Exposição ComCiência no CCBB provoca atração e repulsa nos visitantes

A australiana Patricia Piccinini cria seres hiper-realistas que fascinam e despertam medo. Proposta é questionar a relação entre humanos, animais e máquina, passado e futuro

por Walter Sebastião 12/10/2016 10:30

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Euler Júnior/EM/D.A Press
A artista Patricia Piccinini e o curador Marcello Dantas conversam com o público nesta quinta-feira, às 19h30 (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)

A exposição ComCiência, que a artista plástica australiana Patricia Piccinini apresenta no Centro Cultural Banco do Brasil, até tem desenhos, vídeos e pinturas. Mas são esculturas e instalações criadas a partir de criaturas, ao mesmo tempo simpáticas e esquisitas, postas em ambientes domésticos, ao lado de crianças, que roubam a cena. E a mistura de hiper-realismo e surrealismo vem fazendo o sucesso da mostra. Trata-se de um olhar sobre as interações entre humano, natureza e máquina, interrogando, de forma delicada, sobre o presente e o futuro.


“O que eu gostaria é que as pessoas experimentassem o sentimento de fascínio e, às vezes, também de repulsa que as obras trazem. Entre o encantamento e a rejeição existe um espaço onde as pessoas podem se alojar, se emocionar e pensar sobre as obras”, argumenta Patricia Piccinini, registrando o sentimento paradoxal que as esculturas despertam. “São personagens inspirados na natureza”, explica. A artista evita nomes, biografias, explicações etc., já que, para ela, o mais importante é a conexão que as imagens estabelecem com o espectador.

Euler Júnior/EM/D.A Press
A obra O tão esperado sintetiza a linguagem da artista e critica a intolerância à diferença (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)
De acordo com Patricia, essa conexão a motivou a criar obras com linguagem direta, que não exigem conhecimento de arte, intimistas e em escala humana (“nada de gigantismo”, observa). “São criaturas estranhas, mas que provocam empatia”, acrescenta, registrando calculado balanço entre afeto e medo, o conhecido e o desconhecido, o real e irreal. “Por isso, absorvem muitos temas da vida contemporânea”, explica. “Mostro situações felizes, mas que produzem conflito na nossa cabeça pela dificuldade que temos de lidar com as diferenças”, observa, sinalizando que são trabalhos que aceitam olhar de crítica à intolerância e à xenofobia.

Fantasias e fantasmas trazidos pela engenharia genética também constituem intertextos das obras. “Não julgo a tecnologia, pois ela faz parte da nossa vida e é o nosso futuro”, conta. “Sempre mudamos a natureza ao nosso redor, agora de forma mais profunda e intensa”, observa. A artista considera que a tecnologia pode ser aliada na luta em defesa do meio ambiente. E afirma que a questão ambiental é um tema pensado especialmente para os jovens, pois o que está em questão é o futuro deles.

“Os temas que estou tratando não são simples”, justifica Piccinini. “O que define o que é natural e artificial? Como nos relacionamos com o que é diferente? Que transformações estamos produzindo na natureza? Essas são questões que me interessam”, afirma. “Busco imagens que coloquem para o público questões complexas”, diz, explicando que os trabalhos são produtos de desenhos, leituras e pesquisa. “É um trabalho figurativo, mas, na essência, conceitual, já que tudo começa na minha cabeça”, conta, avisando que o realismo é só uma pequena parte da proposta.

Para Patricia, trata-se, ainda, de uma linguagem que alude ao realismo social dos anos 1920, especialmente autores que pontuaram o elemento dramático do cotidiano. “Me identifico também com certos aspectos do surrealismo, como a abertura para o improvável e para a dimensão do extraordinário”, acrescenta. O sucesso no Brasil (onde a mostra foi vista por 1 milhão de pessoas) deve-se “talvez por ser um lugar de coração mais aberto e com mais facilidade de aceitar as suas emoções”. Ela suspeita, ainda, que a forte presença da natureza cobra mais reflexão sobre o tema do que em lugares onde tal aspecto não tem a mesma potência.


ComCiência
Exposição de esculturas, desenhos, vídeos e instalações de Patricia Piccinini, com curadoria de Marcello Dantas. Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários (31) 3431-9400). Até 9 de janeiro. Entrada franca.


Amanhã, às 19h30, a artista Patricia Piccinini e o curador Marcello Dantas conversam com o público.

Três perguntas para...

Marcello Dantas, curador


Pode falar do que mais gosta na obra de Patricia Piccinini?

Ela é uma artista que consegue como poucos explorar possibilidades conceituais do encontro da arte com a ciência e, ao mesmo tempo, produzir um conteúdo marcante, emocional e denso, com elementos biográficos, pessoais e humanos. Patricia explora um processo de rejeição e aceitação que é o cerne do conflito dos nossos tempos e escancara alguns dos nossos medos coletivos diante dos nossos olhos, como o fim da nossa espécie como a conhecemos, da transformação do nosso olhar e do reconhecimento de nossa fragilidade diante da nossa mente. Acho Long awaited (O tão esperado) uma obra que vai ficar no imaginário por muitos e muitos anos.

A que você atribui o sucesso de imaginário contemporâneo ligado a monstrinhos (como Pokemon, Digimon, criaturas de desenhos animados, videogames etc.)?
Esse é o aspecto mais superficial da obra, quem só vê o monstrinho não viu nada ainda. Por outro lado, sim, estamos todos perseguindo monstros porque, no fundo, sabemos que nossa espécie é frágil diante do desafio genético. E os monstros têm um futuro grande. As pessoas sabem que esses monstros representam uma nova fronteira da nossa existência. Já estamos fazendo isso com as plantas, com os animais e a próxima fronteira seremos nós mesmos.

Qual o maior prazer e o maior problema quando se organiza exposição de artistas internacionais no Brasil?

Adoro construir públicos para artistas que o grande público desconhece. Adoro conectar culturas e poéticas que pareciam dissociadas. Fiz isso com grandes artistas de várias partes do mundo. O problema é sincronizar os tempos ansiosos do Brasil e os tempos mais alongados do exterior.

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