Em novo livro, Rodrigo Vivas analisa obras premiadas nos salões de arte de BH na década de 1960

Autor destaca a produção abstrata e a polêmica que opôs geométricos a informais

por Walter Sebastião 01/10/2016 10:00

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REPRODUÇÃO ABSTRAÇÕES EM MOVIMENTO
Cartaz (1966), pintura de Eduardo Vianna de Paula Filho, é um dos trabalhos premiados que pertencem ao acervo do Museu de Arte da Pampulha (foto: REPRODUÇÃO ABSTRAÇÕES EM MOVIMENTO)
Leva o nome de Abstrações em movimento – Concretismo, Neoconcretismo e Tachismo (Editora Zouk), o novo livro do historiador mineiro Rodrigo Vivas. É o segundo trabalho do autor que tem dedicado textos e pesquisas para investigar a produção de arte de Minas Gerais e suas conexões com o contexto nacional. O volume, como indica o título, se volta para a análise da aparição da abstração no Brasil, nos anos 1940, a partir dos prêmios concedidos aos artistas nos salões de arte de Belo Horizonte, hoje no acervo do Museu da Pampulha. O autor pontua dois aspectos dessa produção e seus desdobramentos: discute a polêmica que opôs geométricos e informais e investiga o contexto fora dos grandes centros metropolitanos (Rio de Janeiro e São Paulo).


A opção pelo material premiado pelo então Salão Municipal de Belas Artes (depois com o nome trocado para nacional e de arte contemporânea) e no Museu de Arte da Pampulha, como explica o pesquisador, vem do fato de essas instituições serem responsáveis pela visibilidade, legitimação e aquisição de obras de arte, além de, nos anos 1960, os salões passarem a contar com a participação de vários críticos de importância nacional. Para Vivas, essse conjunto de fatores “faz com que a situação encontrada em Minas Gerais seja a mesma nacionalmente”.


No contexto brasileiro, a abstração surge na esteira de gradual abandono da representação da realidade nacional defendida pelo movimento concretista e, em especial, pelas mãos de artistas nipo-brasileiros. O engajamento dos concretistas (organizado e alinhado a críticos e intelectuais) na articulação de uma vanguarda brasileira vai levar à oposição a chamada arte informal. O autor explica que esse movimento dialoga com a cena internacional e se ampara numa arte moderna, racional e que valoriza a noção de projeto.


Sem preocupação com organização coletiva, a arte informal defende uma linguagem mais intuitiva e não geométrica. O movimento concretista, então, acusa essa produção de ser alinhada a um modismo internacional. “E tudo que não se encaixa no discurso concreto e neoconcreto estava errado, é atraso ou é ignorado”, observa Vivas. O pesquisador observa que o debate dessa época tornou-se um dogma nos estudos arte brasileira, criando situação de exclusão de autores não alinhados ao movimento concretista. “Até hoje, na universidade, essa teoria dos anos 1950 se repete”, observa.


Vivas reconhece que não se trata de tirar o brilho da prática e da teorização dos concretistas, mas de revelar que, naquele período histórico, existem outras possibilidades com o mesmo valor das pesquisas geométricas. Ele cita a arte informal como exemplo. “Com sua valorização do gesto, enfatizando o processo de criação mais do que o resultado final, ela também é uma ruptura com concepções tradicionais da arte”, argumenta. “E há o caminho da desmaterialização, experimentação valendo-se de vários meios para criar arte a tal ponto que não se consegue mais definir o que é objeto”, acrescenta. Nos anos 1960, vários artistas mineiros têm obras importantes, em um ou outro caminho: Ildeu Moreira, Marília Gianetti, Maria Helena Andrés, Jarbas Juarez, Terezinha Soares entre outros.


Antes de publicar Abstrações em movimento, Rodrigo Vivas escreveu Por uma história da arte em Belo Horizonte. “Abstrações é uma mea-culpa. No primeiro livro também fiquei procurando influências do Concretismo e do Neoconcretismo. Agora, estou exercitando outro olhar”, observa. O crítico conta que está pesquisando sobre o século 19 para uma nova publicação, votada para “os pintores inaugurais” de Minas Gerais, assim como um estudo sobre a arte dos anos 1970. A dedicação à pesquisa sobre a arte feita em Minas Gerais tem motivo: “É um modo de operar em um contexto em que as reservas técnicas estão cheias de obras sem avaliação e sem visibilidade”. E ainda: “Se um homem fez Inhotim sozinho, como um estado não consegue fazer um museu de artes visuais?”, indaga.


Avaliando o acervo do Museu da Pampulha, que estuda há uma década, Vivas considera que o ponto forte desse conjunto é a produção dos anos 1960, que pode ser analisada no contexto das vanguardas brasileiras. “A coleção tem diversidade de artistas, produção de outros estados brasileiros e mostra como os artistas mineiros conseguiram dialogar de forma interessante com a produção nacional neste momento”, explica. No entanto, ele afirma que a produção dos anos 1970 carece de representatividade. “Nem é lacuna, é um Grand Canyon”, ironiza. Mas Vivas acredita que o problema pode ser solucionado. “Primeiro, com uma pesquisa levantando a constituição do acervo e criando um sistema de valoração. Depois, estudando a vocação da coleção, a identidade dela, de modo a se fazer futuras aquisições”, acrescenta.

ABSTRAÇÕES EM MOVIMENTO – CONCRETISMO, NEOCONCRETISMO E TACHISMO

De Rodrigo Vivas
Editora Zouk, 116 págs., R$ 39



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