Coreógrafo Benoit Lachambre ministra oficina em Belo Horizonte

Público é convidado a participar de performances criadas pelo artista, que vai participar do FID, em novembro. Troca de energia e improviso são a base de seu trabalho

por Márcia Maria Cruz 22/10/2016 11:40

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Leandro Couri/EM/D.A PRESS
%u201CEspaço é corpo. Se você muda o espaço, você muda o seu corpo. Se você muda o seu corpo, você muda o espaço%u201D, diz Lachambre (foto: Leandro Couri/EM/D.A PRESS)

O corpo do coreógrafo canadense Benoît Lachambre desenha os movimentos seguindo o fluxo da energia, chama o espectador para participar das performances e demonstra que a dança é, inevitavelmente, resultado da interação não apenas entre bailarinos, mas com todos ao redor. Ele derruba barreiras criadas entre quem assiste e quem executa os movimentos, convocando a todos para a troca de energia. O espaço deixa de ser uma ideia física para se transformar em organismo com o qual se interage.

“Espaço é corpo. Se você muda o espaço, você muda o seu corpo. Se você muda o seu corpo, você muda o espaço”, diz Lachambre. Aos 56 anos, o coreógrafo aposta na força da interação entre bailarinos e espectadores. Em novembro, ele se apresenta no Fórum Internacional da Dança (FID), em Belo Horizonte.

Ele veio à capital ministrar a oficina Corpos, ligações e formas de percepção no projeto Em residência dança, atividade formativa desenvolvida pelo Sesc Palladium. O trabalho será encerrado hoje. “As pessoas estão respondendo muito bem. Exploro muito a energia, aquela que há entre nós. Isso é bastante cansativo”, afirma.

Uma de suas metas é despertar os bailarinos para a potência da bioenergia. “O espaço interno é o nosso espaço externo. Se você expande sua energia externa, você expande sua energia interna”, explica, lembrando que o trabalho segue o fluxo do interior para o exterior.

A improvisação é essencial na construção de Benoît. “Uso as principais instruções para improvisar. Os espectadores vêm comigo. Interajo com as pessoas e elas comigo. Faço atividades de performance específicas nas peças, mas o mais importante é essa relação”, explica.

O resultado são performances diferentes a cada apresentação, tanto para o espectador quanto para o coreógrafo. “Gosto de ser surpreendido”, diz. O público é convidado a interagir. Benoît explica que, em alguns trabalhos, ele pensa três momentos: meia hora com um grupo de 20 a 25 espectadores; 15 minutos com outra turma, mais reduzida; e 90 minutos, quando os dois grupos se encontram e recebem mais pessoas, podendo chegar a 100.

“O trabalho existe porque as pessoas tocam em mim em alguns momentos da peça. Elas podem tocar qualquer lugar do meu corpo, com exceção dos genitais”, diz Benoît. Ele se lança nesse jogo sem medo ou controle. “Se me tocam de maneira forte, está tudo bem. Eles podem fazer isso. Mas peço para que o façam de maneira suave. Se a pessoa me tocar forte, não poderá ler o movimento, a intenção. Para mim, isso é a dança. Quando sou tocado, amo a dança.”

VÍNCULOS Próximo da dança contemporânea brasileira, Benoît desenvolveu parceria e amizade com Adriana Banana, criadora do FID, desde 1993. “Ela é muito interessada na concepção e ideologia dos movimentos. Na dança, pessoas como Adriana e eu nos fazemos muitas questões: por que estamos fazendo isso? É necessário fazer? O que podemos fazer para envolver mais as pessoas? O que podemos fazer para transformar?”, diz Benoît.

Em abril, ele participou de performance Ghost telephone, na Art Gallery NSW, em Sidney, na Austrália, quando tratou da questão da ancestralidade. Quando recebeu a reportagem, Benoît usava dois colares. Depois de falar de experiências xamânicas em sonho, contou que as peças foram feitas por descendentes de tribos indígenas no Canadá. Benoît diz que o aspecto espiritual é importante para a concepção de seus trabalhos. “Sou o 11º filho e a 13ª gravidez da minha mãe, o último. Meu irmão mais velho fez a passagem há um ano e meio. Mas, antes dele, seis irmãos e irmãs morreram ainda bebês. Há muitos fantasmas em minha vida. Danço essas experiências”, revela.

A essa vivência ele incorpora elementos sonoros e movimentos inspirados em tribos do Canadá. “O país tem política de proteção aos indígenas, o que é bom, mas ainda insuficiente, como em todos os lugares”, conclui.

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