões do trabalho e das dificuldades que a vida moderna nos impõe”, resume o autor.

 

Três perguntas para...
MARCELO GLEISER - físico e escritor

1) O que é a simples beleza do inesperado?
Construo essa imagem de que na vida da gente ocorrem surpresas. Isso é o inesperado: uma pessoa nova que você conhece, uma coisa que você não aguardava, nem que seja estar andando com sua namorada e perceber o pôr do sol, que é extremamente importante naquele momento. São coisas que redefinem os caminhos que tomamos. Muita gente tende a atribuir às obras de Deus ou a coisas meio sobrenaturais e, ao fazer isso, elas acabam deixando de apreciar a beleza daquele momento pelo que ele realmente é.

2) Em um país extremamente cristão, a religião se torna um obstáculo na percepção dessa simples beleza do inesperado?
A religião tem um papel enorme na sociedade moderna, não só aqui, onde estamos vendo uma evangelização muito grande. Isso ocorre porque ela dá um senso de comunidade. Se você pertence a uma igreja, ela se torna sua tribo e nós somos seres profundamente tribais. As igrejas dão um senso de identidade, a ideia de pertencer a um grupo, e as pessoas procuram isso, porque se sentem sozinhas, sem rumo, sem inspiração para a vida. O caminho da religião é outro. Na minha obra, tento colocar um caminho diferente, um caminho espiritualizado, porém vindo da nossa relação com a natureza, sem um dogmatismo religioso, com essa compreensão de quem somos em um universo muito maior que nós, mas que ainda somos importantes nele. Se meu movimento pregasse, ele criaria seus próprios grupos, sua própria maneira de pensar, porque muita gente pensa assim, só não tem a forma de pregar nem aquilo escrito em um documento sagrado. Meu templo é o mundo, a natureza onde nos encaixamos, de onde viemos como animais, como seres. As pessoas esquecem a relação com o mundo natural e preferem acreditar numa coisa improvável a acreditar nelas mesmas, e isso me deixa muito sentido, porque as pessoas deixam de ter fé nelas mesmas para ter fé em coisas distantes e impalpáveis. Ao fazer isso, deixam de se alinhar ao mundo para transformá-lo em um lugar melhor. Na atitude religiosa existe uma passividade em relação ao mundo “estou com Deus, então está tudo bem”, mas precisamos de um serviço muito maior, fora da igreja, na sociedade como um todo. Não precisamos de mais tribos, precisamos de uma tribo única, uma tribo humana que enxergue o futuro único da nossa espécie.

3) Atravessamos um período conturbado na educação no Brasil, com propostas de cortes no orçamento e reformas polêmicas na estrutura do ensino médio. Considerando o ensino da física e de outras áreas da ciência, como avalia o momento da educação brasileira e que sugestões tem para que ela evolua?
Um dos problemas do modelo brasileiro é que o ensino da ciência não expõe a criança à natureza. É um modelo antiquado de achar que ciência se aprende só na sala de aula, sem contatos com o mundo exterior. Os alunos devem estar nem que seja numa pracinha, olhando para o céu, para as nuvens e para o Sol, pois é lá que se aprende ciência. É ali que o aluno entende que aquilo não é o bicho de sete cabeças no quadro-negro e percebe que tudo é apenas uma explicação dentro da razão humana. Outro ponto importante é não limitar o ensino a uma coisa técnica, tem que ser multidimensional. Na sociedade moderna, que forma pensadores e seres questionadores, ninguém pode saber só letras, só exatas ou só física. A pessoa tem, sim, que se especializar, mas deve saber pelo menos um pouco de tudo. Só assim pensaremos criticamente nos desafios que temos no mundo.

 

 

SEMPRE UM PAPO

Com Marcelo Gleiser.
Hoje, às 19h30, no Auditório da Cemig (Avenida Barbacena, 1.200, Santo Agostinho). Amanhã, às 19h30,
na Uniaraxá (Avenida Ministro Olavo Drumond, 5, São Geraldo, Araxá).
Entrada franca para ambos.

 

• A simples beleza do inesperado
• De Marcelo Gleiser
• Editora: Record
• 136 páginas
• R$ 39,90

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