A casa e o mundo lá fora destaca a correspondência enviada por Paulo Freire a prima de 9 anos

A carta foi enviada pelo pedagogo pernambucano durante o seu exílio no Chile

por Augusto Freitas 11/09/2016 10:38

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Arquivo/EM - 12/06/1982
O educador Paulo Freire revolucionou métodos de educação, sempre buscando a ainclusão social (foto: Arquivo/EM - 12/06/1982 )
“É uma coisa boa, Natercinha, que a gente nunca deixe de ser menino. Os homens atrapalham as coisas, complicam tudo. Cresça, mas nunca deixe morrer em você a Natercinha de hoje, que começa a descobrir o mundo, cheia de curiosidade. Se os homens não deixassem morrer dentro deles o menino que eles foram se compreenderiam melhor. Mas eu não quero fazer carta complicada para você. Carta de gente grande. Mas é possível também conversar com menino conversa como esta”.

Longe do Brasil, fugindo da perseguição dos militares e vivendo ao pé da Cordilheira dos Andes, o educador, pedagogo e filósofo pernambucano Paulo Freire escreveria o que seria a primeira de seis correspondências destinadas a Nathercia Lacerda, ou Nathercinha, uma prima de segundo grau que, do Rio de Janeiro, se tornara sua principal interlocutora e esperava notícias de “alguém misterioso, mas bastante presente, mesmo tão distante”.

Era outono de 1967 quando Paulo Freire, exilado com a família no Chile, abriu uma brecha na agenda corrida para começar a registrar um tipo inusitado de alegria, a descoberta da neve. Nathercia jamais havia visto neve, tampouco um inverno rigoroso ao ponto de despertar o interesse de conhecer os Andes, que ela mal sabia do que se tratava. Mesmo assim, foi para Paulo Freire sua amiga “mais moça”.

Durante dois anos, de 1967 a 1969, os primos Nathercia e Paulo trocaram correspondências que somente agora são conhecidas do público. A casa e o mundo lá fora – Cartas de Paulo Freire para Nathercinha, além de mostrar um diálogo sensível daquele período em que os primos foram privados de convivência mais próxima, resgata as memórias de uma infância marcada, segundo a escritora Nathercia Lacerda, pela ternura.

A obra busca mostrar aos leitores características de uma típica família pernambucana repleta de zelo e ternura ao mesmo tempo que pretende resgatar outra forma de compartilhamento de diálogos que não sejam apressados e descartáveis, marcas de um mundo tecnológico onde o contato virtual se sobressai ao físico.

Seria a obra uma espécie de alerta ao leitor sobre o distanciamento que a tecnologia impõe às pessoas, mesmo indiretamente? Para Nathercia Lacerda, hoje com 58 anos e que não tem perfis em redes sociais nem usa telefone celular, o livro, com caligrafia original do educador, é uma declaração de amor à infância, reforçando a importância do diálogo familiar terno, mesmo que por cartas, registros cada vez mais raros.

“Nunca havia revelado o conteúdo das cartas até 2012, embora sabia da importância que ela tiveram para ele, mesmo em um contexto de mistério e incertezas, pois não era fácil para uma família pernambucana, marcada pela intensidade em tudo, enfrentar aquele exílio. Havia riscos e eu, aos 9 anos, não compreendia bem aquela situação. Mesmo assim, ele sempre me dizia para olhar o mundo, estudar, brincar, entender a natureza”, conta.

Por não se tratar de um livro de correspondência tradicional, mas uma obra que narra uma história familiar de um Brasil visto a partir dos olhos de uma criança, a obra é um importante instrumento de estudo para professores e alunos, estimulando o debate como função educativa. Muito disso pelo fato de Paulo Freire sempre deixar claro nas cartas a importância do conhecimento sem perder a essência da infância, mesmo em um período turbulento da história brasileira.

“Naquelas cartas ele demonstrava o zelo e a ternura em me manter a criança que eu era junto comigo na vida adulta. Era alguém que mantinha o menino vivo dentro dele, um acadêmico que escrevia como tio sem deixar de ser um educador”, conta Nathercia. Mais de uma década depois de escritas as cartas, Nathercia conviveu de forma mais próxima com Freire, apesar da vida atribulada e trabalhos que até hoje são amplamente reconhecidos na formação educacional no Brasil. “Eu não podia escrever o nome dele como destinatário. O livro é uma forma de resgatar a memória e o trabalho dele, com um olhar diferente, sensível. Ali, Paulo escreve sobre adultos e alfabetização deles se dirigindo para as crianças”.

O MÉTODO

CONTRA O MODELO BANCÁRIO

Paulo Freire enfrentou com veemência o conceito que batizou de “modelo bancário da educação”, no qual o aluno em sala de aula era visto apenas como uma “conta vazia a ser preenchida pelo professor”. “Transformar os alunos em objetos receptores é uma tentativa de controlar o pensamento e a ação, leva homens e mulheres a ajustarem-se ao mundo e inibe o seu poder criativo”, dizia.

CULTURA DO SILÊNCIO

De acordo com Freire, o sistema de relações sociais dominantes cria este conceito de “cultura do silêncio”, que impõe uma imagem silenciada, negativa, atrasada e suprimida aos oprimidos. Para Freire, o estudante precisa desenvolver uma consciência crítica para que reconheça que a “cultura do silêncio” foi criada tão somente para oprimir. “A cultura do silêncio elimina os caminhos de pensamento que levam a uma linguagem crítica”.

ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS

Consistiu em uma proposta de alfabetização de adultos implementada em três etapas (investigação, tematização e problematização). Segundo o educador, o método foi desenvolvido quando ele dirigiu o Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife, tendo formado um grupo para testar o método na cidade de Angicos (RN). Através do modelo, 300 cortadores de cana-de-açúcar da cidade potiguar foram alfabetizados em 45 dias com 40h de aula.

PEDAGOGIA DO OPRIMIDO

Neste livro, escrito durante o exílio no Chile em 1968, o pedagogo tratou da distinção entre opressores e oprimidos, fazendo a distinção entre as posições em uma sociedade injusta. Defendia que a educação deveria permitir que os oprimidos pudessem recuperar o senso de humanidade e superassem a sua condição. Os educadores, portanto, deveriam assumir uma postura revolucionária, conscientizando as pessoas da ideologia opressora.

EDUCAÇÃO E LIBERDADE

Exilado no Chile, depois de uma estadia de pouco tempo na Bolívia nos primeiros anos após o golpe militar de 1964, Paulo Freire escreveu e publicou no Brasil, em 1967, seu primeiro livro, chamado Educação como prática da liberdade. Na obra, defendeu a pedagogia conscientizadora como força de mudança e libertação, propondo condições e métodos para que nenhum indivíduo fosse excluído ou posto à margem da vida nacional.

QUEM FOI PAULO FREIRE

Nascido no Recife em 1921, Paulo Reglus Neves Freire foi um dos responsáveis por influenciar o movimento “pedagogia crítica”. Teve amplo destaque por seus trabalhos na área da educação popular, com métodos voltados para a escolarização e formação da consciência política. Faleceu em São Paulo, em 1997, aos 75 anos. Em 2012, foi considerado o patrono da educação brasileira.

INSTITUTO PAULO FREIRE (IPF)

Foi criado em 1991. Desde o início, Paulo Freire acompanhou o desenvolvimento do projeto, sugerindo nomes, definindo o estatuto, a linha básica de atuação e decidindo as principais demandas após a fundação oficial, em 1992. Recebeu do Ministério da Justiça, em 2009, o título de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Tem membros distribuídos em mais de 90 países em todos os continentes.

OS PENSAMENTOS

Educação ou funciona como um instrumento que é usado para facilitar a integração das gerações na lógica do atual sistema e trazer conformidade com ele, ou ela se torna a ‘prática da liberdade’, o meio pelo qual homens e mulheres lidam de forma crítica com a realidade e descobrem como participar na transformação do seu mundo”

“Nenhuma pedagogia que seja verdadeiramente libertadora pode permanecer distante do oprimido, tratando-os como infelizes e apresentando-os aos seus modelos de emulação entre os opressores. Os oprimidos devem ser o seu próprio exemplo na luta pela sua redenção”

“A educação faz sentido porque as mulheres e homens aprendem que através da aprendizagem podem fazerem-se e refazerem-se, porque mulheres e homens são capazes de assumirem a responsabilidade sobre si mesmos como seres capazes de conhecerem”

A CASA E O MUNDO LÁ FORA – CARTAS DE PAULO FREIRE PARA NATHERCINHA
. Cristina Laclette Porto e Denise Sampaio Gusmão (pesquisadoras)
. Zit Editora
. 88 páginas
. R$ 47,90

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