Frederick Forsyth desiste de escrever livros de espionagem

Aos 78 anos, autor de 'O Dossiê Odessa' e 'O dia do chacal' obedece à mulher, que o considera velho para se arriscar

por AFP 20/09/2016 20:03

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Kieran Doherty/Reuters
Autor vendeu mais de 70 milhões de livros (foto: Kieran Doherty/Reuters)
Depois de uma dezena de livros, com 70 milhões de exemplares vendidos, o escritor britânico de tramas de espionagem Frederick Forsyth vai parar de escrever ficção porque sua mulher o considera muito velho para viajar pelo mundo em busca de informações.

“Estou cansado e não posso ficar em meu escritório para escrever”, disse o autor, de 78 anos. No ano passado, ele revelou em suas memórias ter trabalhado para o MI6, a agência de espionagem britânica. “Fiquei sem nada para dizer”, garantiu Forsyth, que treinou como piloto para a Royal Air Force antes de trabalhar na agência de notícias Reuters, em 1961. Ele passou a se dedicar aos livros na década de 1970.

Depois de sua última viagem à Somália para obter informações para A lista, Forsyth conta que sua mulher avisou: “Você está muito velho, esses locais são muito perigosos e você não corre tão rápido como antes”.

O autor inglês, que sempre usou máquina de escrever, tentou pesquisar informações sobre a Somália na internet, mas ficou “muito insatisfeito” com os resultados. “Havia estatísticas sobre o país, mas não o que eu queria, o ambiente”, afirmou. Garantiu que seu livro de memórias, The outsider, representa o “canto do cisne”. E arrematou: “Quantos padeiros fazem pão depois dos 78 anos?”.

Em entrevista no London Grill Club, um clube de imprensa inglês, o autor de O dia do chacal, O Dossiê Odessa e O quarto protocolo revelou detalhes de seu trabalho para o MI6 na África e no bloco soviético durante a Guerra Fria.

Contou que apresentava rascunhos de seus livros à agência de espionagem para garantir que não revelaria informações delicadas ou segredos. Os textos eram devolvidos com anotações e parágrafos destacados. Em O quarto protocolo, por exemplo, omitiu como detonar uma arma nuclear depois da revisão dos originais pelo MI6. “Não queria que ninguém fizesse aquilo”, explicou Forsyth.

MISSÃO Na década de 1960, o escritor trabalhou para a Reuters e a BBC na França, Nigéria e Alemanha Oriental. Quando atuava como jornalista na Nigéria, em 1968, foi procurado por “Ronnie”, espião do MI6, que desejava um informante na região de Biafra, cenário de violenta guerra civil.

Em 1973, Forsyth recebeu pedido para uma missão do MI6 na Alemanha Oriental. “Havia um coronel russo trabalhando para o nosso lado na Alemanha Oriental, e tínhamos de pegar um pacote”, revelou em suas memórias. Forsyth dirigiu seu carro até Dresden e recebeu a encomenda no banheiro do Museu Albertinum.

O escritor fala dos serviços secretos com carinho, como “nossos protetores”, e garante que nunca recebeu nada por seu trabalho. “Simplesmente, tentei ajudar o velho país”, justifica, referindo-se à Inglaterra.

Seu primeiro livro, O dia do chacal (1971), narra a tentativa de assassinato do presidente francês Charles de Gaulle por extremistas de direita que não aceitavam a independência da Argélia. O best-seller foi adaptado com sucesso para o cinema pelo diretor Fred Zinnemann. Depois, outros livros dele chegaram às telas: O Dossiê Odessa (1972), sobre a caça a um nazista depois da Segunda Guerra Mundial, e Cães de guerra (1974), sobre mercenários na África.

Defensor há vários anos da saída da Inglaterra da União Europeia, Forsyth disse ter ficado feliz com o resultado do referendo de junho, mas considerou a campanha “ofensiva” e “desnecessariamente insultante”.

 

Dario Thuburn

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