Livro conta como surgiu o movimento punk em São Paulo

Obra do escritor Marcelo Rubens Paiva e do músico Clemente Nascimento mostra como jovens da periferia injetaram som e fúria no rock nacional

por Agência Globo Agência Estado 09/10/2016 10:00

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Joedson Alves/Estadão Conteúdo - 7/9/00
No início da década de 2000, punks engrossavam as passeatas de protesto contra o FMI (foto: Joedson Alves/Estadão Conteúdo - 7/9/00)

Ainda menino, Clemente Tadeu Nascimento, que morava com a família no Bairro do Limão, periferia de São Paulo, fez uma descoberta que daria direção a sua vida: ele não era parente nem de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, e tampouco de Milton Nascimento – ídolos negros de um país em que parecia só haver brancos sob os holofotes. Seu destino estava traçado em algo que, a rigor, nem existia naquele começo de anos 1970 e, além disso, parecia vetado a jovens de sua cor: o punk rock.

Fundador de uma das primeiras e mais importantes bandas do punk brasileiro, o Inocentes, Clemente, de 53 anos, conta a sua história (e a de seus companheiros de música e brigas) em Meninos em fúria, livro feito a quatro mãos com o escritor Marcelo Rubens Paiva, de 57.

Antes da fama súbita com Feliz ano velho (1982), em que relatou suas experiências como jovem que ficou paraplégico aos 20 anos, Marcelo era um dos universitários que buscavam uma aproximação com os punks da periferia paulistana – meninos que, como Clemente, dividiam seu tempo entre bailes em que ouviam rock pesado, de garagem, e as batalhas (com canivetes e pedaços de paus) contra as gangues de outros bairros.

“Se os americanos ou os ingleses não tivessem inventado o punk, nós, da Vila Carolina (bairro vizinho ao Limão, onde Clemente estudava), inventávamos”, escreve Marcelo, dando voz ao velho amigo, que interfere na narrativa com trechos em primeira pessoa, escritos para uma autobiografia nunca terminada.

“Nos shows punks, a gente ficava disputando quem ia cuidar do Marcelo. A gente não sabia quem ele era, só que era um cadeirante muito doido”, comenta Clemente, com o humor de sempre. Passados mais de 30 anos – ele hoje se divide entre as bandas Inocentes e Plebe Rude –, acaba de lançar seu primeiro álbum solo e apresenta programas no rádio e na internet.

Meninos em fúria segue Clemente na descoberta do rock, nas muitas tretas entre as gangues – cenas que não ficariam nada a dever às de The warriors (Os selvagens da noite), filme americano de 1979 que o garoto viu inúmeras vezes –, na consolidação de uma cena punk paulistana (por volta de 19a2), na sua rápida dissolução e nos tempos ruins que vieram depois.

Pelas páginas passam figuras da turma punk da Vila Carolina como Kraneo (negro, foi para o hip-hop, converteu-se ao islã e assassinado depois de apartar uma briga na boate em que era segurança) e Tiozinho, que virou advogado.

PROTESTOS O vocalista e guitarrista dos Inocentes diz que é inevitável fazer paralelos entre o que os garotos punks viveram em sua época e o que vivem hoje os jovens que enfrentam a polícia em protestos. “Hoje, você tem um acirramento dos conflitos. Na nossa época, tudo era mais claro, o Brasil vivia sob o regime militar. Agora tudo é mais confuso. Existem ações da Justiça e do Estado que são coincidentes com algumas da ditadura. O espírito da garotada de hoje ainda é jovem, de querer mudar e não se entregar, de lutar por aquilo que acha certo. Eles têm o mesmo romantismo e esperança que nós tínhamos”, afirma Clemente. (Silvio Essinger/Agência Globo)


O grito dos excluídos


No fim da década de 1970 e começo dos anos 1980, o Brasil vivia sob o regime ditatorial. As periferias, principalmente as de grandes cidades como São Paulo, não eram ouvidas. Os jovens pobres se viam cada vez mais à margem da sociedade e do pensamento cultural. Faltava sangue. O Brasil estava carente de um pulso musical vibrante, que pudesse dar voz aos excluídos.

“Quando o movimento punk surgiu no país, no início da década de 1980, as bandas passaram a fazer um som mais pesado. Isso foi reflexo do momento político que vivíamos. Até então, a grande influência do rock era a Blitz, de Evandro Mesquita. Eles transformavam crônicas cariocas em grandes hits. No entanto, muita coisa acontecia naquela época: greve no ABC e a luta contra a ditadura militar, por exemplo. O Clemente e Os Inocentes são símbolos disso. Eles deram a largada para a mudança”, afirma Marcelo Rubens Paiva.

Em 1981, os punks já lotavam shows nos subúrbios da capital paulista. Muitos festivais eram realizados por lá. As bandas Restos de Nada, Condutores de Cadáver, Ratos de Porão e Lixomania se apresentavam nas zonas Norte, Leste e Sul de São Paulo. No ABC, crescia o movimento operário. O punk rock se fortalecia na metrópole.

As gangues punks eram heterogêneas e de várias regiões da capital paulista. Embora tivessem o mesmo propósito, elas se enfrentavam duramente. Não existia paz. Pisar no território inimigo podia significar a morte. Aos 17 anos, Clemente se apaixonou por Elenice, uma garota mais velha. Ele fazia parte da gangue da Carolina. Mas ela, moradora da Vila dos Remédios, era da gangue Punk do Terror. Obviamente, não deu certo.

Passar a noite na cadeia era algo normal para aqueles jovens. “A gente brigava muito. Quase toda noite. Depois de um tempo, a coisa toda parou de fazer sentido. Começou a ficar mais violenta. Afinal, se tínhamos o mesmo propósito, por que brigávamos? Não estávamos chegando a lugar nenhum, a coisa não evoluía, não saía do lugar”, relembra Clemente.

PASSEATA A rua era o hábitat punk. Se o movimento surgiu no Brasil na década de 1980, anos depois, já no início da década de 2000, legiões de rapazes de cabelo espetado e cara enfezada se somavam a protestos contra o governo – e muito longe de São Paulo.

Em Brasília, a primeira marcha do Grito Latino-Americano dos Excluídos terminou em tumulto causado por punks encapuzados, que se uniram a manifestantes para pichar e quebrar a placa de identificação da Embaixada dos Estados Unidos. Eles criticavam a política neoliberal do governo, a interferência do Fundo Monetário Internacional (FMI) na economia brasileira e a injustiça social. (Estadão Conteúdo)


PÁTRIA AMADA
. Inocentes

Pátria amada, como pude acreditar
Em palavras vazias e promessas soltas no ar
Pátria amada, você me decepcionou
Quando eu lhe pedi justiça você me negou

Pátria amada!

Pátria amada, de quem você é afinal?
É do povo nas ruas?
Ou do Congresso Nacional?
Pátria amada, idolatrada, salve!
Salve-se quem puder

MENINOS EM FÚRIA
De Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento
Alfaguara
248 páginas, R$ 39,90

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